Ligo à forma. É um facto. Não há como não. Cresci a ouvir que perdia a razão quando era malcriado. Nesses casos e para quem me educou: A forma suplantava a substância. Ficou-me.
Nos dias que correm, parece que só a substância importa. Só que, não há substância que resista à falta de forma. Assim como não há forma que valha, sem substância. São partes inseparáveis do que é a política, do que é ser político.
Existem políticos sem maneiras, nem decoro. Usam a má criação como arma política. A actual tendência para este tipo de actores é a da vitória. Logo, continuam com a mesma táctica e até a elevam (baixam seria o termo correcto).
Se este tipo de postura tem sucesso, quer isto dizer que o povo que nele vota é malcriado? Sim, é.
No mínimo, tem uma educação débil. Ou então, ingenuamente, acredita que quem assim se comporta, o faz por jogo político e porque não está no poder. Engana-se: Quem assim fala em campanha – colocando em causa o Estado de Direito a independência dos Juízes, o humanismo e o civismo – lamento, mas será sempre assim, ou seja, alguém que atropela quem e o que tiver de ser para atingir os seus objectivos. Mesmo que no poder.
Atente-se a Trump: É um ordinário, malcriado e inculto. As anormalidades que dizia em campanha, pratica-as no poder. O poder não o civilizou. Somos aquilo que ouvimos em casa, nas casas dos amigos, nos clubes dos quais somos sócios, nos locais onde trabalhámos. Se chegamos aos quarenta anos (aos 80!) e continuamos a ser um troglodita é porque o somos no âmago e não há volta a dar.
[(..) que os americanos pudessem escolher alguém – em vez do presidente que cumprira dois mandatos e cuja voz, só por si, transmitia autoridade sobre o tumulto dos assuntos humanos…(..)] Philip Roth – A conspiração contra a América
Para mim é isto. No entanto, há quem use a seguinte (contra) argumentação: Mais vale um carroceiro que diz verdades do que um aldrabão bem-educado.
Até posso concordar, mas esta dicotomia – básica – em que o mundo se divide entre carroceiros honestos e aldrabões bem-educados é falsa.
A tarefa de encontrar, lutar, por alguém que, às ideias junte a forma civilizada de ser político é árdua. E é por ser árdua que quem apoia quem não tem forma, é um fraco, um desistente. Ou então, apenas quem – oportunisticamente – se junta a quem está na mó de cima. O populista vive dos ignorantes, dos malformados, dos fracos, dos desistentes e dos oportunistas.
Aqui há atrasado, quando julgava ter gravado o Visita Guiada, apanhei com o debate entre Soares e Cunhal. Cunhal tinha tudo: Forma, substância, gravitas, cultura. O problema era o resto, e não era pouco. Através de uma forma apurada, escondia uma substância – nunca propositadamente assumida – horrível. Um ditador.
Do outro lado, goste-se ou não da personagem, estava alguém que percebia o que queria Cunhal. Que era o oposto do que por ele era desejado. Soares podia ter enveredado pelo populismo, pela ofensa barata. Não o fez. No debate em causa e sem perder a forma, lutou e debateu contra um oponente temível.
Não era difícil ter dito que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço. A turba acredita nessas coisas. Soares preferiu o debate sério pois é com conversas sérias que se ganham os debates sérios. Sem perder a forma, combateu a substância – mesmo que encapotada – dos comunistas. É assim que se faz em democracia: Debate-se sem perder a postura, a civilidade, a educação.
Sem más criações, aquele debate foi um farol de esperança para quem desejava uma democracia liberal, sem carros de combate do Pacto de Varsóvia estacionados no Terreiro do Paço.
Nota: Nunca votei em Soares – ou no PS – e igualmente, por maioria de razão, em Cunhal ou no PCP. Quando, mais tarde, foi Soares a perder a forma na luta com Freitas do Amaral, foi este a trazê-lo de volta ao nível que a discussão política deve ter.
(Para quem consiga: É ver o documentário na RTPn “A duas voltas” relativo à eleição de presidencial de 1986.)
Dirá o leitor: Outros tempos. É verdade. Mas, não sendo reaccionário – nunca dá certo – não aceito que, nos tempos que correm, a única maneira de combater as ideias de esquerda, seja através da arruaça. É um facto que a populaça gosta, mas pobre do país que é governado pela dita.
Quem ganha o poder através da populaça, está obrigado a agradar à turba – que quer sempre mais “sangue” – sob pena de perder o seu apoio, o seu voto. Fica sem margem para o sentido de Estado. E este é – basicamente – forma, tal como o é a gravitas. Sonhar que o poder, por si só, reveste a substância com a forma adequada é ser ingénuo, como a história nos demonstra vez após vez.
Concluindo: A falta de forma é usada para esconder a falta de substância. Atente-se: Passar a ideia que o país melhora com a resolução de um único problema (ou dois que sejam) é o quê? Falta de mais conhecimento, de ideias. Ou seja, de substância, que é compensada pelo culto da personalidade, pela infabilidade do escolhido. É um cheque em branco que se passa por pura fé.
[(..) Um clérigo dos Cristãos Alemães da cidade bávara de Mühldorf escreveu; “Actualmente, a imagem de Lutero está nas nossas igrejas, mas a geração seguinte irá trocá-la pela de Hitler – o homem que salvou a Alemanha da destruição” (..)]
Julia Boyd – Uma aldeia no Terceiro Reich