A capacitação digital dos alunos não é uma opção metodológica nem uma moda tecnológica; é uma urgência educativa. Os professores não podem continuar a adiar esta transformação, porque cada adiamento tem um custo humano real. Já vi, noutras épocas, o que acontece quando se insiste em ensinar o que não é essencial: perde‑se uma geração. Eu própria sou testemunha disso. Na minha infância, acreditava‑se que as raparigas precisavam de saber bordar e fazer malha, como se essas competências fossem indispensáveis à vida adulta. Eu nunca consegui aprender a fazer malha ou bordar; aprendi apenas a colocar botões e a fazer bainhas. Também nunca aprendi a fazer uma estante de madeira ou a fazer macramé, e sobrevivi perfeitamente até aos 56 anos sem essas competências. Estavam convencidos de que eram essenciais,  não eram. E esse erro de avaliação mostra como se pode falhar quando se confunde tradição com necessidade.

Hoje, o risco é outro: o de falhar na literacia digital. Se os professores não agirem agora, perdemos uma geração para a desorientação tecnológica, para a desigualdade de acesso e para a incapacidade de participar plenamente num mundo digital. A literacia digital é tão fundamental como ler, escrever ou calcular. É o que permite aos alunos navegar informação, proteger dados, colaborar online, criar conteúdos, pensar criticamente e participar na sociedade contemporânea. Ignorar isto seria repetir o erro do passado — ensinar o que não é essencial e falhar no que é decisivo.

Para evitar este risco, os professores devem adoptar um modelo facilitador, simples e coerente. O uso de plataformas como o Google Classroom deve ser organizado por turma, e não por disciplina. Um canal único evita a fragmentação, reduz a carga cognitiva e dá aos alunos um espaço digital claro e estável. A multiplicação de canais,  um por disciplina, um por projeto, um por atividade,  não promove literacia digital; promove confusão e torna-se uma transição burocrática.

O conselho de turma deve assumir a responsabilidade de definir, no início do ano, quais as ferramentas digitais a utilizar. E essa escolha deve ser limitada: três ferramentas no máximo. Esta limitação não é uma restrição; é uma estratégia de literacia digital. Trabalhar poucas ferramentas permite que os alunos as dominem, explorem e utilizem de forma crítica e autónoma. Trabalhar dez ou quinze plataformas dispersa conhecimento, aumenta a ansiedade e transforma a tecnologia num obstáculo.

Ferramentas como o Padlet ou o Canva são excelentes exemplos de recursos que podem ser integrados num modelo simples e eficaz. Mas é fundamental reconhecer que cada ferramenta exige iniciação, tempo de adaptação e um trabalho docente que muitas vezes não é visível. A tecnologia não é dinâmica por si só; torna‑se dinâmica quando o professor investe tempo a aprender, testar, adaptar e integrar. Este trabalho invisível  de preparação, implementação, experimentação e ajuste,  é essencial para que os alunos tenham uma experiência digital fluida e significativa.

A capacitação digital dos alunos é, portanto, uma questão de justiça educativa. Não é apenas preparar para exames digitais; é preparar para a vida. É garantir que todos os alunos, independentemente da sua origem, dos seus recursos ou das suas circunstâncias, têm acesso às competências necessárias para participar plenamente na sociedade digital. E é por isso que este trabalho tem mesmo de ser realizado. Adiar significa aceitar que alguns alunos ficarão para trás. Adiar significa permitir que a desigualdade se instale. Adiar significa perder uma geração,  como já aconteceu no passado, quando se ensinavam bordados em vez de competências essenciais.

Os professores não podem permitir que isso aconteça. Os professores têm de agir agora.