Sete em cada dez lares de idosos em Portugal não têm hoje uma única vaga livre, e quem procura uma pode esperar seis meses ou mais. O país tem apenas quatro camas por cada cem idosos e é o segundo mais envelhecido da União Europeia, logo atrás da Itália. Os números são do 4.º Retrato das Residências Sénior em Portugal, um estudo da Via Senior e da BA&N Research Unit divulgado em 2026. Não são números de alarme, são números de um país que está a envelhecer depressa e de um setor social que, todos os dias, faz o possível para dar resposta a isso.

Vale a pena, por isso, olhar com atenção para a forma como financiamos esse setor, não porque esteja a falhar, mas porque pode estar a ficar cada vez mais difícil de sustentar tal como está. Um lar de idosos recebe, hoje, um valor calculado a partir do custo de manter cada vaga em funcionamento: salários, alimentação, despesas correntes. Faz sentido que assim seja. Mas isso também significa que o financiamento acompanha o esforço de manter o serviço a funcionar, sem captar diretamente se a pessoa que ali vive está mais bem cuidada, mais acompanhada, com menos quedas ou menos solidão. Não é que ninguém se preocupe com isso. É que o sistema de financiamento, tal como existe, não foi desenhado para o medir nem para o premiar.

Este modelo chama-se acordo de cooperação e existe há quarenta e seis anos. Nasceu em 1979, quando o Estado reconheceu que não tinha capacidade para cuidar sozinho de idosos, crianças e famílias em dificuldade, e decidiu apoiar financeiramente as centenas de Misericórdias e associações que já faziam esse trabalho havia décadas. Foi, e continua a ser, uma parceria que sustenta uma parte enorme da rede social portuguesa. A questão que vale a pena colocar não é se deve continuar a existir, mas se pode evoluir.

Há uma pista interessante que já foi experimentada fora e dentro de Portugal: pagar, pelo menos em parte, consoante os resultados obtidos, e não apenas consoante a despesa. Na cidade inglesa de Peterborough, em 2010, um programa de apoio a ex-reclusos só foi pago pelo Estado depois de comprovar uma redução de 9% na reincidência criminal, financiado até lá por investidores dispostos a assumir esse risco. Portugal experimentou, a partir de 2014, algo parecido em áreas como a formação profissional, com resultados animadores. A ideia, em ambos os casos, é a mesma: testar um método novo à escala pequena e, se funcionar melhor ou sair mais barato, torná-lo parte do financiamento regular.

É neste último passo que ainda há espaço para melhorar. Os projetos-piloto em Portugal têm gerado boas avaliações, mas o caminho entre esses resultados e o financiamento do dia a dia das respostas sociais continua pouco percorrido. Não é falta de vontade, é que ainda não construímos bem essa ponte. Fazê-lo não significaria financiar menos as IPSS. Significaria financiar de forma mais inteligente aquilo que sabemos que funciona. É justo dizer que isto não é simples de fazer bem. Muitas instituições são pequenas, geridas por voluntários, sem capacidade técnica para medir resultados com rigor. E um sistema mal desenhado pode, sem querer, penalizar quem trabalha com os casos mais difíceis, como uma pessoa com demência avançada e sem família, se essas situações forem mais lentas a mostrar melhorias do que outras. São desafios reais, que qualquer mudança teria de resolver com cuidado, começando por experiências pequenas e bem acompanhadas antes de qualquer alargamento.

A sustentabilidade da Segurança Social não tem de significar gastar menos com quem mais precisa. Pode significar gastar melhor com quem já cuidamos bem. Talvez comece por aí: não perguntar só quanto custa uma cama, mas o que essa cama consegue mudar.

O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.