Todos os anos, a história repete-se como um eco trágico: florestas consumidas pelas chamas, aldeias evacuadas à pressa, populações em pânico, bombeiros levados ao limite e políticos a prometer “planos estruturais” que nunca saem do papel.
Mas Portugal não arde por azar. Arde porque falhámos. Porque décadas de políticas públicas mal desenhadas com a esquerda a conduzir o país durante boa parte desse tempo, criaram o terreno fértil onde a tragédia se repete.
A monocultura do eucalipto, incentivada por sucessivos governos desde o Estado Novo à esquerda e à direita foi uma escolha deliberada ao serviço da indústria de celulose, alimentada por subsídios europeus. O abandono do interior não é uma inevitabilidade histórica. Foi uma escolha. Uma opção consciente de quem privilegiou retórica social e distribuição de subsídios em vez de planeamento, enquanto desmantelava os serviços florestais e criava estruturas burocráticas ineficazes como resposta simbólica à crise.
Foram décadas de decisões erradas como a extinção dos serviços florestais em 2006 ou a proliferação de subsídios de emergência, que apenas reagem ao problema em vez de o prevenir e que transformaram a floresta num barril de pólvora. A prevenção foi ignorada. A gestão de longo prazo, adiada. E a economia dos fogos tornou-se realidade. Optamos pelo combate em vez de ordenamento, contratos em vez de estratégia.
Pior ainda, a Força Aérea, que tinha um papel estruturante no combate aos incêndios, foi afastada dessa missão, abrindo caminho a contratos milionários com operadores privados, muitas vezes mal fiscalizados e pouco eficazes. O abandono da Força Aérea foi uma opção política estratégica favoreceu interesses corporativos ao abdicar de uma estrutura nacional que poderia operar com eficiência, responsabilidade e economia.
Hoje, com a reposição gradual de meios próprios, temos a oportunidade de retomar uma solução estruturada, resiliente e sustentável. E essa deve ser a rota para reduzir o “negócio dos incêndios” e proteger vidas, florestas e os cofres públicos.
Vamos ser claros: há quem beneficie desta tragédia cíclica.
• Empresas que vendem e operam meios aéreos;
• Corporações de bombeiros com pouca transparência;
• Autarquias que recebem verbas extra em cenários de calamidade;
• Interesses políticos que alimentam o discurso emocional e o pânico mediático para evitar enfrentar as causas reais.
A desgraça dá lucro. E por isso persiste.
Nada disto põe em causa o esforço sobre-humano dos bombeiros. São, de facto, heróis. Mas também são parte de um sistema que os usa e instrumentaliza. Algumas corporações transformaram-se em estruturas semi-políticas, com fraca formação técnica e pouca responsabilização.
Precisamos de rever o seu papel, garantir transparência e profissionalismo, e criar um sistema auditável e eficiente.
• Interior despovoado, sem incentivos à fixação;
• Cadastro florestal ainda incompleto e ineficaz sem ele, ninguém sabe quem gere o quê;
• Centralismo político asfixiante;
• Politização da floresta e ausência de coragem para reformas reais;
• Substituição da prevenção por soluções simbólicas e reativas.
Em vez de continuarmos presos a uma paisagem altamente inflamável, é urgente repensar a forma como olhamos para a floresta. Precisamos de apostar numa nova lógica: florestas pensadas para resistir ao fogo, e não para o alimentar.
Isso significa substituir a monocultura por mosaicos de vegetação diversificada, com espécies nativas e menos combustíveis, intercaladas com zonas de cultivo e pastoreio que funcionem como barreiras naturais às chamas. Uma floresta bem desenhada pode travar o avanço do fogo e não ser apenas um rastilho à espera de uma faísca.
Algumas espécies como os carvalhos, sobreiros e castanheiros têm maior resistência ao fogo e podem funcionar como “árvores-bombeiro”: vegetação que abranda o fogo, em vez de o propagar. Integrar esta lógica no planeamento florestal não é apenas desejável, é urgente. Uma floresta resiliente não se constrói com eucaliptos inflamáveis, mas com diversidade ecológica, estratégia e conhecimento técnico.
É tempo de romper com o marasmo letárgico em que a ausência de visão estratégica nos mergulhou e de repensar, com seriedade, o que queremos fazer e como o vamos fazer.
• Reforma profunda do ordenamento florestal;
• Incentivos claros à gestão local, comunitária e privada da floresta;
• Redução progressiva da monocultura do eucalipto;
• Reforço da Força Aérea com meios próprios, permanentes e auditáveis;
• Revisão do modelo de bombeiros com formação, controlo e profissionalismo;
• Educação ambiental real e fiscalização eficaz, com sanções pesadas;
• Descentralização a sério: dar meios e poder aos territórios.
Portugal arde por irresponsabilidade, por inércia política, por falta de visão. Arde porque deixámos que a tragédia se tornasse rotina.
Enquanto não reconhecermos que o modelo político sobretudo o modelo estatista, centralista e subsidiário que dominou as últimas décadas está esgotado, continuaremos neste ciclo infernal de cinzas e promessas ocas.
A liberdade que temos hoje, como sociedade, é a de mudar. Ou continuamos a assistir a um país arder por dentro e por fora.