No século XX, a África Austral foi palco de algumas das lutas mais emblemáticas contra o colonialismo. Os partidos que emergiram destas lutas — ANC, FRELIMO, SWAPO, ZANU-PF, MPLA e Chama Cha Mapinduzi — carregavam em si a promessa de liberdade e dignidade para os seus povos. Meio século depois, permanecem no poder ou com forte influência política, mas a distância entre a utopia prometida e a realidade vivida é cada vez mais gritante.

Recentemente, esses partidos reuniram-se e, num gesto carregado de simbolismo, voltaram a repetir a narrativa que lhes tem servido de armadura: a de que os desafios que enfrentam — crises económicas, contestação popular, corrupção sistémica — são produto de forças externas, de interesses obscuros que buscam minar a sua soberania. A lógica é simples e poderosa: o inimigo continua a ser o “outro”, tal como no tempo da luta armada.

No entanto, a insistência nesta leitura já não convence como antes. Afinal, que “forças externas” explicam a incapacidade destes partidos, ao longo de cinquenta anos, de garantir serviços básicos, reduzir desigualdades e criar sistemas políticos abertos e transparentes? Até que ponto a sombra do colonialismo pode justificar, indefinidamente, os fracassos internos?

Em Moçambique, este dilema adquire contornos dramáticos. A FRELIMO, que há 49 anos governa o país, é simultaneamente herdeira e refém da sua história libertadora. O partido que fundou a nação e encarnou o sonho do 25 de Junho de 1975, hoje é contestado por gerações que não viveram a guerra colonial e para quem a independência já não é memória viva, mas herança distante. Para estes, liberdade significa mais do que soberania territorial: significa dignidade, oportunidades, transparência — bens cada vez mais escassos no quotidiano.

Ao mesmo tempo, a retórica do “inimigo externo” ressurge sempre que o poder se vê contestado. Seja no contexto eleitoral, seja perante protestos populares, a narrativa permanece: a instabilidade seria fruto de manobras estrangeiras, nunca de falhas internas. Mas o que as ruas de Maputo e de outras cidades mostram, ano após ano, é que a contestação nasce da frustração real de cidadãos que enfrentam pobreza persistente, serviços públicos colapsados e uma elite política cada vez mais distante.

As recentes tensões em Angola oferecem um espelho inquietante. Quando protestos eclodiram em Luanda, a resposta do governo foi marcada pela repressão violenta. Mortos e feridos foram silenciados na declaração presidencial, que optou por exaltar as forças de segurança. O gesto foi lido, dentro e for a do país, como arrogante e insensível — e, no entanto, familiar. A mesma lógica tem sido vista em Moçambique: a defesa intransigente do “poder libertador” mesmo à custa da erosão das liberdades conquistadas.

Há uma ironia amarga neste cenário. Os partidos que derrubaram impérios coloniais e ergueram bandeiras de esperança tornaram-se, com o tempo, guardiões de um status quo que muitos já não reconhecem como libertador. A retórica da independência, repetida em congressos e datas comemorativas, parece hoje incapaz de responder às urgências do presente: desemprego juvenil, desigualdades crescentes, corrupção sistémica e falta de horizontes.

Spinoza, no século XVII, alertava para a manipulação política do medo e da esperança. Na África Austral, estas emoções continuam a ser ferramentas eficazes: o medo do caos, do “retorno ao colonialismo”, justifica a obediência; a esperança num futuro melhor sustenta promessas que raramente se cumprem. Mas este ciclo emocional, se não for rompido, condena as sociedades a um eterno adiamento da sua verdadeira emancipação.

O desafio é romper com a nostalgia sem renegar a história. Honrar o sacrifício da luta sem transformá-lo em álibi para o presente. Reconhecer que a libertação de ontem não pode justificar a opressão de hoje. O tempo exige um novo pacto social — um que devolva à palavra “liberdade” o seu sentido pleno, não como retórica, mas como prática quotidiana.

A pergunta, cada vez mais urgente, é esta: até quando aceitaremos que as glórias de ontem sejam escudo para os fracassos de hoje?