Há um vento quente que atravessa os desertos do Magrebe, carregando consigo não apenas a poeira dos oásis esquecidos, mas os sussurros de uma verdade antiga: toda a grandeza humana é, afinal, um castelo de areia. Ibn Khaldun, nascido sob esse céu implacável, soube escutar o rumor das dunas móveis — não como geógrafo, mas como arqueólogo das ruínas ainda não erguidas. Na Muqaddimah, a sua obra-prima, ele não escreve história; desenterra ossos de impérios, examina as vértebras quebradas de dinastias, e interroga, como um médico do tempo: qual o mal que corrói os corpos políticos? A resposta, suspeitamos, não está nos palácios, mas na areia. Na areia que tudo cobre, na areia que tudo revela.

A história, para Khaldun, é um organismo que respira. Inspira na ascensão dos beduínos — homens duros como o solo que pisam, unidos por laços de sangue e fome — e expira na luxúria das cidades, onde o mármore substitui a argila, e os poetas cantam elegias para governantes que já não ouvem. A asabiyyah, essa força invisível que tece tribos em impérios, não é um conceito: é um sopro. Um sopro que infla os pulmões de um povo até que, inchado de poder, ele estoura. E então, como um animal ferido, a civilização recolhe-se, aguardando o próximo caçador que trará, nas suas mãos calosas, um novo fôlego.

Walter Benjamin, o flâneur das catástrofes, diria que a história é um anjo cujo rosto está voltado para o passado, enquanto o vento do progresso o empurra para um futuro que ele não pode ver. Khaldun, porém, não acredita em progresso. Acredita em círculos. Em espirais. Em governantes que repetem, como sonâmbulos, os erros dos fantasmas que os precederam. Cada império é um palimpsesto: sob as inscrições douradas da nova dinastia, há sempre o traço apagado de outra, mais antiga, que também julgou ser eterna.

Os séculos passam, e nós, filhos da modernidade, construímos arranha-céus sobre os escombros que Khaldun previu. As nossas asabiyyahs já não cheiram a suor de camelos, mas a algoritmos. Tribos digitais erguem bandeiras em redes sociais — hashtags substituíram estandartes, likes valem mais que juramentos de sangue. O beduíno contemporâneo não cavalga no deserto; navega em feeds infinitos, buscando a miragem de pertença. E quando a sede o consome, descobre que a água é salgada: a solidão do século XXI não é geográfica, mas existencial.

Maquiavel, esse anatomista do poder, sorriria ao ver como os populistas de hoje encenam a sua virtù. Falam em “povo”, mas o seu teatro é o mesmo dos califas de Khaldun: prometem segurança, invocam inimigos, e no palco vazio da democracia, encenam uma pantomina de força. Contudo, faltam-lhes os laços reais, a aspereza dos que lutaram lado a lado. A sua asabiyyah é de cartolina — brilha sob holofotes, mas desfaz-se na primeira tempestade.

Há uma melancolia peculiar em Khaldun, uma saudade do mundo antes da queda. Ele sabe que os impérios perecem não por acaso, mas por uma lei tão implacável quanto a gravidade: o luxo amolece, a burocracia paralisa, a ganância separa o governante dos governados. Marx, séculos depois, dirá que a história é a história da luta de classes. Khaldun, porém, vê uma luta mais íntima: a do homem contra a sua própria natureza. O mesmo instinto que o leva a construir catedrais é o que o arrasta para a indolência. A mesma ambição que ergue muralhas é a que as derruba.

Nietzsche, no seu estilo oracular, gritaria que Deus está morto. Khaldun, mais silencioso, diria que os deuses são mortais: nascem no fervor religioso de uma tribo ascendente e morrem nos templos vazios de uma civilização decadente. A fé, como a asabiyyah, é uma chama que precisa de vento — e o vento, cedo ou tarde, apaga o fogo que alimentou.

E nós, espectadores do colapso ecológico, do declínio demográfico, da inteligência artificial que promete governar melhor que os homens, o que faremos? Khaldun oferece-nos um espelho embaciado: vemos nele não profecias, mas padrões. A crise climática é a nossa versão da desertificação — não do solo, mas do sentido. Os algoritmos são os nossos beduínos digitais, nómadas que conquistam atenção como outrora se conquistavam oásis. E quando as cidades modernas caírem, não será por invasões, mas por um vazio que nenhum conforto material pode preencher.

Hannah Arendt, ao falar da “banalidade do mal”, descreveu o vazio ético da burocracia. Khaldun acrescentaria: é o vazio existencial da abundância. Comemos até nos engasgar, acumulamos até sufocar, e no meio do festim, percebemos que o sabor se perdeu. A asabiyyah não morre por falta, mas por excesso — como uma planta que definha ao ser regada em demasia.

Benjamin escreveu sobre o Angelus Novus, o anjo da história que vê o passado como um amontoado de ruínas. Khaldun, se pudesse falar ao anjo, talvez dissesse: “As ruínas não são acidentes. São monumentos à hybris humana, lembretes de que até a pedra mais sólida volta a ser pó.” O seu tratado não é um manual para evitar a queda — é um convite a dançar com ela. A reconhecer que, nas dobras do tempo, toda a ascensão carrega a semente da decadência, e toda a decadência, o germe de um renascimento.

A pergunta que nos tira o sono  não é como evitar o fim, mas como viver com elegância no interregno. Como cultivar jardins entre os escombros, como encontrar significado na efemeridade. Khaldun, o poeta das cicatrizes históricas, não nos dá respostas. Apenas sussurra, como o vento do deserto: “Olhem para a areia. Ela já foi montanha. E será montanha outra vez.”

Errata: Este artigo foi inicialmente publicado identificando um outro autor. A ambos os autores pedimos desculpa pelo lapso, assim como aos leitores do Observador.