A vacinação é uma das maiores conquistas da saúde pública, responsável por erradicar ou controlar doenças que, há poucas décadas, devastavam populações. Segundo as últimas estimativas da Organização Mundial de Saúde e UNICEF sobre a Cobertura Nacional de Imunização para Portugal, com dados até 2023, o nosso País apresenta valores muito positivos relativos à adesão à vacinação, a rondar os 95% a 99% nas principais vacinas do Plano Nacional de Vacinação. Também é possível perceber que o número de casos reportados para doenças preveníveis através da vacinação tem vindo a diminuir, com algumas delas sem casos reportados há mais de vinte anos, como são exemplos a Difteria ou o Tétano Neonatal.

Contudo, apesar deste progresso, a hesitação vacinal tem vindo a ser reportada em mais de 90% dos países do mundo, sendo, por isso, apontada pela OMS como uma das maiores ameaças à saúde global, que coloca em risco estas conquistas.

Este é um problema complexo, alimentado por desinformação, complacência e falta de confiança nas vacinas e/ou nas instituições de saúde. Nos últimos anos, o fenómeno foi amplificado pelas redes sociais, que disseminam rapidamente informações falsas. Esta realidade sublinha a importância de ações concertadas para sensibilizar a população sobre os benefícios da vacinação — e os profissionais de saúde desempenham um papel vital nesse esforço.

Os frutos da vacinação
As vacinas mudaram o panorama da saúde pública na maior parte dos países do mundo, onde se inclui o nosso País. Doenças que outrora eram sinónimo de mortalidade e sofrimento foram eliminadas ou controladas. A varíola, que causava milhões de mortes, é hoje apenas uma memória histórica. A poliomielite, que deixava crianças paralisadas, foi praticamente eliminada graças a campanhas de vacinação universal. O mesmo aconteceu com a difteria, uma doença respiratória mortal, e o tétano neonatal, cujos casos desapareceram com a imunização e práticas obstétricas seguras.

Outras doenças, como o sarampo e a parotidite, estão sob controlo, mas não erradicadas, com surtos ocasionais devido à importação de casos e a falhas na cobertura vacinal. Estes exemplos reforçam a necessidade de manter altas taxas de vacinação para garantir a imunidade de grupo e proteger os grupos mais vulneráveis.

O desafio da hesitação vacinal
Segundo a OMS, a hesitação vacinal resulta de uma combinação de fatores sociais, políticos e individuais. Paradoxalmente, o sucesso das vacinas contribui para este problema: ao erradicar doenças, criam a falsa impressão de que o risco desapareceu. Assim, algumas pessoas deixam de perceber a necessidade de vacinar-se ou vacinar os seus filhos, aumentando o risco de surtos.

Além disso, a desinformação, sobretudo em plataformas digitais, tem minado a confiança nas vacinas, algo que foi amplificado durante a pandemia. Boatos sobre efeitos colaterais, teorias da conspiração e desconfiança em relação às farmacêuticas têm contribuído para o ceticismo. O resultado é uma ameaça não só para quem escolhe não se vacinar, mas para toda a sociedade, que perde a imunidade de grupo.

O papel dos profissionais de saúde na sensibilização
Os profissionais de saúde estão na linha da frente no combate à hesitação vacinal. Mais do que administradores de vacinas, são educadores e embaixadores da saúde pública. Por isso, é essencial que compreendam os fatores que contribuem para este problema, estando preparados para abordar preocupações de forma empática, adaptando a mensagem a diferentes públicos.

Uma abordagem eficaz inclui:

Educação baseada em evidências: Explicar de forma clara e acessível a importância das vacinas e os riscos de não se vacinar.

Empatia e diálogo: Ouvir as preocupações das pessoas sem julgamentos e apresentar informações que respondam às suas dúvidas.

Contra a desinformação: Combater mitos e boatos com dados científicos, utilizando canais acessíveis e confiáveis.

Parcerias com a comunidade: Trabalhar com escolas, associações locais e líderes comunitários para reforçar mensagens pró-vacinação.

Vacinação: responsabilidade de todos

A vacinação não é apenas uma decisão individual, mas um ato de solidariedade e civismo. Ao vacinar-se, uma pessoa protege-se não apenas a si, mas também aqueles que não podem ser vacinados, como doentes imunodeprimidos, ou bebés. A responsabilidade de manter a imunidade de grupo é coletiva e exige esforços contínuos de toda a sociedade.

Os profissionais de saúde, enquanto vozes de autoridade e confiança, têm uma missão crucial: sensibilizar a população, dissipar mitos e reforçar a importância da vacinação para o bem-estar de cada um e de todos. Afinal, como provam as histórias de doenças erradicadas e controladas, a vacinação é, e continuará a ser, um dos maiores pilares da saúde pública.