A coesão territorial é das bitolas inteligentes para, enquanto sociedade, garantirmos justiça social, harmonia ambiental com habitação, saúde (incluímos o desporto), segurança no espaço público, e transportes acessíveis. Os residentes do centro histórico usam cada vez menos o automóvel, porém não é possível abdicar radicalmente porque numa Freguesia de Lisboa como Santa Maria Maior, com 10.051 residentes a habitar as colinas acentuadas de Santana, Castelo e Chiado, o índice de envelhecimento é de 231,66, dos quais 40% dependem de cuidadores, apesar de apenas 8.537 constarem nos cadernos eleitorais, 4.065 terem votado nas últimas eleições legislativas, traduzindo-se numa abstenção superior a 50%.
Aplicável em diferentes escalas territoriais, a coesão, do ângulo de uma arquiteta, autarca eleita, foca-se na preservação do riquíssimo património cultural, na gestão patrimonial e arquivística, da abordagem mais artesanal ligando-a à inovação na gestão dos recursos, das candidaturas do património material ao alargado património imaterial.
Percebe-se que a coesão numa Freguesia, num bairro, não reside apenas nos símbolos da sua representação, mas na humildade dos factos, na generosidade das pessoas, na felicidade na entrega aos ofícios e serviços que nos fazem sentido, na rotina, nas dificuldades, a falta que faz um mercado a sério com produtos frescos locais, no cuidar da atmosfera calma do espaço público, no conhecermos os vizinhos pelo nome e que nos podem valer, na autonomia.
Em sentido contrário, apesar da riqueza à nossa volta, de um forte sentimento comunitário e solidariedade institucional para com os mais idosos, existe discriminação entre moradores e comerciantes com muitos deveres, regulamentos e coimas por infrações de centímetros, enquanto para outros moradores e comerciantes nem há rei, nem roque, como algumas reportagens têm, com consternação e coragem, vindo a denunciar o que sabemos há anos: a Mouraria foi alvo de políticas e práticas erradas em executivos anteriores, e para o corrigir precisamos de um consenso alargado, de estar devidamente mandatados para, no limite das nossas competências e em articulação com as autoridades, parar o Licenciamento Zero em nome da saúde pública e segurança, limpar o passeio público de comboios de esplanadas fazendo cumprir o Regulamento Municipal de Equipamento Urbano, combatendo a poluição visual da qual julgávamos estar livres desde os anos 90. Muito há a fazer para melhorar as condições dos trabalhadores desta paróquia, desde logo a formação.
Lisboa aberta ao mundo, tem Zero em leveza. Os Descobrimentos são mais consequência que causa. Ultrapassadas as ressacas do cerco lendário de Martim Moniz, da guerra da Restauração, do grande terramoto, Santa Maria Maior detém dos maiores tesouros nacionais desse património relicário romano enviado pelo Papa Urbano IV para recuperação da cidade. Queremos menos turismo de massas e mais turismo cultural com travão a fundo nos 71% em Alojamentos Locais e 47 projetos associativos BIPZIP, Bairro e Zona de Intervenção Prioritária, também para a habitação acessível municipal. Vale a pena uma visita com tempo para se perderem pelas escadinhas e livrarias do Chiado a Alfama, ao Castelo, peçam conselhos.
A reforma administrativa com delegação de competências do Município nesta freguesia, trouxe disrupção ao sistema de manutenção do espaço público e higiene urbana sobrecarregada por 300.000 turistas diários, e ao desperdício de espaços que deveriam estar ao dispor, por exemplo, da Academia de Amadores de Música ou de um Centro de Recursos a funcionar para criativos. Outras Juntas de Freguesia do centro de Lisboa souberam acompanhar essa responsabilidade com pragmatismo e acolhimento, sem ceder a atividades que incomodam moradores e estruturas sem qualidade estética que se impõem a um centro histórico que se quer espelho da massa crítica de uma Capital. Ainda a invasão dos nossos bairros nos Santos Populares: venham as Festas, mas sem música pimba, ninguém merece, e vivam as Marchas!