Escrevi há alguns meses um artigo com um título provocador: “Universidade Católica: quando a missão fica para depois.” Fá-lo por preocupação, não por ressentimento. Acreditava – e continuo a acreditar – que a Universidade Católica Portuguesa pode e deve ser uma referência académica e cultural. Mas quem gosta de uma instituição não lhe poupa as críticas quando vê que ela se afasta daquilo que a tornou diferente. Infelizmente, os acontecimentos dos últimos meses não me tranquilizam. Pelo contrário, reforçam a convicção de que a Escola das Artes está a perder, lentamente, uma parte essencial da sua identidade.

A saída da professora Carla Felizardo da coordenação do curso de Arte, Conservação e Restauro é mais do que uma mudança de funções. É um sinal de enorme peso. Falamos de uma das figuras mais respeitadas da Conservação e Restauro em Portugal, alguém que ajudou a consolidar um curso reconhecido pela qualidade científica, técnica e humana. Quando uma instituição perde referências desta dimensão, não basta dizer que haverá continuidade. É legítimo perguntar se continuará a existir um projeto capaz de atrair talento, formar profissionais de excelência e manter o prestígio que levou tantos alunos a escolher aquela escola.

Mas este episódio não surge isolado. Encaixa numa sucessão de decisões que apontam sempre na mesma direção. Primeiro desapareceu o Centro de Conservação e Restauro, um espaço que fazia da Escola das Artes um caso praticamente único no panorama nacional, ao unir investigação, ensino e intervenção prática. Depois vieram as dificuldades de investimento, a escassez de materiais, o adiamento de equipamentos, a perda progressiva de capacidade laboratorial. Agora parte uma das principais responsáveis pelo curso. Separadamente, cada facto pode encontrar uma justificação. Em conjunto, contam uma história muito diferente.

Quem conhece a Conservação e Restauro sabe que esta não é uma ciência que sobreviva apenas em salas de aula. Aprende-se diante das obras, nos laboratórios, entre microscópios, análises, documentação técnica, ensaios e prática constante. É uma área onde o rigor científico depende diretamente dos meios disponíveis. Sempre que se corta numa oficina, num equipamento ou num laboratório, não se está apenas a poupar dinheiro; está-se a diminuir a qualidade da formação e a limitar aquilo que os futuros profissionais poderão oferecer ao país.

É difícil fugir à ideia de que este curso deixou de ser prioritário. Ninguém o afirma publicamente, mas as prioridades conhecem-se pelo destino dos recursos. Há áreas onde o investimento aparece, onde os projetos avançam e onde existe uma presença constante da direção. Noutras, a sensação é precisamente a inversa: acumulam-se adiamentos, reduzem-se ambições e instala-se a impressão de que basta manter o essencial para que tudo continue a funcionar. Só que a excelência nunca sobrevive muito tempo alimentada apenas pelo mínimo indispensável.

Também não ajuda a perceção, partilhada por muitos alunos, de uma liderança distante da realidade quotidiana do curso. Quem frequenta laboratórios e oficinas dificilmente sente que estas áreas estejam no centro das preocupações estratégicas da Escola das Artes. Pelo contrário, parece evidente que outras apostas ocupam hoje o foco institucional. Nada há contra o crescimento de áreas como o Cinema ou o Som e Imagem. O problema começa quando esse crescimento acontece à custa de cursos que deram prestígio à instituição. Já aconteceu com a Música Sacra. É legítimo perguntar se a Conservação e Restauro não estará agora a percorrer exatamente o mesmo caminho.

Há ainda uma segunda questão que merece reflexão. Uma universidade vive tanto da qualidade dos seus professores como da exigência que coloca aos seus estudantes. Quando os critérios de acesso parecem tornar-se cada vez mais flexíveis e quando surgem situações difíceis de compreender, como admissões a ciclos de estudo superiores antes da conclusão plena da licenciatura, é inevitável perguntar se a prioridade continua a ser a excelência académica ou a ocupação de vagas. Uma instituição conquista reputação precisamente porque sabe dizer “não” quando é necessário. O prestígio nunca nasceu da facilidade.

Tudo isto deveria preocupar a Reitoria da Universidade Católica Portuguesa. E deveria preocupar também a própria Igreja. Grande parte do património artístico português pertence à Igreja e dependerá, nas próximas décadas, de conservadores e restauradores altamente qualificados. Desinvestir na formação destes profissionais é comprometer a preservação desse património. Não é apenas um problema universitário; é uma questão cultural e eclesial.

Ainda vamos a tempo de inverter este caminho. Mas, para isso, é preciso reconhecer que existe um problema. As universidades raramente desaparecem de um dia para o outro. Perdem relevância lentamente. Primeiro deixa-se degradar um laboratório. Depois sai um professor de referência. Mais tarde reduz-se o investimento. Entretanto, instala-se a ideia de que “é o mercado”. Quando finalmente todos percebem o que aconteceu, já não existe massa crítica para recuperar aquilo que se perdeu.

O verdadeiro drama não é apenas perder um curso de excelência. É perder a consciência de que ele alguma vez foi importante.