Num mundo ideal, em que na AR estaria sentada uma sólida maioria reformista, capaz de sustentar e dar segurança a um governo da mesma orientação, o Presidente da República não seria mais do que um segundo sustentáculo do executivo, apagado, aquiescente e servil perante um PM carismático e ativo. No mundo real, no entanto, a AR tem uma maioria inoperante, e o governo é de uma lentidão inexcedível na adoção de reformas – embora, e em abono da verdade, pareça ter começado a despertar nesta última semana. Perante este cenário, o PR deve ter outras tarefas, sendo a principal a de empurrar e exercer pressão sobre o governo para a adoção de reformas, servindo como garante das mesmas no momento da sua promulgação. Ora, nenhum dos candidatos que passaram à segunda volta tem este perfil.
Ao contrário de uma parte substancial do país, não acho André Ventura o diabo. Penso, até, que a sua entrada na política teve alguns efeitos benéficos, o principal deles a queda de certos tabus da política nacional, como falar da condição da comunidade cigana e dos imigrantes. Apesar disto, é inegável que André Ventura não tem quaisquer laivos de reformismo no seu programa. Ele jura que sim, e até diz coisas que dão a entender que sim. Mas basta ver a sua mudança de discurso em relação à lei laboral, a sua inexplicável defesa da TAP pública, e as consecutivas votações parlamentares em que o Chega tanto aprova o aumento da despesa como a queda da receita, para chegarmos à conclusão de que a orientação de André Ventura é deixar-se ir com a putativa vontade do povo e não guiá-la – coisa, de resto, muito típica dos políticos portugueses desde os tempos de Guterres.
Por falar em políticos do tempo de Guterres, o outro candidato nestas eleições é António José Seguro. Ao contrário de André Ventura, cujo estilo não aprecio particularmente, Seguro é um político institucional, sério e correto. A sua imagem corresponde àquilo que a maioria entende como sendo um Presidente da República. Mas não eu. Para mim, Seguro tem dois problemas que o desqualificam para o cargo tal como eu o entendo, e tal como ele se deve configurar no momento presente. Em primeiro lugar, não quer reformas. Bem pelo contrário. Basta ver, por exemplo, as suas declarações sobre a lei laboral: não só a manda para trás tal como está, como só aprova o diploma se for aprovado em sede de concertação social. Tendo em conta que um dos elementos dessa concertação é a CGTP, e que as opiniões da CGTP são exatamente o contrário do que o país precisa, só posso concluir que Seguro quer manter tudo tal como está, com as mudanças a serem meramente cosméticas. Assim não vamos lá.
O segundo problema de Seguro é o PS. Muitas pessoas dizem que André Ventura é uma ameaça à democracia – consideração que me faz sempre rir, porque um governo Chega seria obstruído de todos os lados, dos partidos aos média, passando pelo TC e pela rua, e não teria quaisquer meios de ação, legais ou ilegais. No entanto, e até hoje, só o PS foi, de facto, uma ameaça às instituições, com as suas tentativas constantes de colonização da AP, de condicionamento do jornalismo e da justiça (Casa Pia, recordam-se?), e toda a novela dos mandos e desmandos de José Sócrates, cujo espírito sobrevive no Costismo e na ala esquerda do PS. É certo que Seguro representa, em princípio, uma rejeição de tudo isto. Mas também é certo que Seguro não é um homem corajoso. Quando as coisas apertam, cede facilmente a pressões. O que nos garante, portanto, e perante estes dados, que Seguro não será manipulado e pressionado pelo seu partido de origem a agir como seu agente a partir de Belém? O que nos garante que, nos momentos de crise, o PS não forçará Seguro a agir em benefício do partido? A resposta é nada. Não há nenhuma garantia. E tendo em conta que a última coisa de que o país precisa é de um novo governo do PS, principalmente deste PS, isto preocupa-me.
A conclusão, face a tudo o que escrevi, é só uma: anular o meu voto nesta segunda volta.
P.S. Numa nota final, um voto de pesar pela atitude do centro-direita. Nos últimos anos, parecia que este espaço estava a ganhar uma vida autónoma, distinta do PS, a quem durante muito tempo se tentou colar e substituir, e do Chega, que sempre repudiou. Mas desde o fim da primeira volta, o que temos visto? A adesão das figuras do centro-direita à estratégia de pânico moral de Seguro e do PS: a democracia está em risco, votem em mim, votem em mim, só eu garanto a democracia! A coisa chegou a tal ponto que se repescou a velha designação do centro-direita: os “não-socialistas”, uma espécie de atestado de domesticação eterna de um espaço que, no fim de contas, não existe positiva e autonomamente, mas apenas como recorte negativo daquilo que é, ainda, o grande centro do regime: o Partido Socialista e a sua insaciável vontade de poder.