Gilmário Vemba não entrou. Nem Hugo Sousa. Nem Murilo Couto. O trio do riso foi barrado à porta como se viesse traficar sorrisos perigosos. Aparentemente, tinham um plano maquiavélico: entrar sorrindo, contar piadas, provocar gargalhadas e sair com aplausos. Uma ameaça real ao Estado de espírito nacional.

Mas calma. Tudo tem explicação. Diz o Senami — instituição que, ironicamente, celebra 50 anos como porteiro oficial da República — que os humoristas não traziam o visto certo. Vinham para rir com o povo, mas sem a bênção do Ministério da Cultura, esse templo onde o humor vai pedir licença antes de existir.

Agora, é curioso que um grupo de artistas — com nome, rosto, bilhetes vendidos e plateia à espera — seja tratado como se estivesse a tentar infiltrar-se no país para fazer stand-up em becos clandestinos. A justificar o disparate, aparece o sempre prestável argumento: “violação de procedimentos”. Um argumento que tem servido tanto para impedir a entrada de humoristas como para justificar a entrada de balas em corpos de manifestantes.

Venâncio Mondlane, ele mesmo, não perdeu tempo. Viu na situação um sinal dos tempos. Gilmário, afinal, é seu aliado. Tinha-lhe dado palco, literalmente. E, como em Moçambique rir se tornou um acto político, bastou que um dos risos estivesse associado a um opositor para que o regime entrasse em pânico.

A ironia — essa ferramenta que os humoristas dominam e o poder teme — é que impedir o espectáculo foi, em si, um espectáculo. Um espectáculo de má estratégia. Em vez de abafar a ligação política de Gilmário, amplificaram-na. Em vez de desmobilizar, chamaram os holofotes. E, no país onde a última grande manifestação surgiu após a morte de uma criança alvejada pela polícia, continuar a dar tiros no próprio pé é já um desporto oficial.

A pergunta que fica no ar é: quem tem medo do riso? Quem se sente ameaçado por três humoristas e um microfone? Só regimes frágeis. Regimes que já perceberam que não têm mais o monopólio da palavra, e que agora querem controlar também a gargalhada. Porque sabem que, quando o povo começa a rir dos seus governantes, já começou, no fundo, a imaginar-se sem eles.

Impedir o espectáculo foi uma estratégia burra, para usar um termo técnico. Num país a ferver de tensões pós-eleitorais, onde a legitimidade do governo é contestada até nas mesas dos bares e nos murais digitais, mandar os comediantes de volta é sinal de desespero. E se o regime teme tanto o humor, é porque o humor está a fazer o seu trabalho: dizer verdades com graça. Expor o rei, mesmo quando ele finge estar vestido.

E cá entre nós, quem vê conspiração até num punhado de piadas, é porque tem culpa no cartaz. E medo da plateia.

A este episódio junta-se um dado ainda mais desconcertante: a ilusão persistente chamada CPLP. Porque se ainda havia quem acreditasse que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa era mais do que um clube de boas intenções e fotografias oficiais, bastou este caso para provar o contrário. Esperar um repúdio firme de Umaro Sissoco Embaló à deportação de humoristas soa a heresia diplomática — e de Marcelo Rebelo de Sousa não esperamos mais que beijos protocolares, selfies sorridentes e talvez um “Gilmário, és um querido”.

No fim, continua tudo igual. Os sorrisos interditos, os artistas devolvidos, e a comunidade lusófona a fingir que rir ainda nos une.