Estudada na Psicologia como parte integrante dos processos mentais, a memória pode ser uma bênção ou uma cruz. Para aqueles que, como eu, fazem da cruz uma bênção, e dessa bênção salvação, vale bem o esforço empreendido na busca de uma passagem para um outro tempo numa das suas muitas e variadas encruzilhadas. A memória, tal como os sentidos, por vezes engana; no entanto, não fosse essa faculdade e não teríamos História, e sem História não teríamos Identidade. Este registo deve ser encarado como uma contribuição para a fluidez da engrenagem.
«When does one first begin to remember?». Assim começa Churchill o livro sobre os seus primeiros anos. Quando é que os factos imprimem pela primeira vez uma camada tal no nosso organismo que nos permitem a eles voltar mais tarde, quando aqueles já não se encontram presentes aos nossos sentidos? O que primeiro perdura? Provavelmente, uma impressão de um som ou até de uma voz, de um odor, de um movimento ou de uma face acolhedora junto ao berço, de um olhar ternurento ou de um abraço reconfortante. Ou os contornos de um local. A Irlanda no caso do estadista britânico, o Externato de Santa Margarida no meu próprio caso. Ali, na (outrora) vila de Gondomar, passei os alvores da minha existência rodeado de carinhosas freiras e pelos primeiros amigos. Desde a creche até finalizar o 1.º Ciclo, tive uma experiência deveras agradável, acima de tudo útil, o que se tornaria decisivo para o meu futuro. Para os mais seculares e para os mais religiosos, embora por motivos diversos, o epíteto “útil” pode não parecer coadunar-se com a ideia de uma moral religiosa. Contudo, os alicerces e os ensinamentos que uma ética religiosa (porquê ter medo de recorrer ao conceito?) proporciona revelam-se decididamente pragmáticos e pragmaticamente decisivos quando se trata de buscar um caminho ou uma direção. O catolicismo, com os seus preceitos, conselhos e tradições, procura (também) dar uma resposta à velha questão filosófica “o que devo fazer?”.
Como outros colégios e instituições de vocação católica, o Externato enfrentou dificuldades e preconceitos por parte dos revolucionários mais zelosos, embora amparado pelo considerável anonimato providenciado pela província. Apesar da tentativa de alguns de repetir os avanços e desmandos da I República, o Externato prosperou na sua jornada pedagógica, e é, desde há vários anos a esta parte, uma referência no ensino e a primeira opção de muitos pais da região. Prevejo-lhe um longo e fértil porvir.
Eu e os outros colegas nascidos no ano da Revolução, tivemos o privilégio de usufruir das suas modernas instalações, dos seus amplos espaços verdes e, principalmente, dos seus recreios. A Quinta da Azenha, rodeada de arvoredo e rochedos – que pareciam, uns e outros, a nós, imberbes, imensos, – situa-se relativamente perto do centro da localidade. Muitas vezes, eu e o meu avô paterno, calcorreamos a distância que nos levava até casa, entretendo alegres charlas. Ainda hoje existe, conforme referi, na sua serena fama e no seu nobre esplendor, tendo eu já lá voltado várias vezes, entretanto. E sempre que lá retorno sou muito bem recebido, quer pelos pupilos quer pelas freiras franciscanas missionárias de Nossa Senhora. Contudo, a vida quotidiana decorre sem contemplações e o tempo é escasso, e há mais de uma dezena de anos que não visito o espaço. Com muita pena minha.
Uma educação religiosa num tempo revolucionário é uma aposta arriscada, mas foi essa a que os nossos pais fizeram. Considero que aproveitei de forma bastante satisfatória esses primeiros anos e, apesar de ter perdido o contacto com as minhas amizades da altura, à exceção do meu primo, olho com carinho e saudade esses momentos partilhados com alegria e despreocupação. Enquanto o país vivia em convulsão política, nós éramos crianças felizes; e felizes no ponto supremo, que é a felicidade ignorada, ou seja, desconhecendo que éramos felizes.
Relembro aqui um episódio caricato, que demonstra bem a bondade das irmãs e a sua sapiência, e, devo dizer, a minha (natural) infantilidade. Nunca me faltando sustento, não era propriamente o que se chama, com certa graça, um “bom garfo”. Detestava os momentos prandiais, e não me coibia de o demonstrar à minha progenitura: passava horas sentado à mesa, a comida a embolar na boca, esperando que algum dos dois adultos tivesse a caridade de levantar o prato praticamente intocado – ou, melhor ainda, que ele, o prato, simplesmente desaparecesse. Ora, no refeitório do Externato não podia incorrer em semelhante comportamento. Seria demasiado infantil. Ao invés, comia a custo o acompanhamento, geralmente arroz ou batata, e o bolinho de bacalhau, o rissol, o pedaço de bife cortado ou a porção de peixe interciso, num gesto que eu pensava ser invisível para o mundo, atirava para debaixo da mesa na direção de uma outra cadeira ocupada. Não desejava acusar nenhum colega, somente confundir o possível investigador. Claramente, não foi um dos momentos mais gloriosos da minha infância. Usei este expediente durante algum tempo. Um dia, da parte da tarde, quando ia a entrar na sala de aula, a irmã Joaquina chamou-me à parte, e num tom ríspido e de rompante, acusou-me diretamente do pecadilho. Embaraçado, e ciente de que iria confessar abertamente a conduta, não tentei desculpar-me – na minha mente não tinha desculpa. Assumi o ignóbil feito, garantindo que não voltaria a acontecer. Escusado será dizer que passei esse resto de tarde e os dias seguintes apreensivo, corroía-me a dúvida se iria ser denunciado aos meus pais. Oh, o que se passa nas costas dos simples e inocentes! Mal eu desconfiava que os meus pais já estavam ao corrente de tudo antes do meu acusador me ter enfrentado. Só descobriria este facto uns meses mais tarde, durante uma das festas do Externato, quando ouvi a irmã comentar, numa conversa com os meus pais, exibindo um largo sorriso cúmplice nos lábios, que eu não era “muito dado às refeições”. Não sei que expressão me assomou ao rosto, mas tentei desencantar uma desculpa para sair dali, daquele momento confrangedor. Nem uma palavra mais foi propagada sobre o assunto.
Sendo eu agora professor, só nessa condição, decorridas décadas sobre o sucedido, me apercebi da enorme beleza da decisão da irmã Joaquina. Enquanto procedia como advogada de defesa perante os meus pais, à minha frente agia enquanto advogada de acusação, não se coibindo de expor a minha falha. Assim procede o Tribunal da Bondade e da Pedagogia, ora reprovando a conduta, ora protegendo o agente.
A memória não deixa de ser surpreendente. No meio de tantas ocorrências, incidentes, momentos alegres e felizes (aniversários, festas, brincadeiras), instantes de dor (quedas, bulhas), atribui maior importância a determinado fenómeno. Uma análise fria, perante a projeção do filme daqueles anos, provavelmente daria predominância a outras cenas e acontecimentos. Contudo, a memória tem o seu próprio tempo, ritmo, cadência, densidade. Gostaria de dizer, mas a Ciência desaconselha, que a memória é o que nos faz humanos. Esta memória, pelo menos esta, é minha. E agora também é sua.