Até há poucos anos, a maioria dos europeus acreditava que o seu sistema político, económico e de segurança possuía um apelo global que serviria de modelo para todo o mundo. A “Paz Perpétua” kantiana seria identificada como uma referência que a todos conviria e para a qual iriam convergir. Essa visão incluía a permanente presença do “amigo americano”, numa arquitetura de segurança euro-atlântica de interesse comum. Chegou-se mesmo a acreditar que a relação com a Rússia poderia passar pela estreita cooperação e parceria. Tinha-se alcançado o “Fim da História” (Fukuyama) e o mundo seria seguro e próspero.
Mas as circunstâncias conduziram a um progressivo afastamento. Para Moscovo, os acontecimentos no Kosovo, na Ucrânia e na Chechénia, “por ação ou encorajados pelo Ocidente”, demonstravam que o objetivo dos EUA seria a limitação do poder da Rússia. Esse sentimento ficou bem patente na Conferência de Segurança de Munique de 2007, onde Putin acusou a NATO de expansão para Leste, colocando em causa a Arquitetura Global de Segurança. Ficou evidente a estratégica nacional russa, que, entretanto, conheceu várias fases de reação e que encontra agora uma oportunidade única. Para Putin, ser considerado como um interlocutor por Trump assegura à Rússia um reconhecimento de estatuto de grande potência, essencial para a concretização dos seus objetivos maximalistas.
A rapidez com que a Administração Trump promoveu a nova configuração de política externa foi surpreendente e encontrou uma Europa pouco preparada. A Ordem Internacional Liberal termina, dando lugar a uma competição geopolítica, em que as grandes potências dividem o mundo em esferas de influência e em que dentro delas os Estados apenas apresentam soberania limitada. Mas as esferas de influência raramente são estáticas, dependendo de até onde irão as grandes potências no sentido de as proteger, sendo esta a dúvida cuja resposta determinará se a transição retorna a um equilíbrio de poder ou inaugura um período de instabilidade e guerra.
É neste contexto geopolítico, de procura pelo equilíbrio do sistema e não necessariamente pelo alcançar de soluções justas, que surge a possibilidade de a região se tornar mais estável a curto prazo. Se a Administração Trump der resposta às “raízes do problema”, apontadas por Moscovo, e impuser esse cessar-fogo à Ucrânia, poderá ser assegurada uma estabilidade temporária. Mas essa situação conduzirá a um desequilíbrio que irá promover uma nova arquitetura de segurança europeia, longe dos interesses da Europa. Putin não deixará de perseguir o seu objetivo declarado de inverter os resultados do fim da União Soviética. Uma vitória russa sinalizaria ainda que o único garante de segurança e independência seriam as armas nucleares, o que conduziria a uma proliferação nuclear. Em suma, em vez de resolver a situação, aumentaria o risco de um confronto futuro, com resultados ainda mais catastróficos.
Para prevenir a próxima guerra e assegurar a estabilidade europeia futura, é urgente que a Europa se torne num ator geopolítico global, efetivo e respeitado. É, por isto, essencial intervir para assegurar um acordo equilibrado. Mas não chega, terá de fazer mais, e não menos, num período pós-acordo, mantendo o seu apoio à Ucrânia, a par dum reforço da componente de segurança europeia, baseada numa maior integração e no desenvolvimento das suas capacidades militares autónomas e da sua indústria de defesa. Nunca esquecendo, no entanto, que a Europa será sempre mais forte mantendo a sua ligação privilegiada aos EUA – por difícil que ela pareça nos dias que correm.
No mundo real, a segurança e o desenvolvimento devem caminhar a par, mas estarão os europeus preparados para enviar os seus filhos para defender a Europa? A resposta a essa pergunta determinará a estabilidade e o futuro do projeto, valores e princípios europeus.