Vacuidades sobre democracia, vacuidades sobre liberdade e vacuidades sobre o futuro – assim se pode resumir a cerimónia do 25 de novembro. Não fosse o episódio da retirada dos cravos, que teve como sequela requentada a saída de um punhado de deputados do PS, e ter-me-ia finado de pasmo! Mas ainda bem que me conservo, para poder apontar o seguinte: repararam no desconforto da esquerda?

“Naturalmente que estava desconfortável”, respondem os do costume, “esta cerimónia foi feita para apoucar abril!”. A tese é boa, mas tem um problema espinhoso: é mentirosa. A esquerda não estava incomodada por causa de “Abril”, do mítico “Abril”, da liberdade e da madrugada não sei quê, não se que mais, da Sophia de Mello Breyner. Não senhor. A esquerda estava incomodada porque celebrar novembro é celebrar o fim da sua hegemonia. É celebrar o momento em que a Revolução esquerdista acabou. É nisto, de resto, que consiste a divisão acerca de novembro: separa o trigo do joio, os que querem o pluralismo e a liberdade negativa dos que querem o monolitismo e a “liberdade” positiva.

Mas esta divisão é, também, a divisão sobre abril. Criou-se o mito de que abril é uma unanimidade, que todos quantos descem a Avenida da Liberdade estão a celebrar a mesma coisa. Este mito tem conveniências: a direita pode celebrar o fim do Estado Novo, fazendo vista grossa ao Processo Revolucionário que quase a exterminou; a esquerda pode gritar: “O povo, unido, jamais será vencido”, sem ter de explicar que a dita união popular envolvia mandatos em branco e balas de G3 contra quem não se quisesse integrar. Mas é, ainda assim, um mito. E é preciso desfazê-lo, hoje e sempre. É preciso dizer, com todas as letras, que a esquerda celebra o 25 de abril porque esta data representa o tempo em que teve maior domínio sobre o país, em que fez (quase tudo) o que quis: mandou prender quem quis, invadiu o que quis, controlou o que quis, e silenciou quase todos os que viram e não gostaram. (Se de facto foi assim ou não, é o de menos, o que interessa é que a imagem que ficou do tempo é essa, e é essa imagem que se glorifica). Em direta oposição ao 25 de abril, o 25 de novembro é o símbolo, para a esquerda, do seu fracasso, do fim da Revolução, do fim do “sonho”. Não admira que o odeiem: ninguém gosta de ser lembrado das suas derrotas.

Face a este quadro, o que a direita tem de fazer é simples: continuar a celebrar as duas datas, abril pelo fim do Estado Novo, novembro pelo fim do domínio da extrema-esquerda, expondo sempre os seus adversários políticos com a pergunta que não quer calar: se é o pluralismo que querem, porque não celebram a data que o assegurou?