Cresci convencido que percebia mulheres. Ninguém existe sem elas porque todos precisamos de uma mulher para nascer (Chesterton dizia que, por isso, todos os homens tinham sido feminizados). Mas, no meu caso, não somente me desenvolvi no ventre da minha mãe, como todos: ao meu lado desenvolveu-se comigo uma mulher. Tenho uma irmã gémea. Chama-se Sara.
Cresci convencido que percebia mulheres porque até aos meus 15 anos nunca vivi sem a minha gémea ao meu lado. Só no nono ano ela escolheu desporto no Liceu de Queluz e eu fiquei ainda mais um ano na Escola Secundária Delfim Guimarães na Amadora. Foi uma espécie de trauma porque até aí eu nunca precisei de me preocupar em viver porque a Sara tratava de tudo por mim: confiava inteiramente nela. Ela era a gémea hospedeira e eu o gémeo parasita.
No externato O Cisne, na escola primária onde andámos, era mais a Sara que me defendia a mim do que eu a ela; nas ruas do Bairro Janeiro na Amadora a Sara acompanhava-me e aos rapazes a andar de skate; nas aulas de judo no Clube Recreativo a Sara era a única miúda e mesmo assim ganhava combates. A Sara não era a minha sombra, era mais o contrário. Eu era uma pobre declinação semi-masculina de uma miúda irrefreável.
Cresci convencido que percebia mulheres não porque tinha intuição mas porque a Sara tinha um vigor tal que vivia por ela e por mim. Quando tive de viver sem ela sempre ao meu lado, nesse fatídico nono ano, sobrevivi, claro, mas já não era bem a mesma coisa. Daí em diante ela começou a tornar-se adulta e eu ia tentando imitá-la. No fundo, tinha sido sempre assim mas agora era oficial: eu era o Tiago, o Jacob que faz por agarrar o calcanhar do mano (apesar de eu ter nascido primeiro).
A Sara começou a trabalhar durante a Faculdade e eu nicles; a Sara tirou a carta de condução e comprou um carro e eu nicles; a Sara casou e foi morar para o Alentejo e eu nicles. Já perceberam a ideia: a minha irmã ao tornar-se uma mulher adulta ensinou-me que a minha vocação não era perceber mulher mas perseguir mulheres — elas vão sempre à minha frente. Sou o homem que conhece mulheres pelo pó que deixa o avanço delas.
Agora que estou um pouco mais velho já não tenho a ilusão de perceber mulheres. Que presunção absurda. Ao olhar à minha volta, reconheço a pontaria que me foi concedida: além da Sara, a minha mãe é uma mulher forte, a minha irmã mais velha Rute é uma mulher forte, casei depois com outra Rute que fortíssima é. Temos duas filhas, jovens mulheres hoje, que fortes se mostram. Perceber mulheres é um fraco contentamento para quem pode admirar tantas à sua volta.
Eu e a Sara fizemos ontem 49 anos. Se Deus permitir, chegaremos em 2027 ao meio século. Já não vivemos juntos como antes mas separado dela continuo a não saber ser.