Não foram raras as vezes em que, ao longo dos 15 anos da minha carreira de docente, ouvi nas escolas a expressão “no meu tempo…” ou “ainda sou do tempo…”. Estas expressões, ainda que ditas muitas vezes num tom nostálgico, carregam uma carga conservadora que evito terminantemente. É natural o conflito geracional em todas as profissões, artes e ofícios, mas o que merece particular atenção é o facto de quase metade dos docentes portugueses (47%) terem mais de 50 anos. O progressivo envelhecimento da classe docente exige uma intervenção estruturada por parte da tutela e, eventualmente, uma mudança no paradigma da Educação.
Segundo algumas classificações sociológicas e demográficas, enquadro-me numa geração de Millennials, que convive diariamente com colegas das gerações Baby Boomers e X e que leciona aos alunos de uma exigente Geração Z e Alfa. Não deixa de ser caricato analisar esta classificação, no entanto, o professor do século XXI deve conseguir moldar-se rapidamente às novas realidades e projetar as aprendizagens para o futuro, independentemente da geração a que pertença. Muito provavelmente, formamos os jovens de hoje para profissões que ainda não existem. Essa visão de futuro impede que cristalizemos na dependência de programas, de currículos extensos e, por vezes, desajustados às vivências e à realidade sociocultural dos alunos. Acredito que, independentemente da minha idade e da minha experiência enquanto docente, o “meu tempo” é hoje!
O “Education and Training Monitor“ destaca que a classe docente em Portugal está a envelhecer, com 32% dos professores com 55 anos ou mais, e apenas 2% com menos de 30 anos. Este cenário reforça a importância da formação contínua para acompanhar as mudanças educacionais, tecnológicas, culturais e sociais. Manter a formação dos professores constantemente atualizada ao longo da carreira é essencial para garantir a
qualidade da educação e o desenvolvimento de práticas pedagógicas alinhadas às necessidades contemporâneas. Essa formação contínua permite a atualização de conhecimentos, a diversificação de metodologias pedagógicas e a capacidade de enfrentar os desafios educacionais da atualidade. O facto de surgirem cada vez mais iniciativas de inovação pedagógica, como o Education Summit, evidencia a crescente procura por formação técnica e tecnológica de vanguarda. Alguns encontros pedagógicos em Portugal mobilizam milhares de profissionais da Educação, como aconteceu no último SUPERTABi onde eu pude testemunhar in loco que muitos professores portugueses resistem à estagnação e procuram experiências educacionais dinâmicas e focadas em soluções realistas.
Um dos maiores desafios para os professores do século XXI será o da adaptação às tecnologias emergentes e ao ensino digital. O mundo digital oferece-nos um mar de possibilidades e já há, em Portugal, quem navegue na crista da onda! Embora a opinião pública muitas vezes esteja presa à ideia de uma escola obsoleta, com modelos pedagógicos desalinhados da realidade, muitas escolas portuguesas estão a preparar os professores para o ensino digital e para a inovação pedagógica. Tão diabolizado por quem desconhece seu potencial, o ensino digital é uma ferramenta poderosa que complementa e transforma a educação tradicional, possibilitando uma série de oportunidades que atendem à demanda dos nossos dias. Falamos de algo com grande potencial inclusivo, pois pode superar barreiras geográficas, económicas, físicas e sociais, promovendo uma educação mais acessível e equitativa. As tecnologias emergentes são poderosas e estas ferramentas robustas não podem ser ignoradas pela Escola, alma mater da sociedade.
Os professores de hoje apoiam a formação do futuro de um país que se quer democrático, justo e desenvolvido em todas as suas dimensões. Formamos hoje jovens que, graças ao avanço vertiginoso da IA (Inteligência Artificial), precisarão cada vez menos de um humano que seja um mero transmissor de conhecimento. Teremos professores do futuro ao fomentar o desenvolvimento humano, a empatia, o respeito pelo próximo e pelo mundo natural, como promovo há cerca de cinco anos com o projeto BSI – Biodiversidade Sob Investigação.
A experiência profissional permite-me confirmar o impacto dos laços e dos vínculos no desempenho académico dos alunos. São esses vínculos que ancoram e promovem as
aprendizagens efetivas, que vão muito além de meros conceitos científicos. Apesar dos incríveis avanços recentes da IA, concretamente na área da Educação, considero que um professor nunca poderá ser totalmente substituído. A empatia entre professor e aluno, a compaixão, os valores, a ética e o desenvolvimento emocional de uma criança estarão sempre na base das aprendizagens não cognitivas que nos tornam humanos. Do mesmo modo, acredito que o amor genuíno à profissão seja facilitador da busca e identificação de talentos nos alunos.
A natureza humana e multifacetada do ensino, transfere grandes responsabilidades para a esta nobre profissão. O professor inspira, motiva, cuida das necessidades emocionais e sociais dos alunos e desenvolve competências éticas e críticas — áreas onde a IA ainda enfrenta muitas limitações. Professores, o nosso tempo é hoje!