Ao ritmo atual, levará 123 anos até atingirmos a paridade de género. É o que nos diz o Relatório Global sobre a Desigualdade de Género — ou Global Gender Gap Report –, relatório do Fórum Económico Mundial publicado em junho passado.
Lançado anualmente desde 2006, e com 148 economias incluídas nesta edição, este relatório é uma referência global na aferição do ponto de situação da paridade de género. No fundo, numa escala entre 0 e 1, mede a “distância percorrida” até à paridade, com foco em quatro dimensões: participação e oportunidade económica, nomeadamente, através da análise da disparidade salarial; educação, contanto com o nível de escolaridade; saúde e sobrevivência; e empoderamento político.
Em 2025, o índice global atingiu os 68.8% de paridade e na Islândia, que lidera há 16 anos consecutivos, 92.6%. As economias europeias, entre elas o trio nórdico Finlândia, Suécia e Noruega, voltam a dominar. Mas este ano há surpresas a registar no top 10: o Reino Unido (83.8%), na 4.ª posição, e a Moldávia (81,3%) em 7.º, pela primeira vez nos dez primeiros. Olhando para o exemplo britânico, que a última vez que integrou o top 10 foi precisamente há 19 anos, no primeiro relatório publicado, o motor da subida foi a paridade ministerial. Mas o reverso da moeda diz-nos que nada está garantido: um governo paritário, para além de não permanente, não reflete necessariamente medidas paritárias. Assim sendo, cada posição no índice global é quase um voto de confiança, sempre sujeito a subidas e descidas, assim sejam mais ou menos paritárias as economias analisadas.
Comparando com o relatório de 2024, Portugal desceu da 17.ª para a 34.ª posição, com 76% de paridade de género já alcançada. Embora no que toca à saúde e educação os valores registados sejam positivos, entre as quatro dimensões – em Portugal e globalmente -, o empoderamento político continua a ser onde o caminho para a igualdade plena é mais longo e mais lento.
Relatórios como este podem passar despercebidos, mas nem por isso são menos importantes. Os dados e os factos informam e fundamentam conversas que não podem mais ser adiadas. Às quais devem seguir-se políticas públicas e decisões estratégicas concretas que respondam – e correspondam – às necessidades identificadas. E este é apenas um dos muitos instrumentos que temos à nossa disposição, constantemente atualizados, espelhando avanços e recuos nesta matéria. Mas a igualdade de género continua a não ser uma prioridade clara.
Nas eleições legislativas de maio, foram eleitas 77 deputadas para a Assembleia da República, um terço dos 230 mandatos atribuídos. Um valor abaixo dos 40% estabelecidos pela Lei da Paridade (Lei Orgânica n.º 3/2006, alterada pela Lei Orgânica n.º 1/2019). No Governo, são 60 os nomes que compõem o executivo liderado por Luís Montenegro, 20 são mulheres. Portugal teve (apenas) uma mulher Primeira-Ministra, Maria de Lourdes Pintasilgo (também ela a primeira mulher embaixadora). Estamos muito ocupados a pensar nos presidenciáveis. E onde estão as presidenciáveis? São assimetrias significativas e incontestáveis.
Se vamos ter de esperar 123 anos para chegar à paridade plena? Não sei. Mas sei que só vamos lá chegar quando, a par de leis, quotas e medidas, venha uma mudança de mentalidade e, sobretudo, vontade de fazer diferente. Até lá, vamos esperando os anos que forem precisos.
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.