“Pensa que isto é uma sorte e que não podes desistir”
(Carolina Deslandes em Cansaço).

A frase, aparentemente simples, é a fotografia de uma realidade profunda, mesmo que pouco visível: aqueles que vivem com paixão o exercício da sua profissão — atletas, artistas, líderes, empreendedores — são frequentemente os que menos se sentem autorizados a dizer em voz alta que estão cansados ou que precisam de ajuda.

Vivemos numa sociedade que idolatra a performance. Produzir mais, mostrar mais, render mais — queremos todos (ou a “sociedade” nos empurra para…) ser protagonistas de um cenário onde somos a figura central de uma vida pessoal e profissional inabalável. Uma tentativa quase infantil de sentir na pele o que é estar num contexto de alta performance, mas raríssimas vezes possuímos os recursos que o verdadeiro alto rendimento exige. Entre eles, a verdade inequívoca do papel do repouso e da recuperação como estratégia imprescindível para uma vida (e carreira) bem-sucedida.

Ao invés disso, deixamos o descanso para os (muito) jovens ou para os “velhos”, porque para os demais a palavra “cansaço” é um tabu de que não se fala. Confundimo-la com preguiça, falta de motivação ou fraqueza. Dizer “estou cansado(a)” não se encaixa na narrativa do sucesso. Mas o cansaço — físico, emocional ou ambos — pode ser o primeiro sinal de um processo mais perigoso: o burnout.

Um dia, um amigo dizia-me em tom de piada: “Um homem depois de morto ainda rasteja cinquenta metros.” Rimo-nos. Mas por baixo da piada observamos a cultura que (lamentavelmente) nos rodeia: a validação social do esgotamento como prova de valor. Cuidar de si, parar, regenerar? Parece fraco. Parece mal.

E, no entanto, o burnout é apenas o outro lado da moeda da resiliência. Uma resiliência levada longe demais, até ao ponto em que a capacidade de aguentar se transforma em incapacidade de viver.

O estigma do privilégio

Quando se fala de burnout, o imaginário coletivo transporta-nos quase sempre para o mundo empresarial: horários longos, chefias exigentes, contextos tóxicos. Mas falamos pouco do burnout nos chamados top performers — os que vivem no palco, nos grandes recintos desportivos ou nas salas de decisão. Nestes casos, a pressão não vem apenas de cima. Vem de dentro.

Esta pressão autoimposta, condimentada com o entusiasmo de quem vive uma paixão (no caso, a profissão a que se dedicam), transforma-se numa locomotiva sem travões, demasiadas vezes em rota de descarrilamento profundo.

O estigma do privilégio — “se tenho a sorte de fazer o que amo e ainda por cima sou bem-sucedido(a), como posso ousar queixar-me?” — é um mito profundamente devastador. Impede artistas, atletas e líderes de admitir o seu sofrimento. Empurra-os para o silêncio. E, no silêncio, os sintomas crescem.

Simone Biles, talvez a maior ginasta de todos os tempos, disse-o nos Jogos Olímpicos de Tóquio: “Tenho de proteger a minha saúde mental e não pôr em risco a minha saúde e o meu bem-estar”. Naomi Osaka, uma das melhores tenistas do mundo, confessou em 2021 que não conseguia lidar com a pressão mediática e afastou-se do circuito. Mais perto de nós, vários músicos portugueses — de Carolina Deslandes a Diogo Piçarra — já deram voz pública ao cansaço extremo e à necessidade de parar. Felizmente, a tempo.

Os sinais silenciosos

O corpo e a mente avisam antes de colapsar. Mas os sinais são subtis: fadiga persistente, insónias, perda de prazer em atividades antes gratificantes, irritabilidade, vazio emocional. Sintomas que se normalizam — “é só uma fase” — até que se tornam crónicos e nos transportam para uma anestesia profunda.

Como no desporto, onde uma microlesão ignorada pode terminar uma carreira, também na saúde mental os sinais pequenos, quando desvalorizados, tendem a transformar-se em colapsos maiores.

Em Portugal, quase 23% da população vive com uma perturbação mental, sendo a ansiedade a mais prevalente (OCDE, 2023). Entre os jovens, os números são ainda mais alarmantes: cerca de 31% reportam sintomas depressivos, e 20% das crianças e adolescentes já vivem com uma perturbação mental diagnosticada. Estes dados não são abstrações estatísticas — são escolas com professores que se arrastam num quotidiano de interminável cansaço; são alunos que não conseguem aprender; são famílias esgotadas; equipas que se partem por dentro; líderes que não conseguem liderar e que, demasiadas vezes, são eles próprios veículo de esgotamento emocional de outros.

O paradoxo português

O caso português é paradigmático: estamos entre os países da Europa que mais consome psicofármacos e, simultaneamente, apresentamos uma das mais baixas taxas de literacia em saúde mental. Traduzindo: tentamos calar os sintomas, mas falhamos em “treinar” a prevenção. É como tomar analgésicos todos os dias sem nunca tratar a inflamação de base.

O problema não é apenas estrutural — é também cultural. Crescemos a acreditar que saúde mental é sinónimo de doença, e não parte integrante da saúde. Continuamos a valorizar discursos de superação, enquanto desvalorizamos práticas consistentes de recuperação.

Continuamos, de uma forma muito ignorante, a não sermos capaz de reconhecer que resiliência não é um talento inato, mas um “músculo”: precisa de treino, descanso e recuperação. E essa é a responsabilidade individual de cada um de nós.

Treinar a mente como se treina o corpo

Ninguém pensaria correr uma maratona sem se preparar física e psicologicamente. Mas muitos acreditam que podem liderar empresas, criar arte ou competir ao mais alto nível sem treinar as competências psicoemocionais subjacentes à sustentação do desempenho (ou da carreira) que desejam.

Mas a verdade é cada vez mais inquestionável: viver em contextos de elevada exigência implica construir uma arquitetura psicológica robusta — uma estrutura interna feita de autoconsciência, gestão de energia, tolerância à frustração e capacidade de regeneração. É essa arquitetura que sustenta a performance de longo prazo sem prejuízo da saúde mental e das relações de significado que mantemos com os mais próximos, e que permite que a paixão não se transforme em fardo.

Em boa verdade, também a linguagem precisa de fazer parte da mudança. Falar de burnout como sobrecarga sem recuperação, ou de resiliência como “músculo”, não só torna conceitos complexos em imagens claras como lhes retira o peso do estigma, mostrando que treinar as competências psicoemocionais não é luxo — é necessidade e responsabilidade individual.

A ciência também o confirma: inúmeros programas de treino psicológico têm demonstrado a elevação dos indicadores de saúde mental e bem-estar, a redução dos níveis de ansiedade e a melhoria da performance sob pressão (e.g. Fletcher & Sarkar, 2016). E não estamos a falar apenas de atletas olímpicos — estas estratégias aplicam-se a estudantes, profissionais de saúde, executivos, qualquer pessoa que viva em ambientes de exigência.

Só tem um “probleminha”: o treino, propriamente dito, e de que natureza for, não vem de um qualquer comprimido mágico… vem da vontade e, muitas vezes, da determinação que surge na ausência dessa, de fazer escolhas diferentes, de assumir o desconforto inicial e acreditar no velho ditado de que “primeiro estranha-se (o treino), mas depois entranha-se”.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

Uma parceria com:

Hospital da Luz Johnson & Johnson Innovative Medicine

Com a colaboração de:

Ordem dos Médicos Ordem dos Psicólogos