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E começa agora uma nova viagem pelos cinco continentes com os temas que estão a marcar a geopolítica internacional. Fazemos sempre esta viagem ao sábado. Eu sou o João Costa e Silva, está comigo o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo, como é que estás?

Olá, tudo bem. Tudo a correr bem, cheio de energia pro verão.

Pois, está começando, não é? Vamos a isso. Olha, temos muitos assuntos pra falar esta semana, a marcar a atualidade, claro, este memorando de entendimento entre Estados Unidos e o Irã que põe fim a três meses de um conflito que incendiou a região desde o final de fevereiro. O que é que precipitou este passo agora, Bruno?

Aquilo que parece ter realmente precipitado esta decisão foi o fato de o Donald Trump ter percebido que isto estava a ter realmente um custo econômico e um custo político também muito grande pra ele. Falamos aqui, aliás, na semana passada disso, com o Jaime Nogueira Pinto. Os setores mais trumpistas, mais conservadores, mais isolacionistas que apoiaram fortemente sempre o Donald Trump estavam muito preocupados e eram muito críticos a este conflito. Os democratas, os independentes ainda mais. Donald Trump está neste momento com uma taxa de rejeição, com um balanço negativo entre os independentes, que são quem decide as eleições sempre muito polarizadas nos Estados Unidos, de menos 55 pontos percentuais. E realmente a questão econômica também se estava a agravar. Ele nomeou um novo presidente da Reserva Federal, do Banco Central Americano, na esperança de que ele baixasse as taxas de juro na primeira oportunidade. O máximo que ele fez foi manter, porque a inflação continua realmente a subir, muito por força do preço dos combustíveis, depois tem o impacto em todo tipo de setores e até de outros produtos também derivados dos combustíveis, como os fertilizantes, que depois impactam os produtos agrícolas alimentares. Acho que isso foi bastante claro. Donald Trump realmente não é alguém que seja muito bom a manter segredo e disse muito claramente: "Eu não quero ser o novo Herbert Hoover", que é o presidente, o seu antecessor, que presidiu os Estados Unidos durante a Grande Depressão e que foi culpado muito por isso, por aquela grande crise econômica a partir de 1929, no início dos anos 30. Esse parece-me ter sido aqui o fator fundamental e de fato tínhamos muitos indicadores, eu próprio fui destacando isso, de que mesmo pra países como a China, realmente estava se a chegar ao limite aquilo que se conseguia acomodar sem começar a pagar um preço muito elevado. De fato, muitos analistas econômicos, consultoras importantes, o JP Morgan, etc., basicamente estavam a dizer que em julho íamos ter uma escalada muito difícil de controlar nesta crise dos preços e do abastecimento de combustíveis com impacto em todo tipo de setores, inclusive, por exemplo, também no turismo, nas viagens. Parece-me que esse foi o fator principal que explicou este timing. Isso também significa que, no fundo, apesar da enorme assimetria de poder entre os Estados Unidos e o Irã, realmente se confirmou mais uma vez aqui um padrão que temos verificado inúmeras vezes, que basicamente pode-ser que tanto quanto existem regras na política internacional, na segurança internacional, tem sido uma das regras desde 1945, é que neste tipo de conflitos assimétricos, a grande potência distante que está a projetar forças a milhares de quilômetros de distância tem o tempo contra ela. E portanto, no fundo, a potência aparentemente mais fraca, mas que está a jogar no seu próprio terreno, no seu próprio campo que não tem grandes espaços também de recuo, acaba por ter o tempo do seu lado. No Afeganistão contava-se essa anedota que os talibãs diriam qualquer coisa como "os americanos têm os relógios, mas nós é que temos o tempo". Sobretudo com Donald Trump, isso ainda seria mais de esperar. Isso parece ser uma regra assim, vimos várias grandes potências, inclusive a União Soviética, a sofrerem o mesmo problema, por exemplo, também no Afeganistão. As guerras coloniais tardias, todas elas também corresponderam a este padrão. Obviamente, os Estados Unidos no Vietnã e depois mais recentemente no Afeganistão e no Iraque. Mas além disso, Donald Trump é alguém que não se caracteriza por ser propriamente uma pessoa muito paciente com grande disciplina em termos políticos, uma visão de longo prazo, e portanto acho que isso também ajuda a explicar esta pressa em chegar a algum tipo de acordo, algum tipo de cessar-fogo com o Irã que permitisse a reabertura do estreito com alguma segurança.

Muito bem. E Bruno, uma questão que tem marcado muito esta semana, tem se falado muito disso. Estamos a falar de um memorando de entendimento e não de um tratado de paz definitivo. Juridicamente e politicamente, como é que se distingue este documento e daquilo que já se conhece também destes 12 pontos do acordo, o que é que destacas como o mais surpreendente ou até, se calhar, o ponto mais frágil?

Realmente, isto não é um tratado de paz. Embora tenha sido assinado por Donald Trump, pelo menos em Versalhes, não é o tratado de paz de Versalhes, que por exemplo, pôs fim à Segunda Guerra Mundial com inúmeras cláusulas Enfim, é realmente um documento muito mais sintético. Aí o contraste também, uma página e meia, o contraste com o acordo anterior entre os Estados Unidos, a Europa e o Irão, o chamado JCPOA, de 2015, também é revelador. O acordo, na sua totalidade, com todos os anexos, chegava às 160 páginas, com imensos detalhes para garantir que havia mecanismos de controle, fiscalização detalhados, o mais possível antecipando dificuldades, desculpas que o Irão pudesse encontrar. Isto realmente não é isso. É um memorando de entendimento, um protocolo, ou seja, um documento que não tem a dignidade de um tratado, por exemplo, não implicará ser ratificado pelos respectivos parlamentos, o que à partida, no fundo, lhe dá a força de lei, portanto, não é simplesmente um acordo entre governos, é um acordo entre Estados, isso realmente não acontece aqui. Isto reflete um grande problema no estudo dos conflitos armados e também na estratégia, ou seja, na decisão relativamente aos conflitos armados, que é a questão de como é que terminam as guerras. Pode parecer evidente e muitas vezes nós ouvimos dizer coisas como "todas as guerras terminam com negociação". Isso não é verdade. Há guerras que terminam com uma vitória total de um dos lados, com uma rendição incondicional, é o caso clássico da Segunda Guerra Mundial.

Era isso que Donald Trump queria, não era, Bruno?

Exatamente. Donald Trump começou por dizer que era isso que ia acontecer neste caso. Isso claramente não aconteceu, é um dos primeiros objetivos declarados dele que não se concretizou. Outra possibilidade é um acordo de paz, aquilo que estávamos a falar, ou seja, os dois lados reconhecem que militarmente atingiram os seus limites e consideram que é importante estabilizar a situação, resolver os problemas de fundo, o conflito de fundo, e há um processo negocial, muitas vezes longo, que procura codificar, formalizar essas cedências mútuas, porque há aqui sempre algum compromisso, às vezes mais de um lado, outras do outro, em certas áreas, numas ou outras. Por vezes, há um lado que claramente está a vencer e consegue ter um acordo, não exige uma rendição incondicional, mas o preço pela sobrevivência do outro lado é um acordo que corresponde muito às suas exigências, um acordo muito aproximado de um dos lados, se quisermos uma vitória militar que não é completa, mas que depois se traduz numa vitória diplomática. Mas esses acordos são difíceis de atingir e tornaram-se mais difíceis também desde 1945. Por exemplo, uma coisa que nós ouvimos muitas vezes dizer também é: "Isto de troca de territórios sempre existiu. Quem vence uma guerra ocupa território, fica com esse território". Bem, isso sempre existiu até 1945. Desde 1945 é ilegal, supostamente. O que não era o caso antes. Havia o direito de conquista, mas com a Carta das Nações Unidas, a partir de 45, a alteração das fronteiras pela força é ilegal. Mais, a Carta das Nações Unidas consagra, ainda de forma reforçada, um princípio que aparece pela primeira vez na lei internacional, precisamente no Tratado de Versalhes, precisamente a seguir à Primeira Guerra Mundial, esta ideia da autodeterminação, que corresponde a um processo de liberalização da política global, que começa muito pela Europa e depois se vai expandindo, enfim, de forma muito desigual e também com muitos retrocessos. Mas esta ideia que hoje praticamente todos os Estados aceitam, também falamos disso aqui com o Jaime Garapito, com alguma outra exceção, como o Vaticano, por razões evidentes, ou a Arábia Saudita, que ainda são Estados de direito divino, mas a ideia de que o poder legítimo deve vir do povo. Ora, isso coloca um problema que é, de fato, anteriormente, ninguém perguntava a um camponês dos Balcãs se queria ser governado pelo sultão otomano, pelo imperador Habsburgo de Viena, pelo czar russo, o Romanov. A questão da vontade do povo não se colocava, a legitimação vinha de Deus, inclusive do deus das batalhas, que supostamente decidia quem é que devia vencer um conflito. Isso também dificulta os compromissos, as cedências, que muitas vezes são necessárias para realmente haver negociações, para haver negociações bem sucedidas e um tratado de paz que realmente encerre a questão de uma forma que seja aceitável para as outras partes. Isso também é outro problema, que muitas vezes contrasta-se, por exemplo, a Paz de Viena de 1815 com a Paz de Versalhes de 1919, no sentido que a Paz de Viena foi uma paz relativamente generosa para com os vencidos, uma paz que restabeleceu um certo equilíbrio de poder entre as grandes potências na Europa, sem que ninguém se sentisse muito injustiçado ou muito inseguro, e isso permitiu uma paz muito durável. A Paz de 1919 foi vista como muito injusta, pelo menos por alguns, uma paz imposta aos vencidos, nomeadamente à Alemanha, que desequilibrou muito as relações de poder na Europa, humilhou a Alemanha, mas não a enfraqueceu, não a dividiu e criou aqui uma espécie de inimigo permanente dessa paz e acabou por ser um dos fatores que levou a que 20 anos depois tivéssemos uma Segunda Guerra Mundial, que era um objetivo que se queria evitar. Muitas vezes a questão também é na paz encontrar este ponto de equilíbrio e o vencedor conseguir ser relativamente generoso para conseguir que realmente seja uma paz durável. Mas depois ainda há um terceiro cenário, que eu tenho aqui referido várias vezes, é o que, por exemplo, temos na Coreia desde 1953, que é um congelamento do conflito, um cessar-fogo Geralmente com algumas regras, que é o que também temos na Coreia, mas no fundo é um congelamento do conflito e, portanto, por definição, uma paz mais frágil, uma paz sempre também muito armada, geralmente, porque os dois lados não têm confiança que seja uma paz durável e que às vezes prolonga-se durante muito tempo, como é o caso da Coreia, realmente há muitas décadas, mas é realmente uma paz armada. Portanto, isto mostra aqui os diferentes cenários possíveis. Neste caso, o que nós temos, para já, é um cessar-fogo que estende-se também à garantia sobre a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, mas logo aí começam os problemas, porque o que está lá é uma coisa bastante ambígua e pode eventualmente permitir ao Irão dizer que pode controlar ou até cobrar pelo uso do Estreito, o que é algo manifestamente ilegal à luz da lei internacional e tem sido um dos pilares da ordem internacional e também da política externa americana desde a independência dos Estados Unidos. Temos logo aí um problema, mas à partida é um cessar-fogo com algumas regras, com um calendário para uma negociação mais aprofundada que deveria levar a um acordo mais formal centrado na questão nuclear e em que já há algum acordo sobre em que termos é que se irá avançar. Mas essa questão e sobretudo toda uma série de outras questões que Donald Trump muito bem levantou como sendo importantes em relação ao Irão, coisas como a questão do programa de mísseis e sobretudo a ação do Irão de desestabilização da região, financiando, armando grupos armados, treinando grupos armados por toda a região, no Líbano, no Iraque, no Iémen, o Hamas na Palestina. De facto, isso está completamente ausente. Há uma série de grandes problemas que continuam em cima da mesa, inclusive a própria questão nuclear. Temos aqui algumas referências, mas estamos longe de ter um acordo. Realmente o que temos aqui é uma tentativa de formalizar um cessar-fogo e sobretudo, eu diria, aquilo que poderia eventualmente ser o ponto mais positivo do acordo seria realmente permitir o regresso à navegação segura e livre no Estreito de Ormuz. Mas de facto, nem isso está a possibilidade por adquirir. E depois temos um último problema, que é: há umas referências ao Líbano e a Israel, mas nem o Líbano nem Israel são parte deste acordo. E realmente, como estamos a ver, essa pode ser uma de várias razões pelas quais este acordo acaba por ficar novamente posto em risco. Ou seja, não é de todo evidente que Israel esteja satisfeito com este acordo, bem pelo contrário. Isto coloca grandes problemas também ao governo libanês, porque aparentemente permite salvar o Hezbollah e adiar para as calendas a questão do seu desarmamento. Ora sabemos que o Hezbollah não é propriamente muito de fiar, muitas vezes acaba por atacar Israel e provocar novos ataques também contra o Líbano. O governo Netanyahu também tem esta tendência para recorrer sempre à força e, portanto, realmente é um acordo com características muito peculiares. Uma delas é esta, é obrigar supostamente países que não foram envolvidos nas negociações e que não assinaram o acordo. Mas claramente faz parte deste padrão, que sempre pareceu o mais provável neste conflito, que é, no fundo, um acordo muito parcial e, sobretudo, de cessar-fogo e focado no Estreito de Ormuz, que é realmente o grande problema geoestratégico global que este conflito veio criar.

Muito bem. Bruno, nós temos que ficar por aqui nesta nossa primeira parte. Temos mais assuntos para falar na segunda. Até vamos falar da questão do mundial de futebol que está a acontecer na América do Norte, Estados Unidos, Canadá e México. É já a seguir, depois de uma curta pausa para atualizarmos as notícias. De regresso para a segunda parte do Cinco Continentes, sempre com o historiador Bruno Cardoso Reis. Eu sou o João Costa e Silva. Ficamos aqui ainda com uma questão da nossa primeira parte pendente, a questão nuclear, que foi o grande pretexto de Trump para as hostilidades. Sabendo que o acordo, Bruno, permite ao Irão manter temporariamente um enriquecimento a níveis baixos enquanto negoceia, esperas uma travagem real do risco de proliferação ou isto é apenas adiar o problema com um penso rápido? Convém também falarmos aqui dos grandes derrotados e também dos vencedores deste acordo, que para já, e vamos pôr nestes termos, é parcial no Médio Oriente.

Sim. São duas questões importantes. No fundo, o que é que isto muda, qual é o impacto na ordem global e sobretudo regional, e aí a questão da proliferação, e também perceber os países vencedores, que mais ganharam ou perderam com este conflito, faz bastante sentido. A questão da proliferação nuclear, supostamente, é a questão central em tudo isto. E eu não tenho dúvida que sobretudo o ataque de junho do ano passado realmente foi uma derrota do ponto de vista do avanço do programa nuclear iraniano. Teve custos elevados em termos de destruição de infraestruturas. Agora, o problema sempre é: consegue-se travar um programa nuclear simplesmente por via militar, sem que haja um acordo, sem que haja inspeções, sem que haja verificações? A doutrina diverge. Tentou-se, por exemplo, através de um acordo com a Coreia do Norte, sem usar meios militares, e a verdade é que a Coreia do Norte acabou por Sair desse acordo, também porque os Estados Unidos começaram a, um pouco no mesmo padrão de Trump, mas com George W. Bush, deixaram de cumprir o acordo. E a verdade é que depois também hesitaram em usar meios militares. A Coreia do Norte acabou por alcançar esse objetivo de ter um programa nuclear militar, apesar de durante muito tempo ter dito que não era verdade. Portanto, esta questão não tem soluções fáceis, eu não estou a dizer que seja o caso ou que tudo isto se resuma aos erros de Donald Trump ou ao estilo de fazer política externa de Donald Trump. Agora, a verdade é que o contexto global e também a forma como os Estados Unidos de Donald Trump se estão a comportar, do meu ponto de vista, objetivamente, aumentam os riscos de proliferação, ou seja, tornam muito mais lógico, muito mais racional que uma série de países comecem realmente a tentar ter armas nucleares. E já falámos aqui, por exemplo, de países como o Japão, onde isso supostamente era um pouco um tabu na cultura estratégica, na cultura política, porque o Japão foi o único país que foi alvo de armas nucleares, de armas atômicas, como nós sabemos, no final da Segunda Guerra Mundial. Mas, por exemplo, na Europa, países como a Alemanha ou a Polônia estão também a falar disso cada vez mais. E por que é importante falar de aliados dos Estados Unidos? Porque o fato de Donald Trump também tratar tão mal os aliados, ignorar tantas vezes os interesses dos aliados, e acho que esta guerra valida mais uma vez isso, ser um aliado tão incerto anula aquilo que era um dos fatores que travava a proliferação, que é esta ideia que pelo menos muitos países aliados com os Estados Unidos, e há mais de 50 países que têm alianças militares com os Estados Unidos, pelo menos esses países podiam confiar numa certa garantia de segurança também nuclear dos Estados Unidos, em contrapartida de não avançarem com o desenvolvimento das suas próprias armas atômicas. Cada vez mais isso é posto em questão pela forma de fazer política de Donald Trump, de América primeiro, de ignorar muitas vezes os interesses dos aliados e pegando aqui na questão dos vencedores e vencidos. Bem, isto obviamente é uma avaliação preliminar. Não sabemos se o conflito terminou definitivamente, não sabemos se haverá realmente um acordo, inclusive um acordo nuclear muito detalhado, mas para já, e com o que está em cima da mesa, parece-me evidente que o Irão é objetivamente um vencedor. Teve aqui grandes custos, grandes perdas, mas o regime sempre esteve disposto a assumir isso. Num conflito assimétrico, é inevitável que a parte mais fraca tenha que ter essa capacidade de encaixe, perceber que vai ter perdas, vai ter destruição de infraestruturas, vai ter baixas. Portanto, uma das chaves é ter a vontade política de resistir, de enfrentar isso. Mas o grande objetivo do governo iraniano, que era garantir a sobrevivência do regime, isso foi alcançado. Mais, consegue aqui um compromisso preliminar do levantamento de sanções muito amplo. Consegue ainda uma promessa de 300 mil milhões, enfim, uma promessa vaga, que não se percebe muito bem quem é que vai pagar. Parece que seriam os países do Golfo que iriam no fundo pagar o rearmamento do Irão para ele depois os poder mais eficazmente voltar a ameaçar. Mas enfim, aparentemente isso está no acordo, portanto está previsto. Ora, isso seria, por exemplo, dinheiro que obviamente o Irão podia utilizar para se rearmar, reequipar-se, recuperar a sua indústria de defesa, será certamente a prioridade do atual regime, tudo indica, tendo em conta o perfil passado, para rearmar estas milícias, estes grupos armados que também foram muito atingidos nestes últimos anos, nomeadamente o Hezbollah. Portanto, à partida, nestes termos e para já, o Irão seria um dos vencedores. Os mediadores também, sobretudo o Paquistão, por exemplo, o atual governo paquistanês, que não era particularmente popular, não venceu realmente as eleições. O líder militar, o Mashal Munir, o primeiro-ministro Sharif, colocaram logo postas por todo o país a gabar-se deste protagonismo no palco global. E realmente é inegável que o Paquistão conseguiu aqui uma vitória diplomática, pelo menos para já, um protagonismo muito importante e que não era evidente à partida. E outros mediadores, nomeadamente o Qatar também, que aposta sempre em ficar aqui um pouco a tentar agradar a toda a gente, a tentar negociar com toda a gente, a oferecer aviões a Donald Trump, mas também a chegar aparentemente a um acordo secreto com o Irão para uma espécie de não agressão na questão do gás natural, que é aliás o maior campo de gás natural que está no Golfo, é partilhado pelo Irão e pelo Qatar. Portanto, eu diria que esses que apostaram num certo apaziguamento do Irão e nesta vertente diplomática, se pode dizer que também saíram relativamente vencedores. A China, porque era muito importante também que houvesse condições para uma certa normalização econômica e reabertura do estreito. A China depende aí à volta de 50% do petróleo desta região, é o grande comprador do Irão, do petróleo iraniano, mas também saudita. Eu diria que entre os maiores derrotados estão os aliados dos Estados Unidos e aqueles que adotaram uma linha dura em relação ao Irão, em particular Israel, os Emirados Árabes Unidos, aqueles setores nos Estados Unidos também que defenderam a guerra contra o Irão e que defenderam que seria possível aqui vitórias decisivas. Esses parecem-me claramente os maiores derrotados e inclusive um pouco os Estados Unidos, porque uma das lições que sai desta guerra é que afinal a garantia de segurança dos Estados Unidos não vale assim tanto, nem diplomaticamente ou politicamente, nem militarmente, porque diplomaticamente, politicamente, não se sabe nunca com o que é que se pode contar com Donald Trump. E muitas vezes Donald Trump trata pior os aliados do que propriamente os adversários, os inimigos tradicionais dos Estados Unidos, as grandes potências autoritárias, inclusive o próprio Irão. Ignorou aqui claramente preocupações de Israel ou dos Emirados, por exemplo Diplomaticamente e militarmente também, porque o Irão mostrou que está atento ao que está a acontecer em termos militares a nível global, que aprendeu as lições do conflito, por exemplo, entre a Ucrânia e a Rússia. O Irão conseguiu realmente mostrar que há limites importantes à eficácia do poder militar norte-americano na proteção dos seus aliados no Golfo. Não conseguiram proteger os aliados do Golfo dos ataques aéreos iranianos, a 100%, longe disso. Mostrou os limites também dessas capacidades muito sofisticadas, porque depois há uma reserva estratégica limitada desse equipamento muito caro, desses mísseis que custam entre 1 e 3 milhões de dólares, que depois estão a interceptar drones que custam alguns milhares de dólares. E mostrou também que sem uma marinha convencional, sem uma Força Aérea convencional, consegue realmente pôr em risco a navegação segura no Estreito de Ormuz e com isso ter um impacto brutal na economia global.

Muito bem, Bruno, uma grande lista de vencedores e derrotados. Vamos agora cruzar as lições deste curto conflito com o Irão e a fase atual da guerra na Ucrânia. O que é que podemos retirar em termos mais amplos sobre o futuro desta guerra e também a questão dos meios militares? Nesta altura já convém falar também sobre esta questão.

Sim, ligando com a resposta anterior, no fundo, o que isto mostra, e o que também estes ataques ucranianos muito mais eficazes, por exemplo, pela primeira vez um grande ataque contra uma refinaria em Moscovo. O que realmente tudo isto mostra é que, para já, a evolução tecnológica está a favorecer o nivelamento de poder, está a favorecer as potências mais fracas. Os drones aéreos, navais, terrestres, a Ucrânia cada vez mais está a usar drones também terrestres. A Ucrânia transformou-se numa superpotência dos drones, produz quase 1 milhão de drones por mês, à volta de 800 mil, também cada vez com mais alcance, mais eficazes, que também são utilizados na defesa e não apenas no ataque, no fundo, para interceção de outros drones. Portanto, realmente, neste momento temos aqui uma nova tecnologia, esta tecnologia dos drones, que claramente está a ter um papel fundamental nos conflitos armados. É parte de um conjunto de tecnologias disruptivas que estão a ter cada vez mais impacto nos conflitos armados e cuja evolução é muito difícil de prever, por exemplo, a questão da inteligência artificial, que já foi também usada neste conflito para aquisição de alvos. E portanto, pode ser que isto, por exemplo, ao nível da inteligência artificial, até volte a favorecer as grandes potências, as potências mais fortes, com mais recursos, com mais capacidade de inovação tecnológica de ponta. Mas para já, a grande lição a tirar é que não é possível vencer um conflito armado sem grandes quantidades de drones. Esses drones dão uma grande vantagem ao lado aparentemente mais fraco, ou pelo menos permitem, em certa medida, nivelar a assimetria de poder. Se isto dá mais vantagens à ofensiva ou à defesa, eu diria também, à partida, parece dar mais vantagens, para já, a uma dimensão mais defensiva, embora obviamente qualquer arma possa ser usada para atacar, para defender, mas no fundo permite, sobretudo, a potências mais fracas ter aqui uma espécie de estratégia de negação daquilo que seria a superioridade, os efeitos normais da superioridade militar de uma potência mais forte, uma capacidade de resistência de prolongar o conflito muito maior, provocar baixas, estragos, de facto, ao lado mais forte e, portanto, à partida, tendencialmente, diria, a defesa do lado mais fraco. Mas obviamente, tudo isto é sempre dinâmico e, portanto, o grande risco num conflito é sempre aprendermos as lições da guerra anterior, prepararmos para combater uma guerra do passado, a guerra mais próxima do passado, e não percebermos que entretanto as coisas estão a evoluir e não acompanharmos essa evolução. Esse é um grande risco, diga-se, no caso da Europa, onde as coisas avançam sempre com grande lentidão e, portanto, acho que ao nível do discurso das declarações de intenções, já há uma noção muito clara destas questões, mas em termos da prática, das mudanças, dos investimentos com resultados práticos, em termos, por exemplo, de aumentar muito a capacidade de produção de armamento na Europa, nomeadamente drones, ainda estamos muito longe daquilo que seria necessário para lidar com esta realidade.

A par da guerra, Bruno, está a ser também dada especial atenção ao Mundial de Futebol, que está a acontecer na América do Norte. Estados Unidos, Canadá e México são os países organizadores. No momento de tanta fragmentação global, que leitura é que fazes desta dimensão geopolítica e geoeconômica deste torneio? E pergunto se o soft power do desporto ainda serve para aproximar nações ou tornou-se apenas mais uma arena de afirmação nacionalista e também ela propriamente dita comercial?

O desporto realmente tem essa tradição que remonta à antiguidade dos Jogos Olímpicos, os Jogos Olímpicos da antiguidade, os Jogos Olímpicos gregos. No fundo, a ideia que se tentou também retomar com os Jogos Olímpicos contemporâneos, modernos, a partir do final do século XIX, da trégua olímpica. Portanto, isso realmente acontecia na Grécia Antiga. Durante aquele mês dos Jogos Olímpicos, era suposto haver uma trégua, portanto, haver uma paragem nos conflitos armados, que eram relativamente frequentes entre as diferentes cidades-estados gregas. Mas realmente isso nunca se conseguiu reproduzir com os Jogos Olímpicos ou com o Mundial de Futebol, sempre foi um pouquinho mais retórica ou, se quisermos, boas intenções do que prática. Mas a verdade é que, objetivamente, este conflito entre o Irão e os Estados Unidos afeta o Mundial de Futebol. O Irão é uma das equipas Não era garantido que conseguisse entrar. Era suposto estar baseada no Arizona, num estado norte-americano, teve de mudar para o México. Pode ir jogar aos Estados Unidos, mas com condições muito restritivas e que podem até afetar a sua performance. Portanto, é bastante evidente que esta ideia da FIFA e do seu atual presidente, Infantino, que no fundo o futebol está acima da política, que está acima dos conflitos armados, que pode ser o grande pacificador, realmente não se confirma de todo. Eu diria que é mesmo dos grandes eventos desportivos recentes, nas últimas décadas, dos mais claramente afetados por conflitos, por choques geopolíticos, geoestratégicos. O mais evidente é realmente entre o Irão e os Estados Unidos, mas, por exemplo, há imensos problemas na questão dos vistos. No fundo, este fechamento dos Estados Unidos ao resto do mundo e a ideia que alguns pareciam ter, de que eventualmente haveria uma exceção para a FIFA e para o Mundial de Futebol, claramente não se confirma. Tivemos, por exemplo, aquele árbitro somali que foi impedido de entrar, enfim, uma série de outros problemas de vistos vários. Há inclusive tensões evidentes entre os organizadores, ou seja, isso também era suposto promover esta ideia de uma comunidade da América do Norte entre o México, o Canadá e os Estados Unidos, que são os três organizadores. Diga-se também o custo deste tipo de torneio cada vez mais parece levar a este modelo, que também é o que vai acontecer com o mundial em Portugal, mas sobretudo em Espanha e Marrocos, e depois ainda com os prolongamentos no Uruguai e no Paraguai. Portanto, de facto, cada vez mais é preciso haver vários países, a não ser que estejamos a falar de petroestados como o Qatar, para realmente arcar com os custos deste tipo de evento. Mas realmente essa dimensão de demonstração de comunhão entre o México, o Canadá e os Estados Unidos está longe de ser o caso. Ou seja, é evidente que as tensões continuam e que, de facto, o mundial não as resolveu. E portanto, acho que no fundo, longe de servir aqui como uma espécie de montra para a capacidade pacificadora do desporto, este mundial veio dar visibilidade a toda uma série de tensões que realmente não estão resolvidas, não ficaram resolvidas. Enfim, não sei se o Infantino irá dar um segundo prémio da Paz da FIFA a Donald Trump, mas claramente este prémio inventado, que não existia antes, dado pela primeira vez a Donald Trump, não o tornou mais pacífico, não parece ter tido aqui os efeitos desejados. Apesar de tudo, é verdade que realmente o desporto é um grande elemento unificador a nível mundial, ou seja, é uma das poucas coisas que merece algum consenso a nível global hoje em dia, é realmente que a maior parte das pessoas no mundo são grandes fãs de futebol. É de longe o desporto mais popular, até pela facilidade também com que se pode jogar. Não é preciso grandes equipamentos, não estamos a falar daquela espécie de armadura que os jogadores de futebol americano têm de usar ou de campos também que tenham grandes exigências técnicas, etc. Portanto, nesse aspecto, é verdade, o futebol continua a ser muito popular em todo o mundo, mas realmente não faz milagres na geopolítica.

Bruno, em FM estamos mesmo a ficar sem tempo, portanto vou propor que passemos para a recomendação e depois continuamos em podcast numa versão mais longa. O que é que tens para sugerir esta semana aos nossos ouvintes?

Bem, vamos a uma revista que eu costumo recomendar, que é a revista "Foreign Affairs", talvez a revista de divulgação de política internacional mais importante a nível global, e muitas vezes realmente publica artigos de grandes especialistas, à parte também de alguns teóricos. Ia recomendar este artigo da Florence Gaub e do Jonathan Eyt, "NATO's Permanent Crisis. The Alliance has survived eighty years of disagreements. It will survive again." Portanto, no fundo, a ideia da crise permanente na NATO. E a ideia de que a aliança tem sido muito resiliente ao longo destes 80 anos, algo que é muito importante e que os estudiosos sabem bem que é, de facto, sempre houve tensões entre aliados. Aliás, não há alianças duráveis que não tenham tensões entre aliados. Exatamente quais é que são as prioridades, qual é a distribuição de esforço. Portanto, isso é um clássico nas alianças. Uma aliança de sucesso consegue ir ultrapassando isso e construir-se com base nas convergências de interesses, de ameaças, etc. Mas eu acho que aqui o que é revelador é que o máximo que se consegue de um artigo que tenta ser relativamente otimista, ou seja, dizer "a NATO vai sobreviver", é dizer que vai fazê-lo à custa de uma crise permanente. E realmente parece-me que ser mais otimista do que isso é realmente difícil em relação à Aliança Atlântica. Ou seja, há aqui um nível de divisão entre aliados que, de facto, não víamos há muito tempo, uma enorme dificuldade em chegar a acordo sobre quais é que são realmente as ameaças prioritárias. Claramente, os Estados Unidos, Donald Trump, não veem a Rússia nessa categoria, a maior parte dos aliados europeus veem. E, portanto, acho que isso realmente promete grandes complicações para a Aliança Atlântica. Eu não sei se consigo ser assim tão otimista ou tão certo de que realmente a aliança vai resistir a esta crescente divergência de prioridades, de percepções, de ameaças. Eu espero que sim, mas não estou tão seguro como os autores do artigo. Mas em todo o caso, vale a pena ler Florence Gaub e Jonathan Eyt A Crise Permanente da NATO, NATO's Permanent Crisis na Foreign Affairs.

Bruno, vamos agora continuar em podcast com mais tempo e ainda temos aqui três temas para pôr em cima da mesa. Começamos pela cimeira do G7 em Evian, que terminou esta semana. Dias antes da cimeira, assistimos aqui a um passo inédito e que envolve a inteligência artificial. O governo dos Estados Unidos aplicou controles de exportação diretos para proibir o acesso estrangeiro aos modelos de IA mais avançados, neste caso da Anthropic, alegando riscos de segurança nacional. O que significa esta transição de bloquear chips para bloquear os próprios modelos de software e fazer-te esta pergunta se estamos oficialmente a entrar aqui numa questão também de, entre aspas, Guerra Fria do mundo da inteligência artificial.

Sim, eu acho que é exatamente isso, ou seja, estamos a falar de uma Guerra Fria no digital, no tecnológico, ou seja, de criação de blocos ou da tentativa de criação de blocos que são tecnológicos e securitários, mas em que obviamente não é apenas uma questão de tecnologia ou de segurança nacional, é também uma questão de interesses econômicos. A mim parece-me muito revelador e muito importante, é dos aspectos mais importantes, digamos, dos últimos dias em termos do futuro da política internacional. Realmente, a inteligência artificial é uma tecnologia com potencial brutal, extraordinário, sem precedentes, que pode transformar tudo, desde a economia à defesa, e esse potencial pode ser usado de forma positiva, mas também de forma muito negativa, ameaçadora, para desenvolver coisas como armas biológicas, vírus, para ciberataques muito mais sofisticados. Enfim, obviamente para ajudar em operações militares, mas podemos ter no futuro relativamente próximo, provavelmente, um avanço enorme na robótica militar com sistemas semiautônomos. Já temos um pouco disso, mas até eventualmente plenamente autônomos, se quiser avançar, se quiser correr esse risco, vamos dizer assim. Portanto, este é realmente um plano absolutamente decisivo no xadrez geoestratégico dos próximos anos. Acho que é muito revelador também que os Estados Unidos de Donald Trump começaram por ter uma posição completamente laissez-faire, portanto completamente permissiva. Vamos deixar desenvolver e não há aqui nada que o Estado deva fazer para perceberem realmente que isso é uma posição insustentável do ponto de vista dos próprios interesses de segurança dos Estados Unidos. Portanto, a própria administração Trump está a fazer aquilo que ainda há uns meses atrás dizia que a Europa não devia fazer, que é regular, restringir, limitar, digamos, as aplicações, os usos da inteligência artificial. Isso também revela uma enorme fragilidade da Europa, porque basicamente o G7 é um encontro, digamos, do Ocidente global, ou seja, das grandes economias europeias, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Itália, mais a União Europeia, que é um membro, digamos, embora não entre pro numo, é um membro de pleno direito desde 1981, e depois o Japão e o Canadá, para obviamente os Estados Unidos. Mas realmente o que isso também revela é que com Donald Trump, as questões realmente são sobretudo do interesse americano, econômico, securitário, o que seja, e ele ignora completamente uma distinção entre aliados e inimigos tradicionais. Portanto, historicamente, o que seria de esperar é que houvesse aqui alguma exceção, ou seja, que talvez a maior parte dos países não tivessem acesso, ou que países rivais dos Estados Unidos não tivessem acesso, a China, a Rússia, etc., mas que houvesse algum acesso ou pelo menos alguma conversa prévia com os aliados sobre isto e, de facto, isso não aconteceu todo. E, portanto, este é realmente um dos problemas, um dos grandes desafios da Europa também atualmente e nos próximos anos, que é regular, mas corre o risco de se regular sem inovar, vai estar a regular no vazio. Ou seja, o grande problema não vai ser as regras para usar determinada tecnologia, é que a Europa não tem essa tecnologia e não tem acesso, porque as grandes potências tecnológicas, que neste momento são sobretudo os Estados Unidos e a China, realmente não dão esse acesso à Europa, a não ser se isso lhes for conveniente ou para modelos com menos capacidades. Portanto, isso é realmente um desafio dramático pra União Europeia e que exige respostas a uma série de níveis. Por exemplo, criar realmente investimento à escala, criar mercados de capitais à escala, de capitais de risco à escala, é uma das questões centrais, mas também perceber como regular, talvez de uma forma mais inteligente. Mas este é realmente também um dos grandes desafios, uma das grandes desvantagens, uma área decisiva em que a Europa está a perder terreno de uma forma, digamos, um pouco preocupante, pra dizer o mínimo.

E Bruno, vamos agora até a América do Sul falar da vaga de direita e o efeito Trump. O Peru e a Colômbia estão aqui em pleno processo eleitoral, que está a ser marcado por uma polarização extrema. E queria te perguntar se podemos falar aqui da consolidação de uma vaga de direita com contornos trumpistas na América Latina e também, claro, é importante perceber qual é o impacto que poderá ter este cenário no Brasil de Lula da Silva, que é recandidato e que vai a eleições em outubro.

Bem, houve um ponto importante que me esqueci em relação ao ponto anterior, que é, apesar de tudo, nesta cimeira do G7, presidida pela França em Evian, realmente Donald Trump esteve e ficou até o fim. Macron, no fundo, foi muito hábil ao organizar aquele jantar em Versailles, que é o que ele gosta sempre muito, grandes palácios reais cheios dourados da Europa. Mas isso era só no fim, só depois do fim da conferência, só havia jantar se eu ficasse até o fim. Houve declarações finais, o que não tinha acontecido no passado algumas vezes com Donald Trump. Portanto, houve uma série de declarações de consenso entre os países do G7 sobre questões importantes, geopolíticas, sobre o combate ao tráfico de droga, a imigração ilegal Provavelmente isso era uma condição para os Estados Unidos aceitarem outras declarações, por exemplo, sobre a questão das matérias-primas críticas, mas não houve realmente, por exemplo, sobre esta questão da inteligência artificial, que é talvez a questão mais importante, e esse desacordo ficou bastante evidente, e o fato de não alterar esta postura, eventualmente, neste caso um pouco menos agressiva de Donald Trump e dos Estados Unidos, não altera o fundamental, ficou evidente nessa decisão em relação ao acesso aos modelos mais avançados da Anthropic. Voltando à questão que colocavas agora, tínhamos aflorado um pouco isso também na semana passada. Realmente, temos eleições muito renhidas no Peru. A verdade é que o resultado ainda não está fechado. Provavelmente só vamos ter resultados até meados de julho, é o que está a dizer a Comissão Eleitoral. Já foram contados mais de 99% dos votos, mas a Keiko Fujimori, candidata mais à direita, está realmente com uma vantagem de algumas dezenas de milhares de votos, ao volta de 40 mil votos. As eleições no Peru têm sido decididas assim: o Peru, nos últimos 10 anos, vai ter 10 presidentes, portanto, 10 presidentes em 10 anos, uma enorme instabilidade política. As últimas eleições têm sido sempre decididas com diferenças com menos de 1%. A própria Keiko Fujimori, que agora aparentemente é a vencedora, perdeu as eleições anteriores em 2021 exatamente por este tipo de margem, portanto, é uma sociedade muito polarizada. A questão da hiperpolarização das sociedades partidas em dois não é apenas algo dos Estados Unidos ou da Europa, é também uma realidade noutras partes do mundo, nomeadamente na América Latina, também no Brasil. Portanto, eu não acho que isto possa permitir antecipar o que vai acontecer no Brasil. Vamos ter neste domingo eleições na Colômbia, que são muito importantes também, podem resultar numa viragem à direita e numa derrota da esquerda, que está neste momento no poder com o presidente Petro. E realmente a Colômbia é, a par do México, do Brasil, depois daqueles países que já se perdiam, Venezuela, Nicarágua, Cuba, é neste momento a grande exceção a esta tentativa, de facto, de Donald Trump, de reconstruir o regionalismo, uma espécie de regionalismo ad hoc, sem tratados, sem grandes imposições institucionais, mas no fundo uma coligação regional, se quisermos, liderada pelos Estados Unidos, este Shield of the Americas, que no fundo se foca na resposta de mão dura à criminalidade organizada, ao tráfico de droga, na segurança pública, na militarização da resposta a essa ameaça, no fundo também na replicação um pouco do modelo de El Salvador, de Bukele, que foi um dos pioneiros, um dos promotores desta ideia também, juntamente com o presidente Noboa do Equador, grandes prisões, etc. Por exemplo, o candidato que poderá vencer na Colômbia, à partida está a liderar nas sondagens, Abelardo de la Espriella, que é um populista de direita promete construir 10 megaprisões no modelo de El Salvador, de Bukele, e promete realmente investir muito no que eles chamam Plano Colômbia 2, ou seja, num regresso à cooperação militar, à linha dura contra a criminalidade organizada, o tráfico de droga na Colômbia. Neste momento, os gangues colombianos já estão tão organizados e tão bem financiados que recorrem inclusive cada vez mais a drones nas suas guerras, nos seus conflitos. Já não estamos a falar do tiroteio clássico, mas realmente de ataques com drones armados por estes gangues. Isso diz bem do nível de sofisticação e de risco que estes grupos colocam. Isso não quer dizer que esta resposta seja necessariamente a melhor, mas também diz muito do grau crescente impaciência da opinião pública na América Latina com esta crise de segurança muito generalizada.

Uhum! E vamos ter de estar atentos a estes dois países para perceber qual é o desfecho deste ato eleitoral nestes dois países da América do Sul. Vamos fechar com o secretário de Guerra norte-americano, Pete Hegseth, que criticou a Nova Zelândia em Cingapura, na reunião da NATO, em Bruxelas, criticou os europeus e ameaçou com uma revisão e postura de força na Europa nos próximos seis meses. Bruno, a pergunta que não quer calar: o que é que podemos esperar até à Cimeira da NATO e quais são os países que, segundo estas declarações, podem estar mais em risco?

Por um lado, esta questão que é, realmente os Estados Unidos já estão também a criticar os aliados na Ásia e não apenas na Europa. Um dos paradoxos desta questão, o que mostra também que apesar de tudo a Europa ainda continua a pesar alguma coisa na cultura política americana, realmente esta obsessão com a Europa era um pouco estranha, porque os aliados asiáticos ainda gastam menos historicamente do que os aliados europeus. O Japão, por exemplo, estava no 1%. Historicamente também ajudam militarmente muito menos os Estados Unidos. E realmente a Nova Zelândia é aqui, eventualmente, um caso paradigmático disso, ou seja, é um país que gasta à volta de 1% em defesa, um país muito mais rico que Portugal, com alguns aspetos comparáveis, incluindo população, etc, mas que gasta à volta de 3 mil milhões, Portugal já vai nos 5 mil, a caminho dos 6 mil milhões, portanto quase o dobro. Realmente a Nova Zelândia terá percebido aqui qualquer coisa e já tinha declarado com o novo governo de direita, aliás, que ia realmente procurar aumentar para 2% até 2030, apesar de tudo, bastante tempo, e lá está, 2%, que atualmente já é a base De partida, na Europa, o que se fala só de despesa militar, para além de outras áreas complementares, é 3,5%. Realmente, Pete Hegseth, neste encontro, nesta conferência de segurança asiática em Shangri-La, em Cingapura, veio criticar a Nova Zelândia e outros países aliados asiáticos que têm de gastar mais. Mas, sobretudo, também quero sublinhar que essas críticas continuam em relação à Europa, e é um pouco bizarro, porque a realidade alterou-se muito substancialmente. O secretário-geral da NATO, embora sem responder diretamente, indiretamente, o que é muito raro nele, como sabemos, porque ele tende a alinhar completamente com o Trump, veio dizer que não é verdade. Ou seja, só neste último ano, o investimento em defesa na Europa aumentou 20%. Todos os países, basicamente, já estão nos 2%, com exceção da Espanha. Eu diria que os países mais vulneráveis são a Espanha, porque objetivamente é o único que resistiu a esta ideia de um aumento para os 3,5%, e porque tem um governo à esquerda que é bastante crítico publicamente ao Donald Trump, e isso é mais ou menos previsível, mas também é bastante claro que Sánchez não se preocupa com isso. Pelo contrário, acha que isso lhe é politicamente vantajoso. Mas depois há uma série de outros Estados que realmente também podem ter problemas. Estados como, por exemplo, a Eslováquia, do Robert Fico. Mas o problema, ou o paradoxo, é que esses são líderes que até parecem estar relativamente alinhados com Donald Trump e vai ser interessante perceber se, apesar disso, também serão alvo de críticas ou não. Para já, temos este desenvolvimento mais recente, que é uma crise com a Itália de Meloni, que Donald Trump, mais uma vez, acho que Meloni responde muito bem, dizendo algo que nós também sabemos, que muitas vezes Donald Trump inventa completamente, diz coisas que não é possível que sejam verdade. Meloni diz taxativamente: "É mentira que eu lhe tenha pedido, por favor, que me recebesse ou que tirasse uma fotografia comigo. A Itália não se humilha, não implora. Eu não implorei, a Itália não implora." O ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, que era alguém próximo de Berlusconi, cancelou uma visita aos Estados Unidos. O que isto mostra é, mais uma vez, algo que Meloni também diz, e eu acho que ela tem toda a razão, que é realmente este lado bizarro na postura norte-americana. Não é que Donald Trump defenda os interesses americanos ou queira que os europeus gastem mais em defesa, isso é algo que muitos presidentes americanos, por regra, fizeram no passado. Agora, esta questão de realmente, sistematicamente, ter uma postura extremamente crítica, muitas vezes até insultuosa, humilhante em relação a países aliados que durante décadas realmente foram muito úteis para os interesses americanos, ao mesmo tempo que tem uma postura sempre muito elogiosa, muito simpática, muito diferente para com grandes potências historicamente hostis aos interesses americanos, que têm como objetivo declarado, ainda hoje, reduzir a influência e o peso dos Estados Unidos no mundo, isso realmente é bastante paradoxal e bastante criticável, e realmente é um problema na gestão de uma aliança como a aliança atlântica. Uma coisa é haver divergências em pontos concretos, outra coisa é haver inclusive esta perceção da parte de cada vez mais líderes europeus, inclusive líderes da direita europeia, de que realmente Donald Trump não respeita minimamente os aliados, não respeita minimamente os líderes dos países aliados. E realmente isso parece-me que é uma receita para, lá está, se calhar uma crise permanente na NATO ou, eventualmente, algo até ainda mais grave.

Bruno, é desta forma que fechamos esta edição do "Cinco Continentes". Se tiver perguntas, dúvidas, pode escrever-nos através do nosso e-mail ouvinte@observador.pt. Pode também deixar-nos mensagens escritas ou de voz através do WhatsApp, através do número 910024185, através também do Spotify. Pode deixar comentários a cada novo episódio. Bruno, estamos cá no próximo sábado. Um grande abraço e boa semana.

Obrigado, João. Obrigado a todos e boa semana.