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Donald Trump volta a mudar de posição e agora vê Vladimir Putin como um aliado. Zelenskyy sente-se traído e a Europa volta a lidar com a mudança de humores do presidente norte-americano. Na Arábia Saudita, escalou a tensão e há imagens violentas de ataques a aeroportos. No Brasil, aquece a campanha a uma semana da segunda volta presidencial e em território africano, Ceuta teve nos últimos dias uma visita marcante do rei de Espanha. São temas em destaque nos diferentes pontos do globo e também na edição desta semana do Cinco Continentes, o programa de análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Eu sou Miguel Cordeiro, comigo já está o Bruno. Bem-vindo a mais um episódio.

Olá, obrigado.

Vamos começar pela América. Na verdade, é um tema que afeta muito a Europa e se formos a ver bem, pode afetar várias economias pelo globo. O acordo entre os Estados Unidos da América e a Rússia, isso estalou no fim de semana passado, Donald Trump a anunciar um cessar-fogo energético, a impor esse cessar-fogo à Ucrânia, Zelenskyy a sentir-se um pouco desiludido, nós já lá vamos. Vamos a este acordo que existe sobre combustível. Será que isto tem alguma coisa a ver com Trump enfrentar descontentamento a poucas semanas dessas eleições intercalares?

Sim, eu acho que é realmente a explicação. Não é a única explicação, ou seja, é verdade que a Rússia é um exportador de combustíveis importante, mas o impacto que teve no mercado dos combustíveis foi, sobretudo, no período inicial da guerra e, portanto, o mercado já se tinha ajustado e ajustou-se até com relativa facilidade. Em particular porque, e é isso que ajuda a explicar porque é que realmente a principal explicação e o principal problema é a guerra entre o Irão e os Estados Unidos e o impacto disso em toda aquela região do Golfo Pérsico, do Golfo Arábico, é que realmente essa região não só de longe é a que mais exporta combustível pro resto do mundo, são entre 20 e 25% do mercado global de combustíveis. Tem uma capacidade de refinação também extraordinária, portanto, de transformar em múltiplos produtos e basicamente não há nenhuma região do mundo que produza tanto, que refine tanto e com tanta variedade de produtos petrolíferos. E sobretudo, ainda tem um terceiro aspecto que é a Arábia Saudita, basicamente cava-se um poço e sai petróleo. É um petróleo extremamente fácil de extrair, muito barato de extrair e fácil também de refinar. E a Arábia Saudita tem uma enorme capacidade de produção e de refinação sobrante. Também tem imenso capital, imenso dinheiro, e portanto, pode se dar ao luxo realmente ter ali uma enorme margem para aumentar ou reduzir a produção e a refinação. Basicamente, no fundo, é a válvula de escape, é o mecanismo de segurança do mercado petrolífero a nível global. Se a Rússia deixa de conseguir exportar ou passa a ter sanções ou tem as refinarias bombardeadas, a Arábia Saudita, com muita facilidade, podia aumentar a produção, aumentar a refinação, compensar essa demanda. Isso não existe em nenhuma outra parte do mundo. Não há nenhum produtor mais que tenha essas características. E portanto, realmente, este acordo em termos do mercado dos combustíveis, e estamos a ver isso, basicamente é irrelevante. É duvidoso, aliás, que a Rússia consiga exportar aquilo que promete, também porque tem tido muitos ataques às suas refinarias e pontos de exportação, portanto, as zonas nos portos pra exportar o combustível, etc. Mas mesmo que realmente conseguisse fazer isso, é um impacto mínimo no mercado. E portanto, o que é que ajuda aqui a explicar este acordo? É realmente Trump querer mudar a conversa, portanto, desviar atenções da responsabilidade que ele tem de ter iniciado o conflito no Irão sem ter uma ideia clara sobre como sair desse conflito, ignorando o impacto previsível que isto ia ter em algo que já era um problema, que é esta tendência pra inflação, pro aumento dos preços. Não só há inflação nos combustíveis, mas depois os combustíveis ajudam a aumentar a inflação em tudo o resto, porque basicamente tudo que é transportes, obviamente, de mercadorias, etc, depende disso. E realmente os americanos, em termos de sondagens, obviamente, as sondagens são só intenções, mas de forma muito consistente, todas as sondagens, ainda ontem ou anteontem surgiu uma na Fox News, que é um canal considerado até mais à direita, todas elas mostram Trump com níveis históricos de impopularidade, mostram qualquer coisa como a hipótese de 90% dos democratas vencerem na Câmara Baixa, na Câmara dos Representantes.

Sim, vão sair uns resultados muito fortes.

Talvez com uma maioria de 30 ou mais, o que nas últimas décadas é uma coisa extraordinária, porque a política está muito polarizada, muito dividida e geralmente as vitórias são por margens curtas. E mesmo no caso do Senado, que é também a Câmara Alta, que tem mais poderes, por exemplo, na parte da política externa. No caso do Senado, só um terço, só 33 senadores é que vão a votos. Desses, à volta de dois terços eram em estados bastante conservadores, estados em que Trump ganhou às vezes com margens de 20 pontos ou mais. Ainda assim, não é impossível que os democratas vençam. Ou seja, há várias dessas campanhas em que em estados como o Texas, como o Alasca, o Kansas, que não elege um democrata há quase 100 anos, realmente as sondagens mostram sistematicamente um empate e, portanto, uma real possibilidade, não uma garantia, mas uma real possibilidade dos democratas vencerem.

E isso ajuda a explicar estes pontos de fuga de Donald Trump, esta tentativa de resolver Problemas no imediato, ou seja, baixar o preço do combustível poderia ser benéfico para os Estados Unidos da América, mas este acordo, ao que tudo indica, pode não ter esse impacto direto, até porque as midterms são daqui a duas semanas.

Sim, também não há muito tempo pra ter impacto, esse é um ponto relevante. A mim parece-me que é sobretudo uma questão de gestão de retórica, de gestão de percepções, portanto lá está, desviar atenções, dar um argumentário para se poder dizer: "Não, a culpa não é do Irão, é da Ucrânia". Claro, isto também confirma outro aspecto importante, que é a predisposição de Donald Trump para ignorar completamente aliados, compromissos, compromissos de segurança. Por exemplo, é verdade que a Ucrânia não é um aliado da NATO, não é um país membro da NATO, mas os Estados Unidos pressionaram a Ucrânia a entregar as suas armas nucleares em 1994, em troca de uma garantia de segurança dos Estados Unidos. E portanto, ela já praticamente está reduzida a nada. Trump já praticamente deixou de dar equipamento militar, por exemplo, armamento. O que vai chegando é comprado pelos ucranianos ou pelos europeus. Mas enfim, a questão é que os Estados Unidos, realmente, graças ao seu enorme poder ou enorme investimento que também fazem na defesa, na indústria de defesa, têm a capacidade, por exemplo, de mesmo já dando muito pouco, aquilo que dão continua a ser muito importante. E portanto, mais uma vez, fica claro que Donald Trump não tem nenhum problema em pôr de lado qualquer tipo de compromisso, ignorar completamente as preocupações dos aliados europeus, que se preocupam muito com esta questão da agressão russa, não só por questões de princípio, de simpatia pela Ucrânia, mas porque têm receio que se isto correr bem na Ucrânia à Rússia, se a Ucrânia for forçada a alguma capitulação, há o risco de isso encorajar uma Rússia muito mais agressiva a tentar testar as águas noutros sítios, por exemplo, nos países bálticos, que são uma zona bastante vulnerável, até mais vulnerável do que a Ucrânia, países muito mais pequenos, em área, em população, etc.

Sim, há naturalmente essa preocupação da Europa. Neste caso concreto, Zelenskyy teve uma semana difícil. Primeiro, comunicou que soube do acordo pela imprensa, esse acordo que obrigava a Ucrânia a um cessar-fogo às estruturas energéticas. A Rússia claramente não cumpriu esse acordo, logo nas primeiras horas continuou a atacar estruturas energéticas da Ucrânia. A Ucrânia depois respondeu, foi respondendo ao longo da semana. Zelenskyy disse que se sente traído por Donald Trump. Tem, de facto, razão para isso, Volodymyr Zelenskyy?

Eu acho que no fundo, eu diria, ninguém se deve sentir traído por Donald Trump, porque ninguém deve confiar em Donald Trump. Ou seja, Donald Trump já deu muitas provas de que não merece o mínimo de confiança, não tem o mínimo de fiabilidade ou de credibilidade. É uma ilusão pensar que inclusive se pode comprar Donald Trump. O caso até mais extremo, que mostra que realmente Trump só pensa nos seus próprios interesses de curto prazo, é a questão dos países do Golfo. A Arábia Saudita está a ser atacada pelos houthis, os Estados Unidos aparentemente estão a pensar se vão fazer alguma coisa sobre o assunto. Ora, os países do Golfo, países como o Qatar, deram um avião que custava qualquer coisa como 600 milhões de dólares a Donald Trump, o novo Air Force One, investiram milhares de milhões de dólares, inclusive em empresas ligadas à família de Donald Trump, etc. E, portanto, provavelmente achavam que estavam a comprar o apoio, até uma garantia de defesa pelos Estados Unidos. A verdade é que Donald Trump deixou-se comprar, mas não ficou comprado. Os europeus fizeram um mau acordo comercial com os Estados Unidos, na esperança de comprar estabilidade na relação e boa vontade em relação à Ucrânia. E está visto que realmente isso não acontece. Agora, eu acho que se pode falar de uma traição por Donald Trump, daquilo que eram as tradições, que era a prática consensual na política externa norte-americana há muitas e muitas décadas, que era de valorizar as alianças, de se apresentar como o líder do mundo livre. Ora, como é que o líder do mundo livre pode ser indiferente a uma democracia que está a ser invadida, atacada? É verdade que os Estados Unidos, e pra terminar, tinham uma longa tradição histórica de isolacionismo. Mas era muito diferente ser isolacionista, ser tendencialmente neutro, não se envolver em conflitos na altura do George Washington, quando os Estados Unidos estavam a acabar eles próprios de sair de uma guerra da independência. Eram uma pequeníssima república periférica, uma pequena potência. Os Estados Unidos tinham menos tropas do que Portugal no início do século XIX.

Era um mundo completamente diferente.

E obviamente eram irrelevantes em termos da ordem global, da ordem regional. É completamente diferente fazer isso quando os Estados Unidos eram, até aqui, o pilar da ordem global, da ordem regional europeia, em termos de segurança, em termos de economia. E portanto, nesse sentido, acho que se pode falar de uma certa traição.

Mas o que a Ucrânia e a Europa podem fazer, concretamente, a respeito desta aproximação dos Estados Unidos à Rússia, com este acordo de venda de gasódito, sendo que, lá está, sendo Donald Trump, na próxima semana podemos ver este acordo com a Rússia também ser completamente diferente.

Eu acho que Zelenskyy faz bem, os europeus fazem bem em insistir neste ponto, que é: a Ucrânia está disposta até a ter em conta os interesses dos Estados Unidos e a aceitar um cessar-fogo energético. Agora, tem que ser realmente um cessar-fogo e não uma capitulação. Quer dizer, não faz nenhum sentido exigir a um país que se está a defender, que está a ser invadido, que está a ser atacado, cuja população civil está sistematicamente a ser visada, cujas centrais elétricas estão a ser destruídas, privando a população inclusive, por exemplo, de capacidade de se aquecer devidamente num inverno muito rigoroso, pedir a esse país que deixe de atacar o mesmo tipo de infraestruturas energéticas, por exemplo, no país agressor. Portanto, acho que esse ponto é realmente bastante chocante, até, diria eu, mesmo em termos de uma análise realista da política internacional, vamos pôr aquilo lá dos valores. Portanto, é só uma questão de poder e interesses, mas faz algum sentido pedir a um país Que ele se deixe defender e que permita ao outro continuar a atacar e que não ataque infraestruturas importantes até para a máquina de guerra, que obviamente precisa de combustível russo, para os cofres do Estado que o está a agredir. Acho que, no fundo, os europeus e os ucranianos podem tentar apostar que isso é de tal forma chocante e flagrante que, mesmo em termos da opinião pública norte-americana e de algumas elites republicanas do partido do presidente Trump, que ainda dão algum valor à credibilidade, à imagem externa dos Estados Unidos, que isso acabe por levar a algum tipo de mudança na postura dos Estados Unidos. Mas realmente é uma relação assimétrica. Os Estados Unidos são uma grande potência militar e têm capacidades que mais ninguém tem. Isso é o resultado, de facto, do investimento também enorme nessa área, que nós podemos até criticar, mas depois dá resultados práticos.

Mas nessa comunicação de Donald Trump, há também esta questão das eleições na Ucrânia, que tem sido muito falada desde o início do conflito. Naturalmente, a Ucrânia, em condições normais, já devia ter tido eleições. Isso não acontece. Está em vigor uma lei marcial e essa lei, naturalmente, estando em vigor há tanto tempo e sendo renovada constantemente, impede que se realizem eleições. Realizar eleições em período de guerra é algo muito complicado, para não dizer completamente impossível. Que cenário é que temos aqui? Porque Donald Trump quase que impôs umas eleições à Ucrânia. Zelenskyy até disse: "Há aqui uma possibilidade de o fazer, há um cessar-fogo de dois meses, nós conseguimos fazer campanha, conseguimos realizar as eleições". A Rússia disse que não, a fazer um cessar-fogo só de um dia, no dia das eleições. Portanto, é possível realizar eleições na Ucrânia ou não?

Eleições em circunstâncias normais é evidente que não, e é por isso que muitos países realmente têm essas cláusulas legais de impedir a realização de eleições num contexto de guerra, que implica que muita gente, por exemplo, está a combater na linha da frente, implica muitas vezes deslocações de refugiados dentro do próprio país ou até para fora do país. Acho que ninguém contesta que na Segunda Guerra Mundial havia uma potência democrática, que era a Grã-Bretanha, e uma potência autoritária, totalitária, agressiva, que era a Alemanha Nazi. Ora, na Grã-Bretanha não houve eleições durante todo o período da Segunda Guerra Mundial. Aliás, as eleições estavam mesmo para acontecer quando a guerra começa e essa Câmara dos Comuns, esse Parlamento britânico, esteve em funções quase 10 anos. Só há realmente eleições, ainda a Segunda Guerra não terminou, mas só há ações militares ou operações militares na Ásia. No território europeu já tinha acabado o conflito. Isso realmente se percebe. Também é verdade, e eu também tenho sublinhado isso, que isto é um problema para a Ucrânia, porque a Ucrânia, realmente, uma vantagem que tem é poder argumentar com esta dimensão de princípio de que os países livres devem defender outros países livres, de que, ao contrário da Rússia, onde se sabe sempre quem é que vai ganhar as eleições, na Ucrânia, de vez em quando as coisas mudam, em termos de política interna e até externa. Já houve candidatos pró-russos a vencerem eleições na Ucrânia, mas realmente é um problema se a situação se eternizar. Eu acho que aí Zelenskyy também, mais uma vez, procura jogar a melhor cartada possível, quer dizer, eu não quero eternizar no cargo, sendo que é evidente que o interesse de Putin, e agora até também muito claro de Trump, não é propriamente na democracia, porque eu recordo que Donald Trump foi à Arábia Saudita, por exemplo, dizer: "Nós não queremos saber de democracia para nada, desde que vocês sejam nossos amigos, isso é o que interessa, não nos vamos meter na política interna". Putin, supostamente, é o grande defensor da não interferência nos assuntos internos dos países, tirando quando é ele a interferir em países como a Ucrânia. É bastante evidente que o que se trata aqui é de tentar acabar com um líder que defende uma Ucrânia realmente independente, soberana, que não está subordinada a Moscovo ou a Washington, ou o que seja. Mas, em todo caso, no fundo, temos esta questão de base que é, realmente, Zelenskyy diz: "Se querem que eu saia, eu estou disposto a isso, mas vamos precisar de dois meses, vão ter de dar algum descanso aos pobres ucranianos". Tenta fazer algum trade off, mas realmente isso não tem resultado.

E, de facto, é uma tecla em que Vladimir Putin tem insistido e em que Donald Trump agora começa a insistir. Vamos fazer uma curta pausa neste "Cinco Continentes" com o Bruno Cardoso Reis. Já voltamos. Ainda temos vários temas para abordar, as vagas de manifestação pela Europa, esses ataques na Arábia Saudita, Donald Trump quer utilizar a mãe de todas as bombas e também essa segunda volta das presidenciais no Brasil. Curta pausa, já voltamos. Segunda parte do "Cinco Continentes". Eu sou o Miguel Cordeiro, estou à conversa com o Bruno Cardoso Reis, numa análise à política internacional dos últimos dias, da última semana. Vamos agora falar da vaga de manifestações pela Europa. Há em Portugal, há em Espanha, há em França, há em muitos outros países do continente europeu, por diferentes razões, é certo, algumas são semelhantes, mas há razões, motivações diferentes nestas manifestações. O que explica, Bruno, esta onda a acontecer ao mesmo tempo e será que há alguma resposta europeia, como, por exemplo, o Conselho Europeu, que teve reunião esta semana, se é possível encontrar aqui uma uma resposta, porque o custo de vida parece estar, de certa forma, associado a todas as manifestações. Depois, a justificação central acaba por variar um pouco, mas o custo de vida está em todas.

É, no fundo, é aquela velha frase tradicional portuguesa: "Casa onde não há pão, todos ralham, ninguém tem razão." No fundo, é este ponto que é os Estados europeus estão sob grande pressão, portanto têm muitos pedidos e poucos recursos, pouca margem fiscal e orçamental. Isso é sobretudo verdade nos países mais a sul, mas mesmo noutros. Estão a precisar, por exemplo, de investir muito também em defesa, até porque estão sob ameaça. Por exemplo, Donald Trump, já falámos disso, deixar de garantir a segurança da Europa. Portanto, há despesas acrescidas, por exemplo, nessa área. E depois temos claramente problemas estruturais em termos de questões cruciais para o custo de vida, como é as dificuldades na mobilidade social, portanto, grandes incertezas no mercado do emprego, com a pressão da China, por exemplo, em indústrias chave como a indústria automóvel, ou a questão da inteligência artificial, que para já ainda é um pouco um fantasma, mas é um fantasma que cada vez se aproxima mais de ser uma realidade. E, portanto, realmente há toda uma geração, sobretudo mais nova, que não vê grandes perspectivas em termos de emprego seguro, bem remunerado. E depois temos esta questão, que é claramente central em países como Portugal ou como Espanha, que é a questão da habitação, mas, por exemplo, tem reflexo em países tão ricos como a Alemanha. Na Alemanha, por exemplo, a maior parte dos analistas consideram que a vitória da extrema-esquerda, do Die Linke, o partido mais à esquerda em Berlim, ganhou as eleições, teve tudo a ver com a promessa de, estou aqui a citar de memória, mas qualquer coisa como nacionalizar 250 mil casas e disponibilizar a preços acessíveis. Ora, realmente, quando nós olhamos para os números, sobretudo no caso de Portugal e de Espanha, eles são impressionantes. Ou seja, no caso de Lisboa, para 2025, a estimativa é que, em média, alugar uma casa em Lisboa custa mais do que o salário médio, ou seja, anda à volta dos 120%.

É porque o custo com a casa acaba por impactar tudo o resto. É como o custo do combustível, influencia toda a economia.

Em muitos casos é 50% ou mais também. Temos esses dados no caso do sul, dos rendimentos. Portanto, isto implicará, obviamente, uma das pessoas, por exemplo, num casal, gastar o salário todo a pagar a casa e mesmo assim não chega. Os valores a seguir são para cidades espanholas, Barcelona, Madrid, ainda assim muito abaixo de Lisboa, 74%. Mas, portanto, no fundo, em certo sentido, o que se podia pensar é como é que havendo já esta explosão em Espanha, ainda não se tinha verificado em Portugal. Aí, para mim, há um ponto que é muito importante deixar bastante claro, que é: eu acho que numa democracia o direito de protesto existe, e existe para coisas que nós concordamos, outras que não concordamos. O que não existe nunca é o direito à violência, por muito boa que seja a causa. Esse é o pacto que se faz numa democracia. Toda gente pode dizer o que entende, ninguém pode recorrer à violência para fazer valer os seus pontos de vista. Esse é um ponto que para mim é absolutamente claro. Agora, também me parece evidente que outro aspecto que é preocupante e que eventualmente também pode levar, de facto, a formas de protesto cada vez mais extremadas, é a ideia de que os Estados não estão a dar grande resposta. No caso de Espanha, há também a questão do bloqueio político e da polarização extrema, que, aliás, também é um problema no conjunto da Europa, mas tentou-se aprovar umas leis e elas não passaram. No caso de Portugal, aprovou-se uma nova lei da renda que não dá sinais de vir a resolver nada decisivo. E neste Conselho Europeu também não há propriamente grandes sinais. Ou seja, a ideia muitas vezes parece ser que os partidos do sistema, de facto, não estão a dar a devida atenção, a devida prioridade a estes temas, não estão a avançar com programas realmente ambiciosos. Eu não estou a dizer que a questão seja simples, agora parece-me evidente.

Sim, mas pode haver quase uma abordagem de isso é um problema sem solução, não é?

Sim, mas essa resposta é uma resposta que só vai convidar a protestos cada vez mais extremados. Esta realmente é uma questão fundamental para a vida das pessoas. E sendo verdade que não se pode exigir o direito de viver no melhor bairro de Lisboa, a questão é que já não se consegue viver em bairro nenhum de Lisboa, nem nos arredores. O efeito de contaminação da inflação dos preços já se estende quase pelo país todo. As pessoas precisam de estar a uma distância razoável dos locais onde há emprego. E há um enorme investimento do Estado na infraestruturas, por exemplo, nas grandes cidades, transportes, etc. É incompreensível, por exemplo, que não se consiga resolver este problema de haver dezenas de milhares de casas que não estão habitadas nem são alugadas, por exemplo. Tem de haver, por exemplo, aí medidas em termos fiscais. Outra questão é a questão da construção. E eu aí, à partida, sou o mais possível favorável a uma economia de mercado, embora acho que o Estado tem um papel. Agora, é evidente que esta ideia de que é preciso mais construção, os privados tratam do assunto, é um disparate. Em Lisboa não falta construção nova. No bairro onde eu vivo, não falta construção nova. Agora, se um estúdio custa 500 mil €, como é que isso resolve o problema? Sendo que há clientes para isso, porque para muitos estrangeiros, para muitos nômades digitais, etc, os alugueis ou o custo da casa em Portugal, que são incomportáveis para os salários baixos, até em termos relativos, a nível europeu, que se praticam em Portugal, são perfeitamente aceitáveis para os salários que essas pessoas recebem. E, portanto, realmente parece-me que se os partidos do sistema não levam isto a sério e não pensam em conjunto De facto, num programa ambicioso que combine construção a preços acessíveis, o Estado não tem de perder dinheiro com isso. À partida, só tem de vender a um preço que não seja completamente especulativo, pode ter até lucro. Portanto, combinar isso com medidas para incentivar, por exemplo, o arrendamento. Acho que realmente o que tem sido feito não me parece suficiente, não está a dar resultados suficientes e acho que confiar que isto se vai resolver por si ou que simplesmente o mercado resolve o problema é enterrar a cabeça na areia.

Vamos ver o que acontece ao longo das próximas semanas com esta série de protestos que estão a marcar a atualidade na Europa. Vamos saltar de continente, vamos para a Ásia, e temos que começar pela Arábia Saudita, porque há ataques constantes a acontecer na Arábia Saudita. Por que nós não estamos a ver um travão nestes ataques? Será possível, nós já tocamos um pouco neste assunto há pouco, os Estados Unidos da América de facto continuarem à margem daquilo que está a acontecer na Arábia Saudita? As imagens dos últimos dias são um pouco marcantes dos ataques aos aeroportos.

Sim, já tínhamos aludido um bocadinho a isso, mas desde logo temos este lado que é realmente extraordinário e que vale a pena sublinhar. A Arábia Saudita é, isto também depende um pouquinho de como é que se calcula, mas será talvez o sétimo país do mundo que mais gasta em defesa. Só é ultrapassado por países muito maiores e com economias inclusive muito maiores, países como os Estados Unidos, a China, a Alemanha. É de longe o país árabe, o país do Oriente, que mais gasta em defesa, qualquer coisa entre 70 mil e 80 mil milhões de dólares. Tem dos melhores equipamentos militares, das melhores tecnologias militares, ainda agora anunciou a compra de F-35, e realmente não consegue ser eficaz. Isso é realmente um paradoxo, não é assim tão difícil de explicar, tendo em conta que a Arábia Saudita é um país enorme. Basta pensar que Israel, que é o país do mundo, de longe, que investe mais em defesa antiaérea e que tem o sistema mais avançado, que é um país mais pequeno do que Portugal, ainda assim não consegue ser 100% eficaz. No caso da Arábia Saudita, estamos a falar de um país que é para e 20 vezes maior e, portanto, realmente é muito difícil defender 100% do tempo, 100% do território com 100% de eficácia. Isso não existe. Agora, qual é que é a resposta a este tipo de ameaça? À partida, seria haver uma ofensiva coordenada contra os houthis, que inclusive não controlam completamente o país, não são o governo internacionalmente reconhecido. Há um governo internacionalmente reconhecido que se opõe aos houthis, sobretudo a zona do sul do Iémen, é uma zona que é tradicionalmente hostil. Portanto, seria combinar esforços para haver uma tentativa de reduzir a área controlada pelos houthis ou eventualmente tentar eliminar isso. Agora, o problema é que isso implica tropas no terreno, ou seja, não se faz só isso com meios aéreos. E realmente a Arábia Saudita não tem querido arriscar isso, nenhum dos seus aliados. Também é compreensível, se a Arábia Saudita não arrisca tropas no terreno a combater os houthis, não vão ser outros países que vão fazer isso. Agora, ainda assim, é extraordinário que os Estados Unidos basicamente não tenham feito nada. Isso é que é realmente extraordinário. Estamos a ver instalações civis sauditas, aeroportos, a maior empresa de petróleo do mundo, que é central no mercado em energia, a ser atacada, e os Estados Unidos basicamente estão a dizer que vão pensar no assunto. Isto realmente faz parte deste padrão, que já referimos, dos Estados Unidos cada vez menos poderem ser vistos como um aliado fiável, um aliado confiável. Isso tem um efeito altamente desestabilizador na ordem internacional, na ordem regional, em diferentes contextos regionais. Tem um enorme efeito desestabilizador em termos económicos, ou seja, uma parte desta inflação que nós estamos a pagar tem a ver com isto, que há cada vez mais conflitos. Há muitas potências que pensam: "Bem, se os Estados Unidos não vão intervir, se calhar até vale a pena tentar aqui qualquer coisa." Portanto, preencher este vazio. Tudo isso, obviamente, é péssimo para a economia. A economia gosta é de segurança nas rotas, nos investimentos. E portanto, todos nós já estamos a pagar um preço. Alguns estão a pagar em vidas, os que estão mais próximos destas zonas de conflito, mas todos nós estamos a pagar um preço em termos económicos por este mundo muito mais inseguro, sem as garantias que tradicionalmente os Estados Unidos deram ao sistema.

Temos o caso do Ministério dos Negócios Estrangeiros português que recomendou logo que se evitem as viagens para a Arábia Saudita pelo que está a acontecer. Vamos falar do Irão, até porque Donald Trump diz que está preparado para utilizar a mãe de todas as bombas. Nós lembro-me de falar disto há uns anos, no primeiro mandato de Donald Trump, utilizou esta bomba no Afeganistão, logo nos primeiros 100 dias desse mandato. Que bomba é esta? Isto vai resolver o conflito? Isto é alguma arma milagrosa? Na verdade, o que estamos aqui a falar é a maior bomba de todas, não é? É maior do que as outras.

À partida, aparentemente, Donald Trump já vai esclarecer um bocadinho o que é que ele estava a falar, porque nem sempre é totalmente evidente. É um pouquinho de especulação. A ideia foi que seriam aquelas bunker busters, aquelas bombas de elevadíssimo calibre e capacidade de penetração, que no fundo são feitas para destruir bunkers, que à partida mais nenhuma bomba convencional consegue, mas que não são armas nucleares. Donald Trump estará a esclarecer isso, que não estaria a falar de armas nucleares, porque à partida também se poderia pôr essa questão. Agora, realmente é uma questão interessante até de aprofundar um bocadinho, minimamente em termos históricos, ou seja, esta ideia das armas milagrosas. E depois já vou para terminar esta questão do seu eventual impacto no conflito com o Irão. Isto é uma ideia que não é nova. Por exemplo, o Hitler, na Segunda Guerra Mundial, usa no ano final do conflito Para tentar moralizar os alemães à resistência, esta ideia das Wunderwaffe, das armas milagrosas, que não é uma completa ficção. Realmente, a Alemanha, no último ano do conflito, vai ter, por exemplo, o Messerschmitt a jato, um primeiro avião militar a jato, e não é hélice, portanto muito mais rápido, muito mais eficaz que outros. Vai ter os primeiros mísseis, os V1 e os V2. Agora, o grande problema é que, por um lado, não tem aquela que vai ser o mais próximo de uma arma milagrosa que vamos ter na Segunda Guerra Mundial, que é a arma atômica. Porque todos os cientistas atômicos tinham sido obrigados a fugir da Alemanha nazia, começar pelo Einstein, e tinham ido trabalhar no programa nuclear norte-americano, o Projeto Manhattan. Mas mesmo o uso das armas nucleares no Japão é muito importante, eu acho que é realmente decisivo para ajudar o imperador a forçar as elites militares a aceitar a rendição, mas só se torna, de facto, nesse contexto, decisiva, porque os japoneses também sabiam que a par daquelas armas, com uma capacidade nunca vista, havia milhões de soldados dispostos a invadir o Japão, a fazer um novo desembarque, não na Normandia, mas nas costas das principais ilhas japonesas. Portanto, esta ideia das armas milagrosas realmente é uma ideia errada. As tecnologias militares são muito importantes, mas é sempre preciso terem a doutrina certa, serem empregados com uma boa doutrina, com boas táticas e não dispensam o sangue, suor e lágrimas, não dispensam tropas no terreno. Portanto, geralmente quando se fala em armas milagrosas, é um sinal de que não se tem uma estratégia bem pensada para se sair de um conflito. E de facto, isso parece-me ser o caso no Irão. Esta arma já foi usada, aliás, com eficácia e para os fins que está desenhada nos ataques em junho de 2025 contra o programa nuclear, que terão, de facto, degradado, destruído, em grande parte, esse programa nuclear iraniano. Agora, esta arma não resolve o problema de fundo que é: o Irão, o regime iraniano, não se vai render, não se quer render, está disposto a assumir um enorme custo econômico para a sua população.

E a arrastar essa situação toda, que depois leva para a situação dos combustíveis, não é?

Exatamente. E está a usar armas muito eficazes que não se resolvem com isto, não se reabre o Estreito de Ormuz com este tipo de armas. Portanto, à partida, não parece que esta ameaça vá assustar os iranianos, que se calhar é o primeiro objetivo, também não parece que o seu uso, o seu eventual emprego, venha resolver os problemas fundamentais que Donald Trump tem neste conflito, que é nomeadamente o estrangulamento pelo Irão e pelos seus aliados, os úteis, destes dois pontos de estrangulamento do mercado energético global, que é o Estreito de Ormuz e o Estreito de Tadan.

Fica a mãe de todas as bombas, mais um nome para Donald Trump utilizar nestas semanas até as midterms. Ainda na Ásia, um minuto e meio para falar rapidamente deste assunto. Há uma nova ponte entre a China e a Coreia do Norte. É mesmo necessária esta ponte e se isto é um sinal de uma relação mais estreita?

O que é extraordinário é que esta ponte não é nova. A ponte já está, aparentemente, mais ou menos construída ou praticamente terminada há mais de 10 anos. Portanto, o que agora está a acontecer realmente é que a ponte vai ser aberta, esta ponte sobre o rio Yalu, que faz a fronteira entre a Coreia e a China, vai ter postos de fronteiriços, todas essas questões. Isso realmente é significativo. Há sinais de dinamismo econômico nunca visto, é tudo muito relativo, na Coreia do Norte. A Coreia do Norte conseguiu sair do seu relativo isolamento diplomático. É preciso recordar que ainda há 10 anos a China, a Rússia e os Estados Unidos estavam a pé às sanções nas Nações Unidas contra a Coreia do Norte para forçar a sua desnuclearização.

Isso já não está a acontecer de forma tão intensa nesta altura.

Não está a acontecer de todo. Basicamente, a Rússia precisou da Coreia do Norte para lhe fornecer soldados, fornecer armamento, mísseis, e fez pagar. As estimativas são de várias dezenas de milhares de milhões de dólares, ou equivalente, por parte da Rússia. Essa aproximação à Rússia também obrigou a China a rever a questão e a não correr o risco de ter um Estado na sua fronteira que de repente cai pro lado russo e portanto também procurou, aparentemente, melhorar relações, apostando muito na cartada econômica, que é onde a China é mais forte. Realmente temos aqui sinais de que as coisas estão a movimentar nesta região, para grande preocupação, por exemplo, da Coreia do Sul, que tem um enorme receio que com mais recursos, o regime continue a apostar naquilo que tem sido sempre a sua prioridade, que é armar-se ainda mais, com tecnologia ainda mais avançada, utilizar também estes acordos com a Rússia para melhorar a sua tecnologia de mísseis, inclusive mísseis nucleares. Portanto, à partida, é uma má notícia, diria eu, para a estabilidade, para a paz nesta região da Ásia Oriental, mas é uma boa notícia pro regime norte-coreano.

Vamos deixar a Ásia, temos dois saltos ainda para dar e ainda a recomendação. América do Sul, África e no fim, a nossa recomendação. Vamos falar da campanha no Brasil, estamos a uma semana. Flávio Bolsonaro tem tudo para vencer, a história dita isso, que quem vence a primeira volta acaba por vencer na segunda. Que análise faz da forma como está a decorrer também este período de campanha até essa segunda volta? A eleição é no dia 25 de outubro.

É uma tentativa desesperada de compra de votos pelos dois lados. Houve uma redução agora da semana laboral, do horário de trabalho no Brasil, o chamado 61. Foi promovido pelo Lula, o próprio Flávio Bolsonaro tinha se oposto sempre, dizendo que isso tinha grandes custos para as empresas e eventualmente pro emprego. Acabou por, à última da hora, mudar de opinião, porque aparentemente os seus conselheiros eleitorais terão dito que isso ia custar votos, podia custar votos. Flávio Bolsonaro está a apostar muito também nesta questão da mão dura em termos do crime organizado, prometeu construir novas cadeias, cinco grandes cadeias com capacidade de 500 mil pessoas, meio milhão de pessoas E nisso ele procura cavalgar esta onda que está a difundir-se por toda a América Latina de seguir o modelo de El Salvador e prometeu também nisso alinhar com os Estados Unidos, com este chamado escudo das Américas. Potencialmente, esta eleição tem um impacto regional importante, porque seria o confirmar desta onda de uma direita muito musculada e muito alinhada com os Estados Unidos de Donald Trump por toda a região. Os últimos dois grandes países que ainda resistiam a essa vaga são o México, onde continuaremos a ter uma presidente de esquerda, neste caso, Claudia Sheinbaum, e o Brasil com o Lula. Em termos do que irá acontecer, temos de ver. Ou seja, é uma real eleição.

Ainda vamos ter mais um programa na próxima semana antes dessa eleição e depois uma emissão especial no dia 25 de outubro na Rádio Observador pra acompanhar precisamente essa noite eleitoral no Brasil. África. Estamos a falar do continente africano, mas de um território que é controlado por Espanha, Ceuta, Filipe VI a visitar o território, algo histórico. Não é todos os dias que o rei de Espanha, neste caso, visita este território. O rei foi implicitamente criticado por não ir antes por Sánchez. Será que a crítica de nunca ter ido ao enclave se justificava? E será que agora mudou alguma coisa com esta visita?

Eu acho que esse foi um episódio que realmente justifica as muitas críticas que são feitas a Sánchez, ou seja, foi uma manipulação populista da verdade. No fundo, ele estava a responder a acusações de desinteresse, atirou pra coroa, com dados que nem sequer eram verdade. Ele terá querido referir a visita do Juan Carlos em 2007, mas disse: "Já há mais de 20 anos que o rei não vai lá". O rei nem sequer era rei há 20 anos, era o pai. E nós sabemos que Juan Carlos fez enorme pressão sobre o governo durante anos pra ir a Ceuta. Só lhe foi deixado ir dessa vez, depois de imensa pressão, porque a posição dos governos é sempre de evitar provocar Marrocos e o receio de que isso poderia ser visto como uma afirmação de soberania, que foi exatamente o que fez Filipe VI, mas que isso poderia dar origem a uma crise com Marrocos. Porque é evidente que em Espanha temos uma monarquia constitucional, o rei não vai ou deixa de ir quando lhe apetece. Obviamente, há aí um lado de iniciativa do monarca, mas isso é sempre acordado com o governo. A razão pela qual o Filipe VI ainda não tinha ido a Ceuta era precisamente porque o governo não tinha entendido que isso era útil ou não tinha autorizado, ou não tinha tomado a iniciativa de avançar com a viagem. Em todo caso, acho que realmente é um sinal de que as coisas mudaram um pouco e de que o governo se viu forçado a dar resposta também a esta enorme pressão popular, quer em Ceuta, quer em Espanha. Tivemos enormes manifestações no sentido de deixar claro que não ia deixar cair Ceuta, de que por muito importante que sejam as boas relações com Marrocos, não ia deixar cair Ceuta. Já agora, acho que Ceuta realmente é uma vulnerabilidade de Espanha. Foi uma sorte pra Portugal que, como resultado da União Ibérica, foi o único território que em 1640 não voltou para o reino de Portugal, para o governo de Lisboa, preferiu manter-se unido à Espanha e felizmente Portugal em 1668 também reconheceu isso e livrou-se desse problema.

Para fechar, Bruno, tens uma recomendação, como habitual. O que recomendas esta semana, neste episódio do "Cinco Continentes"?

Eu vou abusar descaradamente desta prerrogativa pra recomendar um texto meu que eu publiquei durante esta semana.

Sim.

Eu agora estou como investigador não residente na Brookings Institution, que é um think tank norte-americano muito ativo nesta área da política externa. E uma das primeiras coisas que me pediram foi pra pensar um pouquinho sobre, o que eu acho que é também revelador, sobre a questão de como é que o flanco sul, os países do sul da NATO estão a reagir, se estão a adaptar a este novo contexto, os desafios que isso coloca. O nome do texto, é um texto em inglês, mas obviamente a maior parte dos nossos ouvintes não terão problemas com isso, é "A Divided Southern Flank Faces Trump 2.0 and NATO 3.0". Um flanco sul dividido enfrenta o segundo mandato Trump e esta ideia de uma NATO 3.0, ou seja, uma NATO mais europeia, menos dependente, que tem de estar muito mais autônoma dos Estados Unidos. E aquilo que eu basicamente defendo é que o foco apenas na questão de quanto é que se gasta em defesa é um erro. É preciso saber se está a gastar bem, se está a gastar de forma coordenada. O grande problema do sul é que até porque está muito longe da Rússia e não é credível realmente que haja uma ameaça direta de invasão da Rússia, isso torna muito mais difícil criar consensos, organizar o esforço regional de segurança, coordenar os diferentes países. É muito mais difícil também perceber exatamente quais serão as grandes ameaças e tudo isso torna mais difícil que a região dê um contributo eficaz e bem coordenado pra segurança da própria região sul e pro conjunto da aliança.

Pra saber mais, é ir ler em brookings.edu este artigo do nosso Bruno Cardoso Reis. A viagem pelos cinco continentes desta semana está feita. Marcamos encontro para a próxima semana. Um abraço, Bruno.

Boa semana. Obrigado.