Martinho Lutero não era desconhecido do Diabo. Isto, que num país católico pode soar mal, é um elogio. Deixem-me contar-vos uma história, especialmente a propósito no dia a seguir àquele que comemora a Reforma Protestante. Diz a lenda que durante uma estadia de Lutero no Castelo de Wartburg, já o Papa o tinha excomungado, apareceu-lhe Satanás para o tentar. O que fez o frade alemão? Atirou-lhe o tinteiro que tinha à mão à cabeça. Não sabemos se Lutero acertou no tentador mas as marcas de tinta na parede ficaram. Um protestante lembra este relato com orgulho porque pensa que os poderes das trevas estavam interessados em estragar a Reforma e não conseguiram.

Para um protestante a proximidade entre o Diabo e Lutero é um selo de qualidade do último. O Diabo não se importaria com o facto de Lutero estar longe da sua cidade. O Diabo não se importaria com o facto de Lutero estar longe do seu trabalho enquanto professor de teologia. O Diabo não se importaria com o facto de Lutero estar longe da sua paróquia. Mas o Diabo enlouquecia só de pensar que Lutero continuava perto da sua Bíblia. E Lutero não apenas a lia como a traduzia para o Alemão. Em todo o caos que a vida de Lutero registou, as Escrituras nunca se afastaram dele.

Fãs de Lutero, como eu sempre serei, ficam inspirados com esta história em que não são anjos que se interessam por ele mas demónios. Deste relato vem um encorajamento para agora, mais de meio milénio depois. Se quisermos ser sinceros, o casamento da Igreja com o seu tempo nunca foi fácil. Mas para quem celebra a Reforma Protestante os acontecimentos traumáticos de então representam um tipo de ontem que deve encontrar um lugar hoje. Deixem-me tentar explicar.

A Igreja é o corpo de Cristo. Só isto deveria fazer-nos pensar: se o Nosso Senhor não teve uma vida fácil enquanto cá esteve, agora, que está à direita de Deus Pai e que a Igreja é mais próximo que temos da sua presença entre nós, não faz sentido esperarmos facilidades. A Igreja terá sempre de encarar contrariedades nos tempos actuais, do mesmo modo que Cristo também teve. A lógica é matrimonial: primeiro foi árduo para o noivo Cristo, agora é árduo para a noiva Igreja. Só quando o casamento acontecer mesmo é que terminam as dificuldades todas.

Mas isto não nos deve guiar ao fatalismo. Nós, portugueses, temos o problema nas veias: vidrados que estamos no passado, entregamo-nos à tragédia como o Miguel de Unamuno nos costumava radiografar a nós e aos espanhóis. O nosso modo de olhar para o presente é nunca esperar muito do futuro. Mas a Igreja tem uma vocação diferente. O facto de que o dia de hoje exige tanto de nós é simplesmente um sinal de que cabe aos cristãos viverem esta vida com confiança até quando o Diabo embirra connosco. O Nosso senhor falou sobre este assunto na sua última ceia.

O que nos devolve ao Inimigo das nossas almas. A primeira vez que ele aparece na Bíblia usa o mesmo truque que tentou com Martinho Lutero: quer que Adão e Eva se afastem do que Deus lhes disse. Satanás sabia que, se conseguisse criar uma distância entre eles e o que Deus disse, o Paraíso perdia o seu charme. O Éden termina de cada vez que a nasce a dúvida acerca do que Deus diz. Por isso mesmo é que é preciso então nascer algo mais poderoso, que neste caso é anunciado a partir da semente da mulher. Apesar de Eva ter pecado, dela viria quem ia resolver a trapalhada toda — o bebé que pisaria a cabeça da serpente.

Quando Adão e Eva vêem o mal que fizeram, eles querem não ser vistos por Deus. O texto bíblico diz que fugiram da presença dele. É isto que o mal nos faz, ao nos meter a correr daquilo que daí em diante todos vão procurar em todas as histórias da Bíblia: a face de Deus. No momento em que o Diabo nos leva a tomar a voz de Deus, que foi a raiz de todas as coisas, como a ruína de todas as coisas, o paraíso perdeu-se. Milton sabia do que escrevia.

É por isso que vale a pena, para quem é cristão, insistir na ideia de que em Jesus o verbo se fez carne. A nossa tendência é fugir do paraíso, com medo da palavra de Deus, mas a palavra encarnada de Deus enfrentou o medo para nos trazer de volta. Um cristão acredita que por nós Cristo desfez através do Inferno que atravessou o que o Diabo tinha feito contra nós no paraíso. E é por isso que um protestante não se importa de celebrar a Reforma buscando esse mesmo princípio de se obcecar com a palavra de Deus. Em qualquer época a grande tentação será duvidar dela — sobretudo quando a vida nos corre bem.

Na prática, nós próprios não seremos desconhecidos do Diabo, da mesmíssima maneira que Lutero também não era. Até Cristo teve a sua primeira experiência profissional, logo após ser baptizado, em ser tentado no deserto. A Igreja tem de estar preparada para a mesma experiência: criaturas, como nós, feitas pela palavra divina terão múltiplas oportunidade de fugir dela. Mas diria, com o oposto do fatalismo que nos é tão natural, que se impõe a esperança: se a verbo vivo tomar conta de nós, vale a pena apetrecharmo-nos de tinteiros e, eventualmente, grafitar umas paredes: “A Reforma Protestante esteve aqui”.