Viajar foi sempre um sonho, que começou com os livros de “Uma aventura”, perdia-me no deserto do Sahara, nas praias de Cabo verde ou nas páginas sobre a China, sabia que um dia iria ver com os meus próprios olhos sedentos de saber. Um dia, vi uma imagem do Angkor Wat no Cambodja na revista da National Geographic e sabia que iria olhar para tudo aquilo e tocar na raízes que sucumbiam aqueles templos. Quando comecei a trabalhar todo o dinheiro que conseguia juntar era para uma passagem num voo low cost ou para uma pousada de juventude em algum ponto da Europa. Tornou-se um prazer e uma obsessão.
Sentia-me mais viva e inteira fora de Portugal do que em Portugal. Sentia-me mais livre lá fora do que no meu próprio país. Sentia-me menos tímida no Japão do que em Lisboa. Por um lado, sentia-me livre fora, mas por outro lado valorizava o meu país e já o via com outros olhos. Sentia-me estranha e não entendia o porquê…
Depois de uma passagem por Bruxelas com a minha família, achei tudo ainda mais estranho…cuidava de uma criança pequena de dois anos e de outra de meses, que me obrigavam a aprender uma língua a correr e aos tropeções para conseguir comunicar com creches e médicos. Ao mesmo tempo que era assustador era entusiasmante. Levava às costas, dezenas e centenas de exemplos de portugueses, que se viram a braços com uma história de emigração e que aprenderam a falar inglês, francês e alemão e integraram-se nas sociedades. Eram a minha meta e o meu orgulho. Lembro-me de um dia sair de casa e falar espanhol, francês e inglês, e resolver questões administrativas na câmara, na escola e afins e trilhar um caminho burocrático num país ainda novo. Foi um dos dias que me lembro com mais carinho, o meu cérebro borbulhava de inputs, apesar da exaustão de noites sem dormir com um bebé de biberão e outro que não estava a ter uma adaptação deveras fácil. Era uma confusão mental, mas ao mesmo tempo estes desafios eram estimulantes.
Até que só aos 42 anos um diagnóstico de défice de atenção e hiperatividade, explicou um bocadinho desta história. O meu cérebro necessita de inputs, de estar sempre em desafio, a ser alimentado, o que por um lado é muito entusiasmante e ter conhecimento do mundo que me rodeia, mas por outro lado é extremamente esgotante, porque quando me sinto em ambientes estagnados com rotina, sinto-me a morrer um pouco por dentro. O meu cérebro está sempre em ebulição, não pára noite e dia. Se leio um livro que me interessa, tenho de procurar tudo sobre esse tema, fico dias a pensar naquilo…Até ao próximo livro, à próxima aventura… Se termino um projeto de trabalho, penso logo nos mil seguintes que quero fazer a seguir. Ás vezes, gostava de pedir ao meu cérebro para parar um pouco, que me deixe descansar por uns momentos, que me deixe só ouvir o som do mar ou o riso das minhas filhas. Consigo isso muitas vezes no meio da natureza, nos passeios pela floresta ou junto ao mar no final do dia. Sinto que a natureza me acalma, o regressar às raízes e que isso também é bom. Apenas tenho de saber conciliar. Tudo no momento certo…com o peso certo…
Viajar não é de todo uma solução viável a curto prazo, por todas as questões económicas e financeiras e todos os desafios que todos temos de casas para pagar, comida, escolas e afins, mas tento e obrigo-me a procurar outras fontes de contenção, sou uma devoradora de livros desde sempre e sou professora de português para estrangeiros, o que me permite viajar todos os dias um bocadinho. Eu passo-lhes o meu conhecimento do país e eles dos seus hábitos, tradições e acima de tudo diferenças.
Se dependesse de mim, levaria todos os meus alunos que tive no ensino secundário a viajar todos os anos, não há lição maior do que ver com os próprios olhos, não há lição maior do que perceber que os nossos preconceitos sobre o corpo, por um exemplo, se calhar em outro país são mais valias. No Cambodja, acharam-me digna de ser uma princesa porque tinha dentinhos de rato ou as minhas queridas alunas em Angola, com quem aprendi tanto, adoravam o meu cabelo completamente liso e absolutamente sem graça, quando eu sonhava há anos ter o cabelo delas. Que sorte que temos de uma democracia e de segurança, não precisamos de esperar pela próxima bomba ou que os nosso filhos sejam raptados ou levados para uma guerra injusta, quando vejo tantos alunos com problemas de liberdade de expressão ou mulheres com situações absolutamente inacreditáveis por esse mundo fora.
O Phda tirou-me tanto nesta vida sem saber e ao mesmo tempo deu-me tanto. Ainda estou no caminho da descoberta deste diagnóstico e acima de tudo deste mundo da neurodiversidade. Se calhar todo este discurso pode ser ainda um pouco inocente e pensarei de outra forma no futuro. Mas tenho plena consciência que me obrigou a ver o mundo com outros olhos, que me possibilitou ter uma perspetiva dos outros, de nós portugueses e de todas as nacionalidades que tive o prazer de contactar. Que me obriga a par da minha hipersensibilidade, que me deixa esgotada, por sentir tudo, todos os dias a querer lutar pela neurodiversidade, pela posição da mulher na sociedade e acima de tudo pelo orgulho de ser portuguesa e por este país, que por vezes, nem nós próprios sabemos o quanto é especial e que devemos e merecemos uma situação condigna para ficar e aproveitá-lo.
PHDA ainda não sei se te amo ou odeio por obrigares-me a andar sempre a correr, mas obrigares-me a ver este mundo a pé e na mente foi uma das tuas maiores dádivas.