A principal confusão que os políticos e as outras pessoas normais fazem sobre relações políticas é imaginar que são relações humanas, mas com muita gente ao mesmo tempo. Os filósofos, como de costume, repetem esta confusão com palavras claras. Imaginam que a psicologia trata do problema das relações entre zero e três pessoas; que a ética trata do problema das relações entre quatro e trinta pessoas; e que a política trata das relações entre mais de trinta pessoas.

Embora a confusão normal seja mais interessante que a teoria filosófica, nenhuma tem pés ou cabeça. Qualquer político que não seja atraído pela filosofia sabe perfeitamente que o modo como trata a mãe é de pouca utilidade para tratar o seu eleitorado. A sua vida pessoal não o ajuda nada na sua vida política. A sua experiência com filhos ou namorados não o ajuda no partido, no círculo eleitoral ou no governo. A intuição que o leva a pensar em fazer coisas em que ninguém pensou antes não é nem psicológica nem ética.

A confusão ocorre porque qualquer político consegue detectar no seu eleitorado, especialmente em sítios com pouca gente, uma multidão de pessoas que são pais, irmãos, filhos ou namorados uns dos outros; e de reconhecer na maneira como eles interagem a maneira como ele próprio interage com as pessoas que para si são importantes. É compreensível que, animado por estes reconhecimentos, se sinta encorajado a partir para as suas campanhas eleitorais na convicção de que se chamar ‘ó filha’ aos seus votantes os pode levar a concordar consigo. O eleitorado porém encarrega-se geralmente de o desenganar. Um país não é uma família.

Ao contrário do que muitas vezes se ouve dizer, não há nenhuma dose de experiência da vida que seja necessária para se ser um bom político. Alguns dos melhores, e alguns dos piores, políticos de todos os tempos não tinham grande experiência da vida. A diferença relevante entre Péricles e o Capitão Gancho não é uma diferença psicológica ou moral: não é uma diferença de jeito para os outros ou de pureza de convicções. Não é também uma diferença de experiência.

A qualidade requerida de um bom político é antes a qualidade de não imaginar que a política é uma variedade da psicologia ou da ética. Nos milhares de pessoas a quem distribui apertos de mão, em contextos que muitas vezes nem são eleitorais, reconhece com certeza pessoas a quem tratava afavelmente numa vida anterior. Mas sabe também que não pode presumir nelas os sentimentos que presume em quem o trata afavelmente na sua existência civil. Trata-os por isso bem sem se sentir por um momento tentado a gostar deles.