Sofri de ataques de pânico durante quase dois anos. Vieram de mansinho, inicialmente pareciam apenas um aviso, aconteciam pontualmente e fui gerindo como pude.

Mas estas questões de saúde mental são tramadas e, quando não atacadas logo de início, crescem como uma bola de neve, um monstro contra o qual não temos corpo suficiente para lutar. Estamos sempre em desvantagem, somos o elo mais fraco.

Olhamos à volta e pedimos socorro a quem está mais próximo. Desabafamos com amigos, choramos baixinho, pesquisamos até à exaustão para perceber como fazer marcha-atrás até ao ponto de partida, numa tentativa de mudar a direção e seguir pelo caminho certo.

Mas infelizmente, isso já não é possível. E uma vez entrados nesta jornada, temos um trajeto tortuoso, duro, com altos, baixos, avanços e recuos. E o pior de tudo? É que vai ser um percurso feito, inevitavelmente, de forma solitária. Estamos sozinhos numa estrada escura, sem indicações, e temos de sair dela até conseguir desembocar na estrada principal, que nos devolve à vida.

Para quem sofre ou já sofreu desta condição, as palavras seguintes fazem parte – em letras gordas – do dicionário: palpitações, falta de ar, suores, calor intenso, pressão na mente, pensamentos catastróficos em circuito ininterrupto, visão turva, membros dormentes… em suma, um horror. Uma sensação de descontrolo e colapso iminente que, mesmo durando por vezes poucos minutos, traumatiza quem os atravessa e não passa despercebido a quem está presencialmente connosco naquele momento.

Começamos por ir a um médico, uma urgência, um psicólogo. Eu fui. Foi assim que comecei. E foi precisamente no início das consultas que percebi o quanto estava sozinha.

Os serviços de saúde não estão preparados para nos guiar num caminho certo. Não têm uma receita ou protocolo para seguir comparativamente com uma doença causada por um vírus ou bactéria. Vamos ao psicólogo, mandam-nos para o médico porque será preciso eventualmente medicação. O médico manda-nos para o psicólogo, porque é preciso ir à raiz do problema. Depois o psicólogo pode não fazer match connosco, porque a relação com o paciente tem de funcionar, é como um casal que precisa estar no mesmo registo. E lá andamos nós, entre uma consulta e outra, tentando tudo o que nos aparece à frente, consumindo toneladas de informação que nem sempre é a mais acertada.

Foi esta a minha experiência, provavelmente igual ou parecida com tantas outras. Uma jornada embutida numa abordagem de tentativa-erro, na qual tentava psicólogos, médicos de clínica geral, psicoterapia, meditação, yoga, estratégias de todas as formas e feitios para tentar lidar com o tema, algumas das quais parecem quase ridículas vistas de fora e de quem nem imagina o que isto é, numa tentativa de desligar o botão dos pensamentos idiotas e focá-los no que seria correto.

Até que chega o dia em que começamos a perceber o que realmente começa a ter um impacto positivo e eficaz em nós. E quando se começa a ver uma luzinha lá ao fundo, a estrada passa a ter menos curvas, e persegue-se essa luz até ficar maior, gigante, e que seja capaz de nos abraçar de volta à vida.

No meu caso em particular, e depois de alguns avanços e recuos, fiz psicoterapia durante alguns meses, complementando com sessões de meditação que me ajudavam a andar mais calma. Como efeito colateral dos ataques de pânico, também desenvolvi agorafobia, que me impediu durante mais tempo de retomar a minha vida anterior e que me obrigou a um acompanhamento posterior específico neste tema. Pelo meio, ainda tive de tomar ansiolíticos em SOS, receitados pelo médico, claro, porque existem dias realmente muito difíceis. Mas temos de perceber que tudo faz parte desta fase que estamos a atravessar. É um caminho necessário para o fim que queremos alcançar.

E foi por isso que resolvi escrever o livro Como me curei dos ataques de pânico. Porque normalmente este caminho, além de só, faz-se em silêncio. Não é fácil para a maioria abrir ao mundo o livro da sua vida na frágil página que está a viver. E isso atrasa ainda mais o processo. Como me aconteceu a mim, que gostaria tanto de ter tido um testemunho de quem se tivesse conseguido libertar do problema e de quais as estratégias e ferramentas para o conseguir. Certamente me teria ajudado a encurtar caminho, a percorrer uma estrada menos sinuosa e, essencialmente, a ter esperança e certeza de que iria chegar a um final feliz.

Mas eu não conseguia encontrar essa informação, apesar das buscas incessantes. E por isso a incerteza andou sempre de mãos dadas comigo, numa interrogação constante sobre a existência de uma cura ou, pelo contrário, a necessidade de saber manter e gerir uma condição crónica.

Mas curei-me. Há mais de dez anos que não tenho nenhum ataque de pânico, e por isso acho que tenho crédito e propriedade suficiente para dizer esta frase sem rodeios. Relatei em livro o meu percurso, o que teve real impacto em mim, e o que praticamente não teve efeito.

Não tenham medo. Não receiem médicos, medicação, técnicas e ferramentas que vos vão ajudar a perceber o que funciona. Avancem para as ajudas que considerarem necessárias. Respirem, meditem, ouçam, leiam, façam terapia, parem um pouco, tenham paciência. Eu só deixei a psicoterapia e consultas posteriores de psicologia depois de me sentir segura para ser “entregue” de volta à vida. Nem podia ser de outra forma, não queria arriscar um retrocesso.

Aos dias de hoje sinto-me muito bem. Mais forte, mais madura, olho para a vida numa perspetiva mais pragmática da mesma, permitindo uma gestão emocional mais forte e sólida.

Se posso algum dia vir a sofrer novamente? Claro, ninguém está livre. Mas tenho a certeza de que terei certamente outras capacidades e maturidade para lidar com o tema, caso isso aconteça.

Apesar do caminho difícil, importa ressalvar que nem tudo é mau. Esta jornada inclui também obrigatoriamente um processo de transformação interior. Sabem quando vamos avançando na vida e costumamos referir que vamos evoluindo um passo – ou um degrau – de cada vez? Depois de ter passado por isto, não sinto que tenha avançado um degrau. Avancei uns dez de uma só vez. Sinto a capacidade de olhar lá do alto, para a vida que passa, numa visão abrangente que me permite visualizar toda a “floresta” e não só a “árvore”.

Os ataques de pânico mudaram-me, sim, foi inevitável isso não acontecer. Mas essa mudança faz-me estar aqui, a escrever e a tentar trazer esperança. Pelo menos é esse o objetivo, de forma a poder ajudar quem chega agora ao início deste caminho.

Muita força a quem está a passar por problemas semelhantes. O que hoje parece escuro pode, aos poucos, ganhar outras cores.

Célia Francisco é gestora, licenciada em Engenharia Informática. É autora do livro Como me curei dos ataques de pânico (ed. Primeiro Capítulo).

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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