Publicar ou perecer. Mas a que preço?
Toda a gente sabe. E toda a gente sabe que toda a gente sabe. Mas fingimos que não sabemos.
Grande parte da ciência hoje publica-se mediante pagamento. Não falo apenas das revistas predatórias, mas também das mais reputadas, que cobram Article Processing Charges (APCs) de milhares de euros. Uma parte significativa de “papers” publicados não passa de autêntico “lixo académico” que nada acrescenta e ninguém lê.
E, no entanto, o negócio continua a prosperar. Porquê?
A lei de Goodhart ajuda a explicar: quando uma métrica se transforma num objetivo, deixa de ser uma boa métrica.
O número de artigos publicados, as citações ou o chamado “impact factor” eram indicadores aproximados de qualidade. Mas transformaram-se em objetivos de carreira, financiamento e prestígio institucional. A métrica foi corrompida e a publicação tornou-se negócio. E toda gente sabe.
Então porque é que o negócio se mantém, se todos sabem? Eis cinco razões.
1. Dependência institucional. Universidades, centros de investigação e agências de financiamento continuam a usar publicações como critério de avaliação. Se cortassem esta ligação, o modelo colapsava.
2. Inércia coletiva. Cada investigador sabe que o sistema está viciado. Mas se deixar de jogar, perde bolsas, progressão, oportunidades.
3. Interesses instalados. As editoras científicas são hoje multinacionais com margens de lucro superiores às da Apple ou da Google. Não têm incentivos para mudar.
4. Falsa legitimação. O rótulo “peer-reviewed journal” ainda funciona como selo de qualidade, mesmo quando o processo é frágil, enviesado ou capturado e o artigo não passa de lixo.
5. Falta de alternativas com peso institucional. “Preprints” e ciência aberta crescem, mas não têm ainda o mesmo estatuto.
E porque é que nada acontece, se o problema é tão visível?
Porque todos dependem do jogo. É o dilema do prisioneiro aplicado à ciência: todos perdem a longo prazo (qualidade, confiança, credibilidade), mas quem tentar sair perde mais no imediato. Assim, a ilusão mantém-se.
O resultado é este paradoxo: o sistema não se perpetua por ser invisível, mas precisamente por ser demasiado visível e todos precisarem dele.
A ciência transformou-se numa espécie de casino de luxo: todos sabem que a casa ganha sempre, mas continuam a jogar porque não jogar significa ficar fora do jogo. E ninguém no meio académico quer isso.
Talvez um dia o conhecimento aberto ganhe estatuto e mude as regras. Até lá, fingimos que não sabemos o que todos sabemos.
“O Rei vai nu” e já está na altura de o dizer.