Recentemente, os Radiohead voltaram a dar uma série de concertos, cujos bilhetes foram parcimoniosamente distribuídos pelos fãs. Mais uma alegria para os quarentões como eu. Cheguei a receber um código restrito para comprar bilhete para Madrid, mas a atarefada vida adulta, com outras prioridades, infelizmente não o permitiu. A par da banda Oasis, de que falei também aqui, trata-se de mais um glorioso comeback musical do momento.
Os Radiohead foram míticos nos anos 90 e todos os que gostavam da sua melancolia, mas também do seu rock poderoso e visceral, estão hoje em êxtase. Estes regressos parecem levantar-nos do túmulo da música de pastilha elástica contemporânea e devolver-nos a esperança de que as coisas antigas e boas ainda cá estão. A prova disso é que, recentemente, a canção “Let Down”, do marcante álbum OK Computer, se tornou viral no TikTok. Talvez a nossa tristeza e o romantismo da adolescência não sejam assim tão diferentes dos que vivem os miúdos de hoje.
Mas Radiohead não é música de derrotados ou deprimidos, nem de adolescentes. Ultrapassa todas as idades e emoções. É divagação, por vezes; por outras, puro gozo e celebração. Mesmo naquele buraco da dor ou da desilusão, a sua música deixa sempre entrar uma luz consoladora que redime. Temos de agradecer aos Radiohead os anos em que nos suportaram, ajudando-nos a atravessar momentos difíceis e a celebrar outros. Melhor ainda: ouvimo-los hoje e não perderam nada do seu brilho. Eis o que é a grande música, intemporal.
A música britpop dos Oasis, Blur e Pulp, que agora também conhece uma breve reprise, é outro resquício de um mundo já desaparecido. São bandas agora acusadas de machismo, arrogância ou patriarcalismo à luz dos critérios atuais. Os Radiohead, também orgulhosamente britânicos, representam o outro lado do ego. Thom Yorke e companhia não são os miúdos convencidos, cheios de razão, testosterona e vida; são diferentes e, nem por isso, menos viscerais.
Os Radiohead são a sombra do rock: depois da distorção e do sexo, surge o olhar repousado sobre as coisas, o respirar pensativo dos gestos, o exorcizar dos dias e dos momentos, o divagar de emoções dispersas e ambíguas. Mas há também uma pulsão firme, uma espera decidida, inscrita em ritmos poderosos que não têm nada de derrotista.
Tive um amigo, nos anos de jovem adulto, com faro para a cena musical, que fazia questão de não gostar de Radiohead. Dizia que a banda não entrava no cânone do “bom gosto” indie: achava-os intelectuais e pretensiosos. Nunca concordei. Nunca atentei muito às letras, confesso, mas a música é magistral, com tantas tonalidades, ritmos e momentos que nunca nos deixam vazios, aborrecidos ou sem esperança. Mesmo no por vezes cinzento mover das suas ondas, há sempre um querer — nos ritmos, nos arranjos, nas melodias que ficam no ouvido. Uma beleza pouco vulgar, mas persistente.
Nietzsche dizia que “sem a música, a vida seria um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”. Os Radiohead comunicaram-se com uma geração que encontrou, na beleza de uma sombra psicadélica e ritmada, um bálsamo para a sua inadaptação adolescente e para a entrada na vida adulta. Hoje, os jovens continuam a ligar-se às suas harmonias progressivas e à poesia da desadequação ao mundo. Afinal, os anos 90 foram também a década dos Nirvana, e isso não é irrelevante.
Assisti a muitos concertos, mas os Radiohead eram dos poucos em que o set tocado era — e é — praticamente igual ao que ouvimos nos discos. Isto não é apenas rock e celebração: é ordem, rigor e trabalho árduo. Nem todos o conseguiam. Não será isto parte do que resta do legado anglo-saxónico? A ordem no caos.
A sua música constrói-se sobre uma cultura musical rica e exigente, do pop ao alternativo, onde a harmonia tonal vive nos seus limites: os acordes surgem como cores sonoras, a dissonância é controlada e obedece a uma ordem for a do comum, mas inteligível. Obrigado, Radiohead. Envelheceram bem, como os bons vinhos — e isso não é para todos.