Há uma curiosa tendência nacional para considerar que tudo o que envolve dinheiro e Igreja Católica é, à partida, suspeito. Se uma paróquia tem dinheiro, é porque enriquece à custa dos fiéis. Se não tem, é porque administra mal. Se recebe donativos, vive à custa dos outros. Se procura outras formas de financiamento, transforma-se numa empresa. E, se disponibiliza um terminal de pagamento eletrónico, quase parece que instalou uma caixa multibanco à porta do Céu. Convenhamos: não é fácil agradar a todos.

A questão das contas da Igreja merece ser discutida, mas talvez estejamos a começar a discussão pelo sítio errado. Mais importante do que exigir números é saber lê-los. Porque a transparência, por si só, não garante a compreensão. E uma sociedade que confunde sistematicamente receita com lucro, património com riqueza disponível e investimento com enriquecimento pessoal dificilmente fará uma leitura justa das contas de qualquer instituição.

O problema não é exclusivo da Igreja. Todos os dias ouvimos análises apaixonadas sobre o défice, a dívida pública ou o Produto Interno Bruto. E, contudo, nem sempre sabemos distinguir estes conceitos. Isso não impede ninguém de ter opinião sobre as contas do Estado. Mas uma opinião não se transforma em conhecimento apenas porque é expressa com convicção. Com a Igreja acontece algo semelhante, agravado por um desconhecimento profundo da sua organização. Fala-se de emolumentos, intenções de missa, ofertórios, património paroquial ou rendimentos de santuários como se tudo fosse a mesma coisa e acabasse no mesmo bolso.

Quantas vezes se ouve que os padres recebem dinheiro de Fátima, como se existisse uma tesouraria nacional que distribuísse mensalmente os rendimentos do Santuário por todos os sacerdotes portugueses? Ou que determinada paróquia é rica porque possui uma igreja monumental, esquecendo que um edifício com séculos de história pode valer milhões no papel e custar uma pequena fortuna em conservação? Uma igreja pode ter um teto artisticamente extraordinário e não ter dinheiro para reparar o telhado. A contabilidade tem destas ironias.

Depois, convém recordar que a Igreja não é uma estrutura administrativa entregue ao improviso de um pároco. Existem conselhos económicos paroquiais e diocesanos, normas de administração, obrigações de prestação de contas e mecanismos de fiscalização. O próprio Direito Canónico determina que os administradores prestem contas à autoridade competente e que os fiéis sejam informados sobre a utilização dos bens que oferecem, segundo as normas estabelecidas. Na maioria das comunidades, os relatórios económicos são apresentados aos paroquianos. Onde isso ainda não acontece com a clareza necessária, deverá acontecer. Não porque a Igreja tenha alguma coisa a esconder, mas porque os bens da comunidade devem ser administrados com a responsabilidade que a confiança dos fiéis exige.

É evidente que podem existir erros, decisões discutíveis ou administrações menos felizes. Como acontece numa empresa, numa associação, numa autarquia ou em qualquer instituição humana. Mas temos um vício terrível: transformar a parte no todo. Basta uma situação irregular para que toda uma instituição seja colocada sob suspeita. Se um administrador é corrupto, todos passam a sê-lo. Se uma paróquia administra mal, a Igreja inteira é acusada de esconder dinheiro. Curiosamente, não aplicamos sempre o mesmo raciocínio às instituições de que gostamos. A generalização é uma excelente forma de dispensar o trabalho de pensar.

Há, todavia, uma questão que me parece muito mais importante e que raramente merece atenção: quem sustenta verdadeiramente a Igreja? Em Portugal, a vida das paróquias depende, em grande medida, da generosidade dos fiéis. Não existe um imposto eclesiástico como na Alemanha. Há comunidades com recursos e outras que mal conseguem assegurar as despesas correntes. Há igrejas que precisam de obras, funcionários a remunerar, atividades pastorais, respostas sociais e património a conservar. E tudo isto custa dinheiro. Muito dinheiro. O curioso é que muitos desses serviços estão disponíveis para todos, incluindo para aqueles que nunca contribuíram para a sua manutenção.

E aqui reside uma contradição que vale a pena reconhecer. Queremos a igreja aberta, limpa, iluminada e conservada. Queremos o funeral, o casamento, o batismo, a festa da terra, a catequese e a ajuda aos mais necessitados. Queremos tudo, e bem. Mas esquecemo-nos de que, frequentemente, aquilo que está ao serviço de todos é sustentado por uns poucos. E esses poucos, em muitas comunidades, são cada vez menos e cada vez mais idosos. Talvez esta realidade merecesse tanta atenção como os números que aparecem nos balanços.

A Igreja não é um balcão de serviços religiosos onde se entra apenas para pedir alguma coisa. É uma comunidade viva, com responsabilidades partilhadas. Os seus bens não pertencem ao padre, nem ao bispo, nem a uma entidade misteriosa chamada «Vaticano». Estão ao serviço de uma missão e exigem administração, fiscalização, conservação e, sobretudo, participação. Quem quiser compreender melhor esta realidade pode começar por uma coisa simples: aproximar-se da sua paróquia, conhecer o conselho económico, perguntar pelas receitas e pelas despesas, perceber quanto custa manter aquela comunidade a funcionar. Talvez descubra que há muito mais trabalho, dedicação e generosidade do que alguma vez imaginou.

A Igreja deve prestar contas. Não há discussão quanto a isso. Mas prestar contas não significa oferecer números descontextualizados ao tribunal da suspeita. Significa explicar, com rigor, aquilo que se recebe, aquilo que se gasta e aquilo que se faz. E também quem escrutina tem a responsabilidade de compreender antes de condenar. O receio de uma leitura distorcida não pode servir de desculpa para esconder informação, mas deve ser motivo para a explicar melhor.

Talvez o problema não seja a Igreja ter medo de mostrar as contas. Talvez seja saber que, muitas vezes, quem as reclama não está verdadeiramente interessado em compreendê-las. Porque é fácil exigir transparência de uma comunidade à qual não pertencemos. Mais difícil é reconhecer que essa comunidade continua a manter as portas abertas, também para nós, graças ao esforço silencioso de quem nela acredita e a sustenta.

E, antes de perguntar quanto dinheiro tem a Igreja, talvez fosse justo perguntar quanto custa mantê-la viva.