Dezembro transformou-se num mês de urgências artificiais. Quem passear pelos centros comerciais das grandes cidades portuguesas nos próximos dias, encontrará um cenário de aflição coletiva. Não é a aflição da sobrevivência, mas a aflição da performance. Vê-se nos rostos a tensão de quem tem de cumprir um guião: a prenda perfeita, a mesa farta, a decoração imaculada.
Há uma vertigem nas compras que deixou de ser celebração para passar a ser obrigação. E é aqui que reside a crítica necessária: não ao ato de oferecer, que é nobre, mas à desproporção do nosso drama.
Vivemos numa bolha de privilégio tão hermética que conseguimos transformar a abundância num problema. Queixamo-nos das filas, da ruptura de stock do brinquedo da moda, do atraso das transportadoras. Elevamos estes inconvenientes logísticos à categoria de tragédia pessoal. E é precisamente essa elevação que se torna moralmente questionável quando olhamos para lá das nossas fronteiras confortáveis.
A verdadeira “crise de Natal” não é o preço do bacalhau ter subido. A verdadeira crise é silenciosa e geográfica.
Enquanto a Europa se digladia com a “fome de objetos” — a necessidade de preencher vazios emocionais com bens materiais —, uma vasta parte do mundo continua a lutar contra a fome real. Não a fome de quem quer o último modelo de smartphone, mas a de quem precisa de garantias mínimas de dignidade.
O contraste é violento, não pela maldade de quem compra, mas pelo esquecimento. O nosso Natal tornou-se num exercício de amnésia seletiva. Para podermos desfrutar da nossa “festa do consumo”, precisamos de esquecer ativamente que o nosso “básico” é o luxo inalcançável da maioria da população global.
Criámos uma geração — e inclui-nos a todos, adultos e crianças — que perdeu a calibração da realidade. Quando uma criança chora porque recebeu a versão errada da consola de jogos, não é culpa da criança. É culpa de uma sociedade que lhe ensinou que a satisfação imediata de desejos supérfluos é um direito humano inalienável.
Estamos a criar cidadãos com baixa tolerância à frustração material, num mundo onde a frustração de milhões é não ter água potável.
Esta desconexão é perigosa. Torna-nos insensíveis. Faz-nos acreditar que os nossos micro-problemas de classe média europeia são o centro do universo. E não são. São apenas os problemas de quem teve a sorte, imerecida e aleatória, de nascer do lado “certo” da trincheira económica.
Não se pede que o Natal seja triste, nem que deixemos de dar brinquedos. A economia precisa de funcionar e a alegria faz falta. Mas impõe-se, no mínimo, um pouco de decoro intelectual. Impõe-se que, ao meio da azáfama dos embrulhos, tenhamos a hombridade de reconhecer o absurdo da nossa insatisfação.
Talvez o ato mais revolucionário deste Natal não seja uma grande doação de caridade, mas sim um momento de lucidez. O momento em que olhamos para a pilha de presentes e, em vez de sentirmos que “ainda falta qualquer coisa”, sentirmos o peso da responsabilidade de quem tem tudo, num mundo onde tantos não têm nada.
Menos queixa, mais consciência. Seria um bom começo.