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Primeira viagem do ano pelos Cinco Continentes na Rádio Observador. Um ano que começa com grandes desafios e ameaças. Eu sou João Costa e Silva e claro, está comigo o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo, bom ano, antes de mais. E como eu já disse, um ano que começa intenso e com muito para analisar aqui já em perspetiva.

Sim, bom ano para ti, João. Bom ano para todos os ouvintes. O ano promete ser interessante, não sei se isso será necessariamente uma coisa boa, mas realmente logo nos primeiros dias tem aqui muita coisa para quem se interessa por política internacional, realmente para discutir, para analisar.

Exatamente, estamos aqui a falar e é, aliás, inevitável voltar a fazer da Venezuela o país em destaque, já o foi aqui nos Cinco Continentes. Vamos falar essencialmente desse país neste programa, Bruno, depois do ataque dos Estados Unidos ao país. Mas tu para já e para começar, queres recordar aqui algumas datas e dados importantes sobre a Venezuela?

Sim, muito brevemente. Por um lado, esta questão que é um país de quase um milhão de quilómetros quadrados, 10 vezes mais ou menos o tamanho de Portugal, de 28 milhões de pessoas, seriam mais se não tivéssemos a maior crise migratória em tempo de paz, provavelmente da história, como resultado deste regime populista do chavismo e depois primeiro com o Chávez, depois com o Maduro, basicamente nos últimos 25 anos. Mas, portanto, temos esses milhões de refugiados muitos deles nos países vizinhos, na Colômbia em particular, mas também em países como o Chile, outros nos Estados Unidos, enfim, em Portugal temos muitos luso-venezuelanos. Durante muitas décadas, realmente a Venezuela era um destino muito popular entre os portugueses, em particular da Região Autónoma da Madeira. Isso correspondeu a um período de muitas décadas de grande crescimento na história da Venezuela. A Venezuela a partir do final da Primeira Guerra Mundial, a partir de 1923, começa a prospecção de petróleo e depois nos anos 30, a sua exploração numa escala mais significativa, sempre com grande envolvimento americano, isso é também uma data muito importante, que significa que a Venezuela vai se tornar no país mais rico da América do Sul. Em termos per capita está mais ou menos ao nível do Uruguai, mas é realmente a economia mais rica da América do Sul, beneficiando do facto realmente da Venezuela ter as maiores reservas de petróleo do mundo. Nós muitas vezes achamos que é a Arábia Saudita, realmente não é. A Arábia Saudita tem volta 17%, a Venezuela volta 19%, a diferença não é assim tão grande, mas é alguma coisa. É verdade que o petróleo saudita é mais fácil de refinar, mais fácil de extrair, de explorar, portanto, há aí uma certa vantagem. Mas aquilo que é impressionante é que apesar deste volume de reservas, a Venezuela exporta volta de 1%, é responsável por 1% das exportações de petróleo do mundo, portanto, o total do mercado de petróleo mundial produz 10 vezes menos do que aquilo que exporta a Arábia Saudita, e portanto, há aí realmente também uma enorme oportunidade econômica. Aquilo que me parece mais marcante também, em termos da história da Venezuela, de datas marcantes, de dados marcantes, é a Venezuela é também um país pioneiro no processo de independência da América espanhola, de língua espanhola, logo a partir de 1810, com o Francisco Miranda e depois com o Simón Bolívar, mas é particularmente marcado por um grande problema nesses países latino-americanos, que é um processo de guerras de independência, ou seja, uma independência logo muito marcada por várias décadas de guerras, guerras que são guerras contra tropas espanholas que vêm da península, mas também contra outros latino-americanos que são favoráveis a manter-se a união com Espanha, portanto, são também, no fundo, guerras civis. E depois da independência, essas guerras civis muitas vezes regressam associadas a golpes de Estado, a um grande protagonismo dos militares e também de caudilhos, ou seja, de figuras que se assumem como líderes políticos, mas também militares. E de facto, aí temos desde o início, desde este período da independência, o próprio Simón Bolívar, que é conhecido como o Libertador das Américas, enfim, ele depois desenvolve toda uma campanha que vai até à atual Bolívia, que na altura se chamava Alto Peru e depois passa a chamar Bolívia em honra precisamente ao Bolívar. Mas ao contrário, por exemplo, de George Washington nos Estados Unidos, quer concentrar o poder em si e, portanto, quer ser presidente vitalício. Isso também suscita oposições, mas no fundo o próprio Bolívar é muito o exemplo, o paradigma deste peso, destas figuras populistas, ditas libertadoras da pátria, mas que na verdade muitas vezes se transformam, de facto, em líderes autoritários que criam enormes problemas, enormes tensões, enormes abusos de poder, à sua sombra corrupção, etc. Dito isto, é verdade que há um período longo, de 1958 a 1998, 1999, em que a Venezuela realmente tem várias décadas de uma democracia que parece consolidada, uma democracia pluralista Que parece consolidada. Isso termina com, primeiro, uma tentativa de golpe do Hugo Chávez e depois com a sua eventual anistia e eleição. Hugo Chávez é realmente eleito e é realmente uma figura populista e popular, mas a verdade é que vai fazer aquilo que fazem os populistas, que é utilizar os recursos disponíveis para avançar com políticas muito populares, mas que não são sustentáveis a prazo. Aquilo que a Venezuela também mostra é que o populismo tem custos muito elevados, mesmo num país tão rico como a Venezuela, mesmo num petroestado como a Venezuela, o populismo acaba por ser ganhos de curto prazo que depois têm custos terríveis no médio e no longo prazo. Acho que a Venezuela ilustra bastante bem isso e todo este período do chavismo que começa com o início do século XXI e que depois é marcado em 2013 pela morte do próprio Chávez, que continua a ser uma figura relativamente popular, embora cada vez menos, e depois com Maduro, que passa a apostar puramente na repressão, na fraude, na manipulação eleitoral e ilegal, etc, para se manter no poder até ter sido agora capturado pelos Estados Unidos.

Entretanto, Bruno, Trump já tinha vindo a dar sinais de que este ataque podia ser possível, ainda que muitos foram surpreendidos, sobretudo pela captura de Maduro. Foi uma operação militar bem planeada, afinal Trump sabe planear bem as coisas, vamos pôr assim neste prisma.

Acho que foi uma operação bem planeada, que também tirou partido, obviamente, da enorme assimetria de meios, da enorme assimetria de poder militar da Venezuela relativamente aos Estados Unidos, obviamente muito favorável aos Estados Unidos, que também tirou partido do facto de toda esta crise da economia venezuelana também acabar por afetar o próprio Estado, a possibilidade de comprar armamento, tecnologia avançada, de fazer treino. A principal missão das Forças Armadas é basicamente reprimir a população, isso não dá grande treino para lidar com forças especiais altamente treinadas, altamente equipadas de uma grande potência como os Estados Unidos. Foi muito bem executada em termos táticos, em termos estritamente militares, muito bem planeado, com muito boas informações também para este tipo de operações especiais, para este tipo de raids, ataques surpresa poderem ter sucesso, é fundamental ter boas informações e as indicações que temos da imprensa de referência é que havia espiões no círculo próximo de Maduro que estavam a dar informações à CIA. Além disso, havia outros meios, inclusive coisas como pequenos drones, etc, que seguiam permanentemente as locações de Maduro. É evidente que a operação foi bem planeada. Obviamente, não é planeada por Donald Trump, é planeada pelos militares, ou seja, nem sequer é planeada pelos responsáveis políticos da defesa. No fundo, isto é o que fazem Forças Armadas profissionais, é ter planos de contingência, ter permanentemente planos para este tipo de ações, que depois são ativados, são treinados mais intensamente quando há a possibilidade real de virem a ser utilizados. Isso é a chave para uma operação militar bem-sucedida, como dizem os militares britânicos, "train hard, fight easy". Prepara-se muito bem as coisas, treina-se muito bem as coisas para depois a ação em si ser relativamente fácil. Também é importante dizer que foi uma ação militar com o número de vítimas relativamente limitado, à volta de 40 pessoas, segundo a imprensa de referência. Não sabemos exatamente quantos civis e quantos militares, mas à partida é realmente um número de vítimas relativamente limitado. A grande questão é que uma coisa é planear operações militares, outra coisa é a dimensão política, o objetivo político dessas operações. Aí é que eu acho que temos razões para ser bastante mais céticos e ter mais preocupações sobre até que ponto é que há realmente um plano também na dimensão política estratégica, se quisermos.

Bruno, importa também aqui perceber como é que esta operação se compara com a longa história de intervenções militares dos Estados Unidos na região. Nós já falámos muitas vezes disso aqui no "Cinco Continentes", mas agora toma aqui se calhar uma maior urgência, não é?

Sim, é rever um bocadinho aspectos que já falámos, mas recordar este ponto que é: é verdade que os Estados Unidos fizeram muitas intervenções militares, inclusive para mudar regimes, provavelmente mais de 30. É verdade que fizeram muitas nesta região, provavelmente mais de 20, depende como é que se conta, entre 20 e 40, mas esse intervencionismo variou muito ao longo do tempo e também no espaço. Ou seja, temos períodos muito longos em que realmente não se verifica essa tendência e também o tipo de intervenção varia bastante e também o tipo de intervenção é relevante. Recordando muito brevemente, tivemos de facto a famosa doutrina Monroe, que o próprio Trump agora refere muitas vezes, logo em 1823, mas isso era essencialmente uma doutrina diplomática e defensiva, não era uma doutrina militar e ofensiva, era dizer aos europeus: "Não intervenham nos assuntos americanos". Depois, é verdade que, começando pelo México, realmente ela começa a ser lida muitas vezes associada ao chamado destino manifesto, destino providencial dos Estados Unidos, de serem uma potência continental e de serem dominantes no seu hemisfério, começa a ser usada para legitimar ações mais ofensivas. No caso do México, realmente temos a guerra causada pela crise do Texas em 1846, que vai levar o México a perder basicamente metade do seu território e aquela enorme expansão dos Estados Unidos até à costa do Pacífico, até à Califórnia. Mas logo assim, por exemplo, temos um período longo em que realmente até o final do século XIX, em que não há propriamente intervenções do Estado americano de grande dimensão. Temos os chamados flibusteiros, personagens como William Walker, que é no fundo um aventureiro que por várias vezes nos anos 1850 até 1860, quando acaba por ser fuzilado, tenta intervir, no fundo, autodenominar-se presidente de vários Estados na América Central, em particular na Nicarágua. Mas isso tem um envolvimento interno do Estado americano, há muitos americanos que se opõem a isso. Há, de facto, uma diplomacia chamada canhoneira, portanto intervenções navais mais limitadas, basicamente até ao final do século XIX, mas realmente é preciso esperar por 1898 para haver uma intervenção em grande escala, a chamada Guerra Espanhol-Americana contra a Espanha, que ainda domina Cuba e Porto Rico, e que é, de facto, a última guerra declarada dos Estados Unidos contra um país num contexto latino-americano. Depois temos, a seguir a isso, realmente o período que é aquele que é mais referido, que são 1898 a mais ou menos 1932, 1933, a eleição do presidente Roosevelt, em que há realmente as chamadas Guerras das Bananas, portanto há intervenções militares muito prolongadas, mas sempre na América Central, nos pequenos países da América Central ou do Caribe. Países como Haiti, a República Dominicana ou o Panamá, que adquire independência exatamente com o apoio também norte-americano face à Colômbia. E depois, a seguir a isso, a seguir a 1933, temos um período, sobretudo, de intervenções indiretas ou no contexto do avançar pra a Segunda Guerra Mundial contra setores que são vistos como prónazis pelos Estados Unidos de Roosevelt, ou depois no contexto da Guerra Fria, e a última intervenção nesse contexto da Guerra Fria contra Granada pelo Reagan em 1983. Mas, mais uma vez, as intervenções militares diretas são por regra sempre limitadas à América Central e ao Caribe, portanto a Estados pequenos como o Panamá, que é a última grande intervenção até esta, que é em 1989. Portanto, temos tido bastantes décadas em que realmente não há intervenções militares diretas dos Estados Unidos na região da América Latina. Aqui realmente aquilo que é excepcional é, por um lado, esta dimensão de uma operação de decapitação, de captura de um presidente, portanto uma ação militar ainda que limitada, mas que afasta o líder, de facto, pelo menos daquele Estado, embora os Estados Unidos aleguem que realmente não reconheciam Maduro como o presidente legítimo, e muitos outros Estados também não faziam isso por razões compreensíveis, e fazem isso num grande Estado da América do Sul. E portanto, isso em si mesmo é significativo e tem implicações também geoestratégicas para a região e até a nível global.

E Bruno, no pouco tempo que nos resta desta nossa primeira parte, cerca de três minutos, mais coisa menos coisa, vamos perceber também politicamente qual é que é o plano, porque falou-se de Maria Corina Machado, mas essa opção parece estar afastada, pelo menos para já. Isto significa que os Estados Unidos vão governar o país até poderem fazer a desejada transição?

Bem, essa dimensão realmente não é de todo clara. E temos este problema ainda por cima, que é muitas vezes difícil confiar exatamente no que é que diz Donald Trump. Agora o que é bastante evidente é: Donald Trump não quer saber nada de democracia, não quer saber nada de eleições. O que lhe interessa é o poder, a riqueza e quem é que controla esse poder e quem é que controla essa riqueza. Portanto, desse ponto de vista, realmente é uma rutura com muitas décadas, com mais de um século de política externa norte-americana. E portanto, aquilo que ficou bastante evidente, sobretudo nas declarações do Donald Trump, é que ele parece querer, de alguma forma, controlar indiretamente o país, mas negociando diretamente com quem tem o poder neste momento, ou seja, com aquilo que resta do regime chavista. E não parece particularmente preocupado com a questão da legitimidade, da legitimidade democrática, com a questão de dialogar, de estabelecer aqui um plano coordenado com a oposição venezuelana, que ganhou as eleições do verão do ano passado. Isso realmente pra Donald Trump parecem ser questões absolutamente secundárias. O que é realmente crucial pra ele é quem é que controla as Forças Armadas, quem é que controla os poços de petróleo. E realmente aí a vice-presidente, que agora se terá tornado presidente, Delcy Rodríguez, não só era vice-presidente como também era até a ministra do Petróleo, portanto desse ponto de vista é alguém claramente muito interessante pra Donald Trump.

Exato, e para ter, se calhar, esse controle. Vamos falar sobre Delcy Rodríguez na segunda parte. Continuamos a analisar o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e todas as implicações que resultam desta operação. É já a seguir, depois de uma curta pausa. De regresso para a segunda parte do "Cinco Continentes", em que continuamos a falar do futuro da Venezuela depois do ataque dos Estados Unidos ao país. E Bruno, acabamos a nossa primeira parte a falar de Delcy Rodríguez. Importa aqui perceber quem é realmente esta mulher, esta nova presidente, e se poderá ser ou não um instrumento de Donald Trump.

Realmente seria estranho que fosse assim. Ela é alguém da linha mais ideológica do regime, é irmã de Jorge Rodríguez também, que é o presidente do Parlamento, é filha de um histórico marxista, de um líder marxista venezuelano, que acaba por ser morto pela polícia em 1976. Estava envolvida inclusive na luta armada, no terrorismo, no rapto de um empresário norte-americano durante vários anos. Ela sempre foi muito clara que se revia, portanto, tinha enorme orgulho nesse passado, nesse histórico familiar, que considerava que a luta continuava, que ela estava a continuar a luta do pai. Portanto, não seria a candidata mais evidente pra colaborar com Donald Trump. Agora, também é verdade que o Stalin assinou um tratado com Hitler para surpresa de todos, o famoso ou notório Pacto Molotov-Ribbentrop no verão de 1939. Ou seja, o marxismo-leninismo também permite muitas vezes muito pragmatismo ao serviço da causa. O que me parece evidente é que não nos podemos fiar nem nas declarações de Donald Trump, que tem um longo histórico de fazer declarações que têm pouco a ver com a realidade, nem propriamente também nas declarações do regime chavista, que também tem um longo histórico de assumir todo tipo de compromissos, fazer todo tipo de declarações, multiplicar as eleições que depois são manipuladas, são fraudulentas, portanto não cumprindo os compromissos assumidos. Não nos podemos fiar nem num lado, nem no outro. Acho que aquilo que temos de fazer é ver como é que evolui realmente a realidade. E para já, a realidade é que isto se trata de uma declaração de intenções do Donald Trump e não de um fato. Ou seja, os Estados Unidos objetivamente não estão a ocupar e a governar a Venezuela, objetivamente quem parece continuar a controlar o país são o que resta do regime chavista, menos o seu líder máximo até aqui, ou seja, menos Maduro, mas inclusive os ministros da linha mais dura, os ministros do Interior e da Defesa, responsáveis pela repressão, por manter este regime autoritário, Delcy Rodríguez e Vladimir Padrino López também se mantêm em funções. Vamos ver se isso muda, se alguma coisa aqui muda.

Mas eles podem ser homens, Bruno, desculpa aqui a pergunta, que se calhar podem oferecer mais resistência a Trump. Ou não?

Eventualmente podem, ou podem tentar chegar aqui a algum tipo de acordo pragmático com Donald Trump, se a prioridade para Donald Trump for simplesmente garantir interesses americanos, regresso de refugiados, exploração de petróleo. Tudo isso tem um problema de base, que é todo esse pragmatismo choca com esta questão que é: o regime já mostrou amplamente a sua incompetência, a sua ineficiência, a sua corrupção, o fato de não ser fiável, e portanto parece-me um disparate pensar que um acordo com o regime necessariamente irá dar bons resultados, que de repente as pessoas vão querer regressar à Venezuela só porque Donald Trump diz que afinal já está tudo bem. Ou que este regime poderá organizar verdadeiras eleições livres e justas. Todo o histórico até agora tem sido no sentido oposto. Vamos ver exatamente se no fundo este suposto realismo de Donald Trump não é afinal muito pouco realista. É possível que estas figuras estejam dispostas a chegar a algum tipo de acordo. A questão é em condições, com garantias para ele também, e com que resultados, sobretudo em termos do futuro da Venezuela, do futuro dos venezuelanos, possibilidades de algum desenvolvimento e de alguma liberdade novamente na Venezuela.

Há um vídeo a circular de Delcy Rodríguez com a Constituição na mão e a apontar pra ela mesma e a dizer que ia cumprir a Constituição, resta saber se vamos ter novidades quanto aos próximos episódios no que diz respeito a este tema.

Sim, sendo que eles já alteraram a Constituição, e aliás, Delcy Rodríguez foi crucial nessas alterações também, quando perderam as eleições legislativas, tiraram o poder à Assembleia Legislativa. Essa ideia de ser fiel à Constituição aqui também tem de ser vista com toda a ironia, estes regimes gostam todos muito da lei e da Constituição quando é pra defender a manutenção do regime, quando lhes é conveniente. Depois, na prática, nunca aceitam qualquer tipo de limite à sua ação ou ao seu poder. Tudo isso é bastante hipócrita, criticável, questionável. Eu percebo a pergunta, no fundo, a questão é: ela não dá sinais publicamente de estar a seguir a linha de Donald Trump. Mas lá está, o meu ponto é: nós não nos podemos fiar nessas declarações, nem nas do Donald Trump, nem nas dela. Não sabemos se isso pode ser só para inglês ver, pode ser só uma postura pública e nos bastidores estar a tentar chegar a algum tipo de acordo pragmático com o governo americano, não sabemos.

Claro. Trump, entretanto, insistiu muito no petróleo e convém entender aqui qual é o peso disto e como é que isto se liga também com a nova estratégia nacional norte-americana e o chamado corolário de Trump com a doutrina Monroe. Pergunto também, Bruno, se isto significa que, apesar da violação do direito internacional, que foi amplamente falada e que é óbvia, o mundo está mais seguro para a democracia. Parece-me que a resposta é óbvia, mas tenho que fazer a pergunta.

Sim, houve aqui uma reação inicial, muita gente de saudar a queda de um ditador, de saudar o afastamento de um ditador, de recordar inclusive algo que os norte-americanos também vieram recordar, que é: a partir de agora não é o presidente legítimo da Venezuela. Portanto, esta ideia De que há aqui uma imunidade soberana, portanto, o princípio da soberania dos Estados, de que não se viola a integridade dos Estados, cada Estado é plenamente independente. Isso também se concretiza nesta ideia da imunidade soberana dos chefes de Estado e de governo, portanto, o presidente ou o primeiro-ministro, enfim, quem lidera o governo de um país, à partida não pode ser alvo de um processo judicial, não pode ser preso por qualquer outro país, que isso não se aplicaria. Mas, sobretudo, com a expectativa de que isto seria coordenado, eventualmente, com a oposição venezuelana e que poderia abrir as portas rapidamente à queda do regime chavista e à libertação da Venezuela e ao fim deste período terrível da história da Venezuela. Eu fui chamando a atenção que me parecia que nada disso podia ser dado por garantido, precisamente porque o histórico de declarações da postura de Donald Trump não apontava para uma grande prioridade para a promoção da democracia. E realmente, parece-me que estas ações confirmam isso e mostram algo que também nós fomos aqui falando, que é esta nova estratégia de segurança nacional norte-americana, publicada há umas semanas, esta nova doutrina estratégica americana, realmente é algo que deve ser levado a sério. Não é porque Donald Trump leia estes papéis, estes documentos, não é porque se deixe limitar por papéis, documentos, leis, o que for, mas é porque realmente é um documento que concretiza, formaliza, muito daquilo que Donald Trump claramente pensa e também muito daquilo que Donald Trump e esta administração, neste seu segundo mandato, têm estado a fazer. E, portanto, o que nós vemos aqui é esta ideia de esferas de influência, da prioridade ao hemisfério ocidental, como é dito no documento, ou seja, aquilo que nós chamamos as Américas ou a América Latina, se quisermos, por razões de controle de migrações, controle de drogas e também de controle de recursos estratégicos, matérias-primas críticas, tradicionais como o petróleo ou novas como as terras raras, etc. E esta ideia que está implícita no documento de que a ordem internacional deve assentar-se tudo em relações de poder, numa espécie de concertação entre as grandes potências, que vão definindo esferas de influência em que podem ter rédea solta, podem ter mãos livres, portanto, em que podem defender os seus interesses por qualquer via que seja, inclusive pelo recurso à força armada. E desse ponto de vista, realmente, acho que esta ação corresponde muito bem àquilo que foi enunciado, esta ideia do corolário Trump para a doutrina Monroe, ou seja, o corolário é uma conclusão lógica ou supostamente lógica de algo que já existe. E aqui no caso de Donald Trump, basicamente, o que isto parece significar é que os Estados Unidos reservam-se o direito de agir militarmente naquilo que eles definirem como a sua esfera de influência para defender os seus interesses, inclusive interesses econômicos, inclusive questões como controle de recursos naturais.

Em termos de reações, Bruno, na própria Venezuela, vimos reações contidas de pessoas contra Maduro. Eu vi uma reportagem em direto de Caracas em que vários moradores diziam que viam manifestações mais contidas, por exemplo, em varandas, ou seja, as pessoas não se juntavam em grandes grupos. Vimos, sim, mais exacerbadas de apoiantes que querem a libertação do presidente venezuelano e com várias manifestações de apoio nas ruas. O que importa também destacar aqui e quais são as implicações na região desta detenção de Maduro?

As reações na Venezuela são muito reveladoras do fato das pessoas perceberem que o regime não caiu.

Exato. Há um medo, ainda.

E, portanto, continuam a ter medo, até porque uma possibilidade é que o regime utilize isto como um pretexto para fazer uma repressão violenta sobre a oposição, alegando ou dizendo, como aliás já dizem na retórica, mas acentuando esta ideia de que são aliados de invasores, dos Yankees. Isso aí, acho que é bastante revelador de como, de facto, no terreno, a situação não mudou para melhor, longe disso. Depois, em termos da região latino-americana e da América do Sul, o que é interessante é perceber realmente que são reações muito marcadas pela orientação ideológica. Ou seja, tivemos declarações de apoio, até de entusiasmo, de presidentes alinhados com Donald Trump, como Milei ou como Noboa, por exemplo, no Equador. Tivemos críticas bastante claras, duras do Brasil, por exemplo, do presidente Lula ou do presidente Petro da Colômbia, que aliás, são países muito importantes, são os dois grandes vizinhos da Venezuela. Mas aqui o que é muito claro é que há um receio grande na América Latina, isso também se vê muito na imprensa, por exemplo, na imprensa brasileira, mesmo na imprensa mais à direita, de que isto cria um péssimo precedente. Inclusive esta ideia que eu sublinhei aqui, que é: isto é novo neste sentido que a América do Sul, os grandes países da América do Sul, historicamente não foram alvo de ações militares diretas dos Estados Unidos e que é preciso aqui uma espécie de novo cálculo. A grande questão é perceber para que lado é que as coisas vão pender. Inclusive vamos ter eleições precisamente no Brasil e na Colômbia neste ano, 2026. A aposta vai ser para um alinhamento inclusive mais ideológico com os Estados Unidos, procurar que não haja choques com os Estados Unidos, evitar tensões, evitar riscos de choque com os Estados Unidos, ou a aposta vai ser Jogar a cartada até nacionalista, do orgulho nacional, do orgulho patriótico, procurar contrabalançar também politicamente nestas eleições, portanto, beneficiar mais a esquerda antitrampista latino-americana e em termos externos, procurar outras alianças, reforçar a aposta nos BRICS, na Rússia, na China, eventualmente até com a própria União Europeia. E também em termos militares, ou seja, haver um reforço significativo do investimento em armamento, em defesa, em armamento adaptado, a dissuadir esse tipo de ações por parte dos Estados Unidos. Essa já é uma tendência global de uma corrida pro rearmamento, num mundo muito mais perigoso e muito mais propenso a conflitos. Estas ações americanas só reforçam mais isso, essa percepção de insegurança, em particular, obviamente, na região da América do Sul, ou seja, estamos a falar, no caso da Venezuela, de um país que é literalmente vizinho da Colômbia ou do Brasil, como referi, foram os países que reagiram mais fortemente e foram mais hostis a esta ação americana.

E no resto do mundo, Bruno, também assistimos a muitas reações àquilo que aconteceu.

Sim, eu diria que, no entanto, as reações foram, na maior parte dos casos, relativamente tépidas e até às vezes um pouco equívocas. Isso também reflete a complexidade da situação, mas as exceções são países como Cuba ou o Irã. Cuba, pela proximidade geográfica e ideológica à Venezuela, é o grande apoiante do regime chavista. O próprio Irã também é um apoiante do regime e obviamente também se sente visado por possíveis ações militares norte-americanas, portanto foram as reações mais enérgicas, mas houve também protestos, críticas da China, da Rússia, mas relativamente tépidos. Pequim e Moscovo tentam tirar vantagem destas ações do ponto de vista da má imagem dos Estados Unidos no Sul global, em países que a Rússia e a China têm investido muito em procurar conquistar e aparecem aqui como os campeões do Sul global, mas sem haver propriamente nada de muito concreto contra esta ação ou que pudesse ser vista como criando problemas aos Estados Unidos. No caso da própria Europa, também há que dizer isso, a reação também é um pouco equívoca, neste sentido que a generalidade dos governos e da opinião pública não tem simpatia pelo chavismo e pelo regime Maduro, por uma ditadura terrível. Por outro lado, há realmente uma grande preocupação com o direito internacional, com o mau precedente que isto cria. É interessante ver figuras como a própria Marine Le Pen, por exemplo, a líder da direita patriótica, como dizem os trumpistas, portanto desta direita mais nacionalista, mais identitária em França, por exemplo, a criticar a violação do direito internacional. Do modo geral, os governos e as instituições de Bruxelas o que disseram foi que, por um lado, é de saudar a queda de um ditador. Há uma oportunidade de democratização, portanto, o que é crucial é avançar-se nesse sentido, ao mesmo tempo é fundamental respeitar o direito internacional e passar aqui a ideia de uma espécie de crítica implícita à ação americana. Obviamente, isso tem a ver com uma situação complicada, equilíbrios complicados. Por um lado, evitar criar novos choques e tensões com Donald Trump numa área que não é prioritária para a maior parte dos países europeus, embora seja muito importante para países como Espanha e Portugal, mas não é prioritária para a maior parte dos países europeus. Ao mesmo tempo, isto cria um mau precedente. É mau, por exemplo, do ponto de vista da ação que a União Europeia tem feito em defesa da Ucrânia. Se as grandes potências podem agir militarmente contra pequenas potências mais fracas, obviamente, isto não é minimamente comparável ao que a Rússia fez na Ucrânia, mas apesar de tudo, tem aqui algumas parecenças. E portanto, isso cria problemas realmente para os Estados europeus e para a generalidade dos Estados no mundo, que são pequenas e médias potências, são países como Portugal. Para esses Estados, o direito internacional, o respeito mínimo pelas regras, alguma limitação ao poder das grandes potências, não é simplesmente uma questão de princípio, não é simplesmente uma questão de valores, é também uma questão de interesse próprio, de sobrevivência até uma ordem internacional em que simplesmente impera a lei do mais forte, é um mundo muito mais inseguro, muito mais perigoso para a generalidade dos países que são pequenas e médias potências e para a generalidade dos países europeus que são pequenas e médias potências.

Falaste aqui de Cuba, Bruno, e se calhar é um país que vamos ter de dar destaque em breve a propósito deste protagonismo que está a ser dado, a propósito da situação que está a acontecer na Venezuela, mas também falaste do Irã e há novamente protestos e Trump também ameaçou intervir para proteger esses mesmos protestos. Será que vamos ver em breve uma nova intervenção americana?

Essa realmente é uma questão interessante e mais uma vez, se acreditarmos em Donald Trump, naquilo que ele diz, aparentemente sim. Donald Trump veio dizer nestes últimos dias: "Atenção, que nós vamos defender, inclusive militarmente se for necessário, vamos defender estes manifestantes, estes protestos da oposição no Irã". Isso, à partida, abre a porta a uma nova intervenção militar, embora, há que ser claro, não se percebe muito bem em que termos e de que forma é que isso seria feito. Ou seja, seria uma operação em grande escala contra alvos do regime. Mas Donald Trump claramente, e isso também mais uma vez ficou claro no caso da Venezuela, quer combinar esta ideia de uma grande potência que usa o seu poder com manter a promessa que fez aos seus eleitores E à generalidade dos americanos que estão cansados de conflitos prolongados, de guerras com muitas baixas norte-americanas, que depois dão poucos resultados, como foi o que aconteceu no Iraque e no Afeganistão. Em particular, guerras no Médio Oriente é algo que não é popular entre os norte-americanos, como aliás não era também, segundo as sondagens, uma intervenção militar em grande escala na Venezuela. Só tinha o apoio da volta de 22% dos americanos. Portanto, no caso do Irão, não se percebe muito bem como é que seria possível fazer isso, exatamente como é que se poderia apoiar militarmente a oposição. Portanto, isto parece ser mais um exemplo de Donald Trump com uma retórica que tem pouco a ver com a realidade dos factos. Agora, há que saudar realmente, mais uma vez, a enorme coragem dos iranianos. Há que deixar claro, mais uma vez, que o regime iraniano, esta teocracia autoritária e repressiva, realmente não é claramente popular no seu país, que além de tudo tem feito uma gestão económica, sobretudo em função de manter o apoio a todo este tipo de grupos armados pelo Médio Oriente, como resultado, tem sofrido sanções, portanto tem tido uma gestão económica desastrosa, mais uma vez apesar de ter imenso petróleo. A inflação está mais uma vez descontrolada, mais de 40%. E o que também estes protestos mostram é que neste momento a contestação ao regime, e já vimos isso na vaga de protestos anteriores, mas neste caso é muito evidente, há também uma crise enorme de abastecimento de água. Enfim, fala-se abertamente de Teerão, da capital iraniana deixar de ter água. Isso obviamente também é um problema resultante das alterações climáticas, mas também da péssima gestão do regime iraniano, que tem outras prioridades que não propriamente a qualidade de vida da sua população. Mas portanto, o que vemos aqui é realmente estas manifestações serem manifestações generalizadas por todo o país, todo o tipo de classes, e não apenas aquilo que já tínhamos visto várias vezes no passado, por exemplo, em 2009, protestos muito mais de estudantes, das elites urbanas, mais desejosas de liberdade política. De facto, aqui parece ser um protesto mais amplo. Agora, o regime continua a ter as armas na mão e continua claramente disposto a usá-las e, portanto, não é de todo evidente que seja desta que o regime iraniano vai cair ou que seja desta que Donald Trump vai realmente ajudar a cair o regime iraniano.

Muito para analisar nos próximos tempos. Sempre contigo, Bruno Cardoso Reis, antes de fecharmos e aqui nos instantes finais, vamos ainda à tua recomendação, que sei que está relacionada também com a questão da Venezuela.

Sim, há um historiador venezuelano que eu gosto bastante, o Elías Pino Iturrieta, tem várias obras, tem uma breve história da Venezuela. Enfim, estas obras estão disponíveis genericamente, eu diria, em e-book, uma história mínima da Venezuela. É uma das obras desta ampla bibliografia historiográfica deste historiador venezuelano, do Elías Pino Iturrieta. Mas aquela que me parece eventualmente mais interessante para o tema que fomos falar daqui hoje e para toda esta história mais recente da Venezuela é "Nada sin el Hombre: Las Orígenes del Personalismo en Venezuela". Portanto, nada sem o homem, as origens do personalismo na Venezuela, que no fundo é esta ideia de uma espécie de história da Venezuela a partir deste problema, desta patologia política que é o chefe de personalização da política, a concentração em figuras, numa determinada figura muito populista, muito popular, desde o Simón Bolívar até o Hugo Chávez.

Bruno Cardoso Reis, é sempre um gosto. Um grande abraço. Nós estamos de regresso no próximo sábado.

Uma boa semana.

Para estarmos juntos nas manhãs 360 de fim de semana. Um abraço.

Uma boa semana e bom ano.