Até ao dia 27 de maio, data em que o Observador organiza a Cimeira das Cidades, desafiamos alguns especialistas a escrever sobre os desafios das urbes do futuro. A entrada no evento é gratuita, mediante inscrição, que pode ser feita AQUI.

O principal desafio das cidades do futuro na área da tecnologia será garantir que esta revolução digital seja inclusiva, orientada por um propósito e territorialmente equilibrada. Por si só, a tecnologia não resolve problemas — mas pode ser uma poderosa alavanca para enfrentá-los de forma mais inteligente, participativa e eficiente.

O desafio está também em não cair na tentação de importar modelos urbanos que ignoram as especificidades de cada território. A tecnologia deve ser um meio para promover a qualidade de vida, combater o despovoamento e criar oportunidades económicas — e não apenas um fim em si mesma. É por isso que, em paralelo com a atração de empresas, apostamos na capacitação digital dos cidadãos, na criação de infraestruturas tecnológicas em várias freguesias, na atração de nómadas digitais e startups, e em projetos-piloto que colocam o Fundão na linha da frente da inovação com um propósito.

Temos procurado demonstrar que é possível criar ecossistemas de inovação robustos, atrativos para o talento e que respeitam a identidade local. Para isso é fundamental ligar pessoas, conhecimento e tecnologia a uma visão clara de desenvolvimento. Estes esforços mostram que é possível descentralizar a inovação e transformar o interior numa alternativa competitiva, sem perder autenticidade.

As cidades do futuro não serão necessariamente maiores — mas serão mais inteligentes, mais humanas e mais conectadas ao seu território e à sua comunidade. O futuro não se constrói só com chips ou cabos de fibra ótica, mas com políticas públicas que saibam usar a tecnologia como instrumento de coesão, inclusão e competitividade.

E é aqui que o interior pode surpreender. Pela sua escala mais humana, pela flexibilidade institucional, pela relação íntima com a paisagem e a comunidade, pode assumir a vanguarda de um novo modelo urbano: mais focado na proximidade; menos obcecado com o brilho tecnológico e mais comprometido com a sustentabilidade e o bem comum. Um modelo que entenda os cidadãos como co-criadores da inovação. Porque o futuro das cidades não se constrói só com engenharia, constrói-se com alma.

Paulo Fernandes é licenciado em Relações Internacionais. Presidente da Câmara Municipal do Fundão, é também fundador e presidente da Rede de Aldeias de Xisto e fundador da Rede Aldeias Históricas de Portugal.