A minha geração atravessou a juventude nos anos 90 pensando que cantar na nossa língua era foleiro. Se quisermos ser picuinhas, podemos até admitir que cantar em qualquer língua é foleiro. O acto de cantar é um exagero: a pessoa não apenas fala, canta. Quem é que o cantor julga que é? Não lhe basta falar? Não, ele tem de cantar. Presunção e água benta, de facto.
Uma googlada preguiçosa explica: “A pessoa canta através da coordenação entre o sistema respiratório, as pregas vocais e as cavidades de ressonância do corpo. O corpo humano funciona essencialmente como um instrumento de sopro”. Qual a diferença entre cantar e falar? O Google volta a servir: “ao cantar a respiração precisa de ser consciente e profunda (abdominal/diafragmática)”. Ui, cantar precisa de mais consciência.
Cantar em português, imaginem. A consciência diafragmática de cantar em português. Começo a entender porque é que a minha geração preferia disfarçar essa consciência diafragmática numa língua estrangeira. Talvez parecesse menos consciencioso, menos diafragmático. Afinal éramos a Geração X e as ondas que queríamos fazer tinham mais a ver com alguma coisa a cair do que a ver com alguma coisa a ser levantada. Caiu o português.
O Bret Easton Ellis explica isso assim: “Tivemos muita liberdade e queríamos ser chocados. Queríamos ser ofendidos. Adorávamos piadas porcas e adorávamos música”. Não sei se assino por baixo em tudo, mas o que mais me chateou na música portuguesa cantada em inglês talvez tenha sido essa rápida transformação do uso de outra língua num conformismo. Criei uma editora com amigos numa onda de Fight Club a essa treta toda.
A FlorCaveira surgiu em 1999 também para tentar ofender alguém, é verdade. A nossa religião protestante ofendia (ainda hoje ofende) e cantarmos em português ofendia (hoje já não ofende ninguém). Queríamos sobretudo o exagero, com ou sem consciência diafragmática. Queríamos “religião & punk rock” em modo de intifada global porque o país merecia.
Mas havia umas excepções. Haja uma guinada neste texto armado. Já podem calcular onde vou chegar. O Jorge Palma. Lembro-me de nos anos 80 cantar apalhaçadamente o “Deixa-me rir” em miúdo, acho eu numas férias de Verão num parque de campismo do nosso litoral algarvio ou alentejano, e de o meu pai rir. Não percebia a canção com que me divertia mas o autor já lá estava.
Uma década depois sou universitário em Ciência das Comunicação na FCSH. Tenho bandas, passei pelo punk/hardcore, mas agora a Faculdade obriga-me a tentar ser mais sofisticado. Começo a ouvir música mais antiga porque presunções intelectuais carecem de cauções históricas. Meti-me no rock português da década anterior para me distinguir dos foleiros da minha geração. Heróis do Mar, GNR mas já não atinjo Pop Dell’Arte porque soava a fritaria demais.
Regressa o Jorge Palma. O Jorge Palma era demasiado conhecido por toda a gente para nos dar vontade de o ouvir com ouvidos de ouvir. Mas há sempre um amigo que respeitamos dez anos mais velho do que nós que o ama. Ele insiste e temos de lhe dar uma chance. E, de repente, ouvimos o Jorge Palma com esses ouvidos de ouvir. E os nossos olhos vêem o que até então estava escondido à frente de toda a gente.
Jorge Palma só havia um. Ele cantava em português com um português que parecia quase intelectual mas ao mesmo tempo da rua. Ele dizia cenas pirosas com a economia dos sábios. Quem é que não queria furar o cinismo fin de siécle com os pulmões cheios de “enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar”? E tau, em menos de nada passámos a ser fãs.
Ser fã do Jorge Palma no final dos anos 90 era complicado tendo em conta as figuras que ele fazia nos concertos. Chamar-lhe concertos é um acto de fé. Mas até essa falta de postura lhe dava mais aura (como os meus filhos agora dizem). A minha geração não se tornou apenas fã do Jorge Palma, de certa maneira tornou-se filha adoptiva dele. Ele foi um pai musical que nós escolhemos e que ele aceitou.
Anos mais tarde circulei pelo mundo dos músicos. Uma vez cruzei-me com ele na Antena 3, mas ele estava impróprio para consumo. Na altura, reconheço, tive dificuldade em conciliar o Jorge do meu coração com o Jorge que estava à minha frente. Parte de mim ficou ofendida. Mas isso era apenas sinal de que estava diante de um homem real. Um homem real pode ofender-nos, como o Easton Ellis disse que, lá no fundo, desejávamos.
O Jorge Palma foi mais do que desejámos e maior do que as expectativas de uma geração só. Isso é ser grande.