Há coisa de um ano, escrevi um artigo, publicado no Observador, em que defendia que a AD devia fazer um acordo de incidência parlamentar com o Chega. Fazia todo o sentido: o Chega estava disponível para negociar, e tinha número de deputados suficientes para garantir estabilidade governativa, juntamente com a AD. No entanto, Luís Montenegro decidiu manter o seu “Não é não”. O Chega foi afastado – e, em abono da verdade, também se afastou – de qualquer responsabilidade política pelos rumos da governação. A AD escolheu o PS, o partido que tinha feito de tudo para destruir o PSD, e que atraiçoou todos os costumes constitucionais quando se aliou à esquerda bolchevique, em 2015, como parceiro preferencial.

Passado um ano, que lições podemos retirar das escolhas de Luís Montenegro e da AD? Essencialmente duas. Em primeiro lugar, que o PS é tudo menos um parceiro oficioso estável. É um partido que tem a arrogância de exigir dos outros o que não exige de si mesmo – moderação, institucionalismo, e capacidade de diálogo. Mais: é um partido que não sabe viver fora do poder, que acredita piamente que tem um mandato divino para orientar os destinos do país, preferencialmente sozinho e em permanência. Por isso mesmo, assim que viu a oportunidade de o fazer, deitou abaixo o governo e tentou a sorte em eleições. Perdeu, e perdeu feio. E em segundo lugar, que quanto mais longe o Chega está da governação, mais cresce. Isto não é uma novidade, nem um exclusivo português (aliás, uma terceira lição que podemos retirar destas eleições, é a de que o eleitorado português é mais parecido com os seus congéneres europeus do que poderíamos imaginar). Se olharmos para outros países da Europa: em Inglaterra, na Alemanha, na Holanda, em França, etc., os partidos de extrema-direita têm espessos cordões sanitários à sua volta. Os resultados? Em todos esses países, os sistemas políticos estão cada vez mais distorcidos, com três grandes partidos a competir pelo poder. Pior: em França e na Alemanha, estamos mesmo a assistir a um fenómeno de amálgama dos partidos do centro-esquerda e centro-direita num bloco descaracterizado e despolarizado, enquanto os partidos dos extremos se vão perfilhando como as alternativas “às elites”. Pelo contrário, em Espanha, a extrema-direita é parceira de coligação do partido do centro-direita, o que garante que aquele seja subalterno deste, e não adversário direto.

Assim, e tendo em conta estas lições, a AD tem dois caminhos pela frente: ou continua a insistir em acordos ao centro, com um partido tão pouco confiável como Chega, e transforma o Chega em grande polo de oposição e de alternativa ao centrão; ou assume a liderança do bloco da direita – até porque se a AD não for de direita, liberal-conservadora e reformista, não é nada -, e chama o Chega e a IL para a mesa das negociações, de forma a garantir um acordo (escrito!) para quatro anos. Não tenho dúvidas do que prefiro. Ao fazer um acordo de incidência parlamentar com o Chega, a AD: garante a subalternização do partido de Ventura; corresponsabiliza-o pela governação, mostrando aos eleitores que o Chega não faz milagres; e assegura a manutenção da alternância democrática entre blocos liderados por partidos moderados, apoiados em partidos radicais. Por paradoxal que pareça, a aliança com o Chega é o único caminho que salvaguarda o mínimo de equilíbrio político e institucional.

Para concluir, duas breves notas:

A primeira, é para falar da IL. Será que os militantes já perceberam que Rui Rocha é um desastre? Que não consegue acelerar o partido, muito menos o país? Espero que sim, que tenham percebido. A IL é o único partido português que não tem taras com o Estado, que não vê o Estado como princípio e fim de todas as atividades humanas, que percebe que as desigualdades e a pobreza em Portugal não têm como causa a falta de Estado, mas o seu excesso. É um partido demasiado importante e necessário para o progresso material do país para estar nas mãos de um indivíduo sem qualidades políticas visíveis. Que se revolvam a breve trecho.

A segunda, é especialmente endereçada a todos(as) os(as) camaradas que, na noite de 18 de maio, se começaram logo a entrincheirar no antifascismo e na vergonha que têm do país. Como é que é possível dizerem que têm vergonha do país que, há não muito tempo, votava massivamente nos partidos que perfilham as vossas ideias? Não foi o país que se tornou fascista e alienado do dia para a noite. Foram os partidos da esquerda, e vós mesmos a quem me dirijo, que atraiçoaram essas pessoas. Atraiçoaram-nas quando as vossas políticas produziram a ruína dos serviços públicos e da habitação – já para não falar das greves e de outras perturbações nos serviços públicos, oriundas da militância esquerdista… -, e atraiçoaram-nas, também, quando deixaram de conseguir definir o que é uma mulher.