A arte serve muitas vezes como uma representação da vida, não só através daquilo que retrata, mas também através daquilo de que é feita. Ao longo dos anos vimos os media artísticos evoluir, desde os mais rudimentares materiais disponíveis na natureza, até aos pixéis que espelham os algoritmos de artistas como Refik Anadol.

Circa século XVI o chiaroscuro de Caravaggio dava que falar por romper com os ideais clássicos da época e trazer um realismo emocional inédito. Hoje, conceitos que antes pareciam distantes da prática artística, como os NFTs (tokens não fungíveis), tornaram-se parte do imaginário coletivo, com artistas como Pak cujo trabalho The Merge atingiu uma valorização de mercado acima de 90 milhões de dólares. O uso de tecnologias, como blockchain, adiciona uma nova camada de complexidade a uma questão já multidimensional.  O que constitui “arte” na era digital e até onde poderemos evoluir?

Com a evolução da tecnologia, a arte transforma-se e nascem novos conceitos. Podemos observar, por exemplo, o aumento de instalações digitais nos museus, que fazem uso de inteligência artificial para criar arte generativa (ver Casey Reas).

O uso destas novas técnicas desafia os limites da arte tradicional. Se um quadro pintado a óleo se apresenta igual a todos o que o observam, uma instalação digital pode ter a resiliência para responder a cada um dos espectadores, reagindo aos movimentos, aspeto e até a experiências anteriores.

Podemos pensar nestas obras como um feed de rede social: vemos aquilo com que, com base num algoritmo, temos mais probabilidade de interagir. Ora com a arte a ótica pode ser diferente, não promover a interação, mas outro fim: a emoção, talvez? Desta forma podemos imaginar um futuro em que o indivíduo que observa uma obra de arte é reconhecido, sendo-lhe apresentado um conjunto de imagens ou sons hiperpersonalizados de modo a passar a mensagem que o artista deseja, mas fazendo-o de forma a que esse sujeito, com base em todas as informações que obtivemos sobre o mesmo, responda da forma desejável. Por exemplo, um artista que queira construir um trabalho que seja uma reflexão acerca do sonho, como fez Henri Rousseau com Le Rêve em que uma mulher descansa no sofá, poderá substituir a personagem principal desta obra por um sujeito mais próximo de quem a observa.

O avanço da tecnologia, como inteligência artificial, abre novas possibilidades para a criação artística, oferecendo formas inéditas de interação e personalização. Certamente este será um futuro onde se esbaterão as barreiras entre capacidades artísticas e técnicas. Poderá um algoritmo ser igualmente “arte” no sentido tradicional do termo? E quais serão as implicações de um mundo feito a “pensar em nós’’? Por um lado, viver numa sociedade em que as mensagens são passadas mais facilmente, mais personalizadamente de forma a atingir eficiência máxima talvez possa promover uma ligação mais fácil entre duas partes e maior empatia. Mas por outro, também poderá fazer com que percamos a capacidade de decifrar o outro por falta de necessidade de o fazer.

O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.