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A caminho de Belém, na Rádio Observador. Último dia de campanha eleitoral, com até três conselhos que decidiram adiar o voto por uma semana. Há algumas freguesias ainda a fechar esta decisão e, no fundo, até à abertura das urnas é possível aos autarcas, avaliando as condições, decidir se há ou não voto naquela freguesia. Vamos ter também uma rara segunda volta nas presidenciais já no próximo domingo. António José Seguro lidera as intenções de voto, mas há muitas dúvidas sobre a abstenção, os votos em branco, os votos nulos e ainda as consequências que tudo isto terá na votação em cada um dos candidatos. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.

E conosco estão João Varandas Fernandes, apoiante de António José Seguro, e Felicidade Vital, apoiante de André Ventura. Bem-vindos, obrigada por terem aceitado o nosso convite. Eu começo por si, João Varandas Fernandes. No último dia de campanha, qual é a maior preocupação da candidatura de António José Seguro?

Boa tarde a todos, cumprimento todos os presentes. Obrigado pelo vosso convite. É um gosto eu estar aqui nos vossos estúdios. A primeira preocupação que nós temos na candidatura é que as pessoas que estão neste momento a ser vítimas de uma calamidade e de uma grande catástrofe tenham o máximo de apoio possível. A nossa preocupação maior são as pessoas e, portanto, as pessoas têm que ter todas as condições pra poder voltar à sua vida normal, sabendo nós que vai demorar bastante tempo ou algum tempo para o poderem fazer. Certo é que a preocupação neste momento é as pessoas que possam ir votar, obviamente, devem exercer o seu direito de voto e devem ter todas as condições pra poderem se deslocar aos seus locais de voto. Mas acima de tudo, a nossa preocupação é a segurança das pessoas e é as pessoas tentarem voltar à sua vida normal. Sabendo nós que, e nós temos experiência disso na nossa atividade profissional, isto são catástrofes que deixam sempre marcas em todas as famílias, em todas as pessoas. Em determinadas regiões, deixa sempre uma marca que é um retrocesso. É um retrocesso de anos de acumulação de bens, de amizades, e que se desvanecem de um momento pro outro. E portanto, acho que o país deve estar atento a isto e a preocupação que nós temos da candidatura de António José Seguro é às pessoas, sem deixar de dizer que as eleições têm que se realizar. Aliás, conforme disse a Comissão Nacional, tem que se realizar, obviamente, respeitando a lei, que se não erro é a 81, a lei da Constituição, tem que se realizar, sendo certo que aquelas que não puderem ser feitas ou não puderem ser efetuadas, porque as pessoas não se podem deslocar ou porque os locais de voto não estão acessíveis, devem repetir as eleições daqui a oito dias, conforme também diz a lei. E se não forem feitas, infelizmente, as pessoas, perante a lei, também não vão votar. Agora, o problema é que as pessoas vão todas votar, obviamente, é importante. Vivemos em democracia, felizmente, e portanto, é importante que as pessoas vão todas votar e que façam um esforço pra poderem ir votar, mas acima de tudo, a nossa preocupação é com as pessoas.

Felicidade Vital, André Ventura já está mais pacificado com o fato de não haver esse adiamento como pretendia a nível nacional?

Antes de mais, obrigada pelo convite, cumprimentá-los a todos, cumprimentar também as pessoas que estão lá em casa a ouvir-nos. E também deixar uma palavra de solidariedade para todas as pessoas que perderam as suas casas, os seus bens, sentimentos profundos àquelas pessoas que infelizmente faleceram e também um agradecimento profundo a todas as pessoas que estão no terreno a trabalhar 24 sobre 24 horas, sem descansar e sem comer. Em relação à questão que me fez, não é uma questão de estar pacificado. A questão é que neste momento, e permita-me discordar com o João Varandas Fernandes, a preocupação de André Ventura são as pessoas e António José Seguro não parece estar preocupado com as pessoas. A mensagem que António José Seguro está a passar é que está mais preocupado com ele próprio, com o fato de vir a ser eleito presidente da República, do que com as pessoas que estão no terreno a sofrer. Uma pessoa que esteja sem casa, sem luz ou com água a entrar no telhado, sem poder, por vezes, fazer a sua higiene de forma como costumava fazer até agora, não tem capacidade, mais que não seja mental, para ir votar depois de amanhã. E mais, esta noite vamos ter mais uma tempestade, que é a Marta. Não sabemos quais são os estragos que essa tempestade vai provocar amanhã, sábado. Portanto, não sabemos em que condições é que as pessoas estão no domingo para ir votar. O que me parece é que António José Seguro está preocupado com o fato de se adiarmos uma semana as eleições, ele continua a descer, porque reparem, ele desceu 10 pontos numa semana. Cada vez mais se está a aproximar de Ventura ou Ventura se está a aproximar de António José Seguro. E portanto, a mensagem que ele está a passar é que não está preocupado com as pessoas. Ainda hoje, no Porto, perguntaram-lhe se ele ia visitar as zonas afetadas pela cheia e a resposta dele foi que não, que não iria. Portanto, está pouco preocupado em ver o que se passa no terreno, está pouco preocupado em apoiar as pessoas. Nós, na candidatura de André Ventura, temos feito tudo o possível e o impossível por ajudar as pessoas.

João Varandas Fernandes, quero...

Isto não é direito de resposta, eu não vim aqui para estar a ofender ninguém, nem pra estar a julgar ninguém. Eu venho aqui de uma forma positiva e de uma forma construtiva.

É um debate. É uma conversa.

Eu sei, mas estar a dizer que o doutor António José Seguro só pensa nele é uma coisa profundamente errada, é profundamente demagógico e é falso. Eu conheço o doutor António José Seguro há 35 anos, se há pessoa que nunca pensou nele, foi ele E, portanto, não é verdade aquilo que está a ser dito agora aqui. Pode ser dito por motivos políticos, mas atenção, há percepções que as pessoas têm e há sentimentos que as pessoas manifestam que não correspondem à realidade. Primeiro aspecto. O segundo aspecto, o doutor António José Seguro está tão preocupado ou mais com os portugueses, como sempre esteve, desde que é candidato agora presidencial e quando teve a sua atividade política, que deixou há 10 anos. Agora, não é demagógico. Não é demagógico, nem levanta falsos testemunhos. Isso não faz. Não faz, até porque nós, na nossa candidatura, não temos esse princípio. Temos o princípio de respeitar todos os adversários, e nomeadamente o adversário agora. E, portanto, não nos vamos por aqui a fazer levantamento de suspeições onde elas, de facto, não existem. O doutor António José Seguro sempre foi disponível, sempre esteve disponível para ouvir as pessoas todas e continuará a estar. Está ao lado das pessoas e da preocupação que as pessoas têm. Nesses últimos 10 anos, na sua vida simples de profissional, sabe o que as pessoas precisam, sente as pessoas. Agora, há uma coisa que é absolutamente verdade. Doutor António José Seguro não é mentiroso, não falseia, não cria contrainformação, não cria falsa informação, nem pretende com isso obter votos. Doutor José Seguro não tem medo nenhum das eleições, seja em que altura for. Isso posso lhe garantir. Agora, não é o doutor António José Seguro que manda na lei. A lei está estipulado que as eleições são neste debate. Aliás, o próprio presidente da República já se pronunciou sobre isso. E existe, de facto, uma comissão nacional de eleições que se pronunciou dividida. Agora, temos que respeitar a lei, não há aqui manobras de lei. Temos que respeitar.

As eleições, de facto, não podem ser adiadas, essa é a determinação da lei. Eu queria lhe perguntar, agora mudando de assunto, António José Seguro admitiu, pela primeira vez, que com uma abstenção muito elevada, poderia até perder eleições. Isto não é uma declaração, uma dramatização muito exagerada?

Não sabemos. A política é feita, conforme nós já vimos aqui, é feita de dramatizações. Eu não sou político profissional e, portanto, eu não posso estar a imaginar o que é que um político profissional dirá numa situação dessas.

Mas isto prova uma preocupação com a abstenção.

Não há uma preocupação nenhuma. Há uma campanha que foi uma campanha como toda a gente viu. É uma campanha a compreender as pessoas junto da população, com as suas próprias ideias, de uma forma pragmática, de uma forma democrática, de ouvir as pessoas e de uma forma, acima de tudo, progressista e humanista. E é suprapartidário. Ele, neste momento, não está vinculado a partido nenhum. É preciso ser dito isso. E, portanto, obviamente, todos nós temos o nosso passado, temos as nossas raízes, que são de respeitar, mas temos aqui ele, sempre quando anunciou a candidatura, é suprapartidário. A preocupação dele é que as pessoas votem, obviamente, como qualquer cidadão português responsável, quer que as pessoas partilhem. Quanto mais pessoas participarem no ato eleitoral, maior é a legitimidade. Obviamente que será assim. Agora, é evidente que com estas condições de catástrofe que nós estamos a viver, há de haver algum número de pessoas, não sei se são muitas, se são poucas, calcula-se que são alguns milhares de pessoas que possam não vir a participar, mas têm a oportunidade de participar daqui a oito dias, nove dias. Essa faculdade é concedida às pessoas. Agora, não há aqui mais nada a não ser isso. Não há qualquer apreensão.

Bem, eu gostava apenas só de responder aqui a duas pequenas questões. Quando diz que António José Seguro respeita os adversários, eu gostaria de recordar aqui algo que António José Seguro disse, penso que foi esta semana, uma notícia: "Adverte contra pesadelo de perder para Ventura." Ora, alguém que respeita um adversário.

Foi ontem.

Foi ontem. Alguém que está em democracia, que está a participar numas eleições democráticas.

António José Seguro dizia que seria um pesadelo para quem o quer ver na presidência da República, se Ventura fosse eleito devido à abstenção. É mais ou menos isso.

Pronto, mas o que ele disse foi que era um pesadelo se André Ventura fosse presidente da República. Ora, se o povo votar em André Ventura para ser presidente da República, não é pesadelo nenhum, é a vontade do povo.

Que era Ventura ganhar por falta de comparência do outro lado.

Não, Ventura não vai ganhar por falta de comparência. Ventura, se ganhar, ganha por comparência das pessoas que vão lá votar nele. Outra situação.

Deixe-me fazer esta pergunta.

Diga.

Porque a Felicidade Vital é deputada, conhece bem o CHEGA, conhece bem também o eleitorado. Eu tento sempre isto junto dos nossos convidados, tentar retirá-los um bocadinho do apoio claro. É mais fácil mobilizar o eleitorado do CHEGA e de André Ventura do que mobilizar o eventual eleitorado de António José Seguro?

Não, neste momento, nós estamos a conseguir mobilizar muita gente para além do eleitorado de André Ventura, exatamente com as ações que temos no terreno. Ainda hoje recebi um vídeo da entrega das lonas dos nossos outdoors, que quando chegam aos pontos de recolha e de distribuição, são as primeiras a serem desejadas, digamos, porque são muito úteis devido à dimensão e aos ilhoses que têm para prender nos telhados. Todas as ações que fizemos de solidariedade pelo país inteiro, nós interrompemos a campanha. Interrompemos a campanha para fazer ações de solidariedade. Toda a estrutura, neste momento, está focada em recolher bens, em distribuir bens, em ajudar os idosos que estão sozinhos, as pessoas que têm possibilidade de ajudar na reparação dos telhados para que mais rapidamente a chuva deixe de entrar na casa das pessoas. E o que estamos a sentir neste momento é que as pessoas estão a optar entre um presidente que está perto das pessoas, que vai ao terreno, que ajuda as pessoas, e um presidente que está preocupado com a campanha eleitoral, está preocupado em continuar com a sua campanha eleitoral e nem sequer quer adiar umas eleições que, como já vimos aqui, não temos as condições para fazer. E deixem-me só dizer-vos que se o estado de emergência fosse decretado, haver ou não haver eleições é uma decisão política, não é uma questão de lei.

Acha que há razões para decretar o estado de emergência?

Então não há razões? O centro do país está completamente destruído. Claro que há razões. A lei não pode ser um impedimento ao bem-estar da população.

O estado de emergência é uma situação

Extrema.

Decretou-se na altura do Covid.

Exatamente. Mas aí é diferente.

E na altura do Covid era uma situação diferente. E por isso as eleições realizaram-se, porque as pessoas tinham a capacidade de ir votar.

Temos que suspender alguns dos nossos direitos constitucionais.

Mas com o de calamidade também perdemos alguns dos nossos direitos, por exemplo, o direito a termos que deixar as forças de segurança no terreno entrarem dentro da propriedade, esse, por exemplo, é um dos direitos que perdemos.

Em caso de necessidade extrema podem entrar.

Agora, parece-me que nós estamos aqui parados na lei e estamos pouco preocupados com as populações. E neste momento, o que nós sentimos no terreno é que estamos a ganhar muitos eleitores pelo fato de estarmos junto das populações.

Eu compreendo aquilo que diga e entendo. Só que não é verdade. Desculpe que lhe diga, com todo o respeito, não é verdade aquilo que está a dizer. O doutor António José Seguro tem todo o respeito pelas populações, parou a campanha eleitoral para visitar sítios sem a presença da comunicação social.

Pois não sabemos se foi, se não foi. Não estava lá a comunicação social. Podia simplesmente ter telefonado a três presidentes de câmara, nós não sabemos.

Telefonou a todos os presidentes de câmara, não fez show off, não quis as televisões com ele e não divulgou. É a maneira de ser e a maneira de estar junto das populações sem fazer show off. Primeiro aspeto.

Os eleitores não viram.

Segundo aspeto. Mas há muita coisa que não se vê e que é bem feito, como é o caso. Agora, segundo aspeto. Esta catástrofe importa tirar daqui conclusões. A prevenção em relação às catástrofes em Portugal não são bem feitas. Os senhores estão na Assembleia da República há seis anos e neste momento eu não vi nenhuma proposta de lei para pôr, por exemplo, 3091 geradores nas Juntas de Freguesia. Os senhores não fizeram nenhuma proposta de lei de prevenção e estão lá há seis anos e estão no poder legislativo. E portanto, os senhores não fizeram. Quem está na Assembleia, nomeadamente os senhores, não têm a preocupação. Têm agora porque estão a ver que as eleições se estão a aproximar, que vão perder as eleições e no meu entender, perdem bem, porque de facto vocês não representam a vontade geral do povo português.

Vamos ver.

Vamos ver? Claro que vamos ver. Agora, há aqui uma coisa que é segura: o país não está prevenido para este tipo de catástrofes. Primeiro aspeto. Segundo, há que legislar e há que alterar tudo o que seja feito em termos de prevenção. Não é só para catástrofe com águas e com chuvas, é catástrofe de terremotos, de ciclones, do Covid.

Estou perfeitamente de acordo consigo aí. E o PSD esteve no governo há dois anos e não fez nada. O PS esteve oito anos.

É importante ver o futuro. Mas o PS, eu não tenho nada a ver com o Partido Socialista, tenho respeito os partidos políticos. E o doutor António José Seguro não está no Partido Socialista há 10 anos.

Sempre esteve.

E não está no Parlamento. Isso é uma verdade inelutável, portanto, não vale a pena estar aqui a falsear. E portanto, só para lhe dizer o seguinte, e com todo o respeito lhe digo isto, não vale a pena entrar num caso destes, que há catástrofe, há pessoas a sofrer, num jogo partidário de luta em que não leva a lado nenhum. Os senhores estão a tentar fazer uma luta que não leva a lado nenhum, que é uma luta demagógica. Os senhores querem adiar as eleições por quê? Porque as pessoas não podem votar? Já está provado que é uma pequena minoria de pessoas que não podem votar e é lhes dada a oportunidade de irem daqui a oito dias votar. E mais, há uma coisa que é importantíssima. É importantíssima, que é: as pessoas são livres de votar. E as pessoas votam em quem muito bem entenderem quando forem esclarecidos. Não é sob pressões, nem sob falsidades, nem distorções da realidade, nem pressões erradas.

A quem está a fazer pressão é o António José Seguro.

Eu terminava já. Eu não aceito que seja feito insultos gratuitos ou difamações gratuitas de falta de presença ou não querer estar presente porque as eleições podem dar um resultado que não é agradável. Não é nada disso.

Vamos só ver a Felicidade Vital para fechar.

Apenas dizer que quando somos acusados de falta de demagogia, eu pergunto se demagogia é fazer o que muitos portugueses fizeram, que muitos saíram de Lisboa, do Porto, de vários locais do país e foram para Leiria ajudar as pessoas, então todos esses portugueses são demagogos.

No próximo domingo vamos ter eleições presidenciais. Muito obrigado, Felicidade Fernandes. Muito obrigado, Felicidade Vital, por terem estado neste Caminho de Belém, o último destas presidenciais de 2026.