Há várias coisas estranhas, e por isso mesmo interessantes, nos concertos de Lux Tour, que Rosalía trouxe na semana passada a Lisboa. Estranhas, naturalmente, no sentido em que parecem não encaixar e não obedecer, na medida em que não permitem que as coisas se reduzam a categorias sociológica, intelectual ou mesmo politicamente confortáveis, como as que nos permitem sair de um espectáculo e voltar às nossas vidinhas com a sensação de que percebemos imediatamente tudo o que ali se passou. Com Rosalía tudo é outra coisa. Mais do que entretenimento, menos do que liturgia, uma multidão nada uniforme absolutamente improvável. Entre betos, queers, cinquentões conservadores ou miúdos mascarados saberão eles de quê, a amálgama parece um carnaval espontâneo não autorizado, onde todos se reuniram, partilhando não apenas o mesmo espaço físico, mas o mesmo lugar de humanidade, como se, por instantes, cada um fosse capaz de aceitar que o outro existe sem necessidade de o classificar ou de não lhe reconhecer direito de cidade.

A explicação imediata seria a musical. É verdade que Rosalía operou uma fusão entre o flamenco, as várias tradições europeias, o barroco e a pop contemporânea, mas só isso não chega para justificar esta raridade. Não é a sonoridade, embora o som, e as suas diferentes proveniências, seja razão suficiente para unir, mas será antes o que tudo aquilo significa. Esse significado é, para, presumo, desconforto de muitos, profundamente anti-pós-moderno.

Durante anos, habituámo-nos à ideia de que a verdade não existe enquanto tal, sendo ela apenas o produto de relações de poder, de jogos estratégicos, de discursos em conflito permanente, onde tudo é construção, disputa e exercícios de domínio. Ora, Foucault está a levar uma tareia de Rosalía. Não porque a espanhola elabore tratados de filosofia em palco, mas porque o que ali acontece ultrapassa em larga medida os cânones do pós-modernismo. É uma espécie de contra-revolucionarismo este canto sobre Deus, redenção e gratidão, sem ironias e sem cinismos, numa sociedade que parecia já não acreditar em nada. Não há ali qualquer pretensão quanto à criação de um, mais um, Homem-Novo. Não há programa, manifesto ou ambição de refazer o mundo. O indivíduo continua lá, não como agente revolucionário, apenas com a sua liberdade, as suas escolhas e as suas diferenças. Mas desta vez não está sozinho, num reconhecimento até humilde de que o indivíduo vale por si, mas não apenas por si; de que existe uma rede de relações sociais que o precedem e ultrapassam, e de que responde, a todos os instantes da vida, a algo maior do que a si mesmo.

Não há ali luta de classes, lógicas de opressão ou desconstrução sistemática, mas antes uma aceitação serena de que há coisas que se controlam e coisas que não se controlam. O que, eventualmente, incomodará o liberalismo mais radical, sugerindo que a liberdade individual não é suficiente para justificar o lugar do Homem no mundo; incomodará o tradicionalismo mais petrificado, porque nos mostra que mesmo a tradição pode ser reinventada sem pedir licença aos guardiões.

Rosalía não resolve estas tensões, mas expõe-nas, como numa vanguarda artística. O que nos traz, por agora, é uma experiência partilhada que não exige tradução imediata, o que, ao mesmo tempo, nos desarma por não sabermos exactamente o que fazer com tudo aquilo. Não é provocação, não é nostalgia, não é ruptura, não é uma promessa de um mundo novo, é forçosamente outra coisa que nos obriga a sair dos esquemas habituais. No final, fica a sensação de que a multidão deixou de ser uma soma de indivíduos sem que nenhum deles tenha deixado de o ser. E talvez demonstre mesmo que, sim, este século será das mulheres. Mas esse assunto ficará para outra ocasião.