Portugal tem um grave problema. Quer ser o que ainda não é. Quer ser moderno, quer mostrar que é evoluído tecnologicamente e, no que ao ensino diz respeito, os governantes fazem do Web Summit um desfile de vaidades. É como aquele tio que aparece no jantar de família a dizer que agora faz blockchain, mas ainda não percebeu como mudar o ringtone do telemóvel.
E então, num país onde ainda há alunos sem professores, médicos de família que são uma espécie de Pokémon lendário (toda a gente sabe que existem, mas ninguém os apanha) e ordenados que só dão para viver dignamente desde que a dignidade seja opcional, surge a nova promessa: tutores de IA para todos.
É fascinante: passámos diretamente do “faltam recursos humanos” para o “temos aqui um algoritmo muito simpático que dá explicações”. E com isto, o ministro sobe ao palco de peito inchado, num exercício de oratória digno de quem descobriu a roda.
O problema nem é a ideia em si. A ideia até é boa. O problema é o país onde a ideia vai aterrar. Porque Portugal adora anunciar modernidade sem antes verificar se tem o básico. É como instalar painéis solares numa casa sem telhado. Fica bonito na fotografia, mas chove lá dentro.
E por falar em chuva…
Antes de se prometer tutores digitais personalizados, talvez devêssemos garantir que os alunos têm salas de aula. Daquelas que não se transformam em cascatas decorativas sempre que São Pedro decide testar o sistema educativo.
Em janeiro de 2025, no Centro Escolar da Freixianda (Ourém), parte do teto caiu depois de chuva intensa. Não é exagero poético — caiu mesmo. As aulas foram canceladas e a escola ficou inutilizável por dias. Crianças enviadas para casa, não por greve, mas por gravidade.
No Porto, a Escola Básica do Campo 24 de Agosto teve de fechar em fevereiro de 2025 porque as infiltrações eram tantas que a água escorria pelas paredes e parte do teto de pladur das escadas abateu. Pais “apanhados de surpresa”; Câmara a negar negligência; alunos sem aulas.
Em Lisboa, na Escola Básica do Lumiar, chovia dentro do edifício em pleno mês de julho de 2025 — fenómeno meteorológico reservado a países tropicais, mas trazido gentilmente para a capital. Buracos no recreio onde já caiu uma criança. Infiltrações, ratos, e um cenário que faria corar a Câmara, se esta ainda tivesse rubor disponível.
E em março de 2025, em Odivelas, mais de 200 alunos ficaram sem aulas após danos graves na cobertura da Escola Básica Bernardim Ribeiro, provocados pelo mau tempo. Uma escola fechada, mais um episódio evitável.
Mas sim, vamos lá falar dos tutores de IA.
Esta paixão governamental pelo futuro, anunciada com a leveza de quem nunca entrou numa escola pública num dia de inverno, falha pela raiz: não se lê o país.
Não se lê as paredes, as infiltrações, o frio que se entranha nos ossos dos miúdos. Não se lê os professores exaustos, a falta de pessoal, os alunos em contentores metálicos que aquecem no verão e gelam no inverno.
Falar de tutores de IA em que o teto de uma escola cai é um erro de comunicação monumental. Soa a provocação. É o equivalente a dizer a alguém que não tem pão: “Olhe, mas temos aqui um croissant digital de última geração!”
A população está a lidar com problemas sólidos de cimento, telhas e humidade. Responder-lhes com inovação abstrata é politicamente infantil. Confunde anúncio com solução e tecnologia com milagre.
Conclusão: Portugal precisa menos de Silicon Valley e mais de cimento armado.
O que falha não é a ambição tecnológica, essa até seria bem-vinda.
O que falha é a ordem das prioridades.
Portugal não está a pedir carros voadores. Está a pedir salas onde não chova. Está a pedir recreios sem crateras, coberturas inteiras, e condições mínimas para que o ensino seja digno e seguro.
É aqui que a comunicação política tropeça: governa-se para o país que se gostaria de ter em vez de se governar para o país que existe.
Kant teria dado uma gargalhada: a razão pura anda por aí a justificar ilusões, enquanto a razão prática ( a do teto que cai ) faz o seu trabalho silencioso e pesado. E não falha.
Portugal tem muito potencial, mas antes da IA, precisa de I…I de Infraestruturas. I de Isolamento térmico. I de Investimento real. I de Início de obra, e não apenas anúncio.
Portugal não precisa de ser o país mais inovador do mundo. Precisa é de não ser o país onde chove dentro das salas de aula.
O futuro pode esperar. A dignidade não.