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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o eclipse total de 1912 que teve mais destaque que o naufrágio do Titanic. A 15 de abril de 1912, dois dias antes de um eclipse total do sol, o Titanic naufragava, mas a notícia eclipsou-se da imprensa portuguesa desses dias, devido ao fenômeno que haveria de trazer a Portugal centenas de astrônomos à procura do melhor lugar para observar o momento em que a Lua fica entre o Sol e a Terra. Nesse ano, Ovar haveria de ser o centro de todas as atenções. Mais de 100 anos depois, o epicentro vai ser o Parque Natural de Montesinho, em Bragança. Vou conversar com o Martim Andrade, jornalista da editoria de sociedade do Observador, que está no ponto de Portugal continental, onde o sol vai desaparecer completamente durante alguns segundos ao fim da tarde. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de quarta-feira, 12 de agosto. Bem-vindo, Martim.
Obrigado, Luís.
Martim, já vamos fazer uma viagem ao passado, mas primeiro, estás no ponto de Portugal continental onde o eclipse vai ser visível na totalidade. Queria começar por te perguntar se já se notam impactos disso mesmo por aí.
A nossa visibilidade até agora está bastante reduzida dos impactos do eclipse, porque nós acabamos mesmo agora de chegar ao hotel. Hotel que está cheio. Nota-se já que o parque de estacionamento está totalmente lotado. A única coisa que nós vimos foram alguns turistas, um grupo de turistas americanos, que, a não ser que seja uma grande coincidência que estarem aqui em Bragança na altura de um eclipse, nós assumimos que estão aqui de propósito. Mas mesmo nas paredes do hotel nota-se claramente que há muitos cartazes afixados para eventos, festas especiais que vão haver, que houve ontem, que vão haver hoje, vai haver amanhã, vai haver no dia a seguir e, portanto, nota-se claramente que todos os focos estão para o eclipse.
Martim, vamos então viajar no tempo até 1912. Mergulhaste na imprensa da época e se hoje estás no nordeste transmontano, há mais de 100 anos, Ovar é que foi o centro das atenções.
É verdade, o último eclipse total em Portugal foi em Ovar, em 1912, em 17 de abril de 1912, para ser mais preciso, numa altura em que Ovar estava longe de ser a cidade que é hoje. Descrevia-se na imprensa, eu hoje estive a vasculhar vários jornais da época, em que diziam que Ovar era uma cidade pobre, com um planeamento urbano que deixava um pouco a desejar. E que claramente não estava equipado para receber um grande volume de pessoas, como acabou por receber. Descrevia-se alemães, ingleses, russos, franceses, todos aos centenares, que era a expressão que eles usavam na época para descrever centenas e centenas de pessoas que se deslocaram até Ovar. Aquilo é engraçado porque a certa altura percebemos que os governantes da Primeira República, porque tinham-se passado apenas dois anos desde a implantação da República, estavam focados em trazer o máximo número de pessoas a Ovar naquela altura e, portanto, até fazem anúncios de preços reduzidos para chegar a Ovar de comboio. Todas as atenções estavam em Ovar nessa altura. Houve também um outro eclipse em Ovar, curiosamente, 12 anos antes, em 1900. Esse sim, um eclipse solar total que durou mais de dois minutos de totalidade naquela zona. Este, de 1912, foram só dois segundos. Não foi uma coisa como vai ser aqui em Rio de Onor, principalmente para nós, uma coisa que vai ser extraordinária. Foram só dois segundos, mas de certeza que valeu a pena para todos aqueles que viajaram na altura para Ovar. De certeza que era mais complicado do que hoje em dia.
Claro, e o certo é que nessa altura, Martim, ao contrário de hoje, não se sabia exatamente a forma como é que o eclipse ia acontecer, não é?
Sim, eles tinham ideia de que, através de cálculos e de todas as observações astronômicas que conseguiam à época fazer, que ia haver um eclipse numa grande faixa, que ia desde a América do Sul até Portugal, passar por Ovar, por Paris, ia até à Sibéria também, portanto, era uma faixa longa que ia percorrer vários continentes, mas não sabiam exatamente de que forma é que o eclipse se ia manifestar. Ou seja, não sabiam se iria ser total, se iria ser parcial, se iria ser anular. Não sabiam de que forma é que se iria manifestar, principalmente aqui em Portugal. Sabiam que em Paris não iria ser total. Sabiam que noutras localizações também não iria ser total e que a questão de Ovar seria a mais provável de atingir a totalidade. Não sabiam durante quanto tempo ou sequer não tinham a confirmação mesmo que ia acontecer. E é engraçado ver que havia várias nacionalidades que viajaram durante dias e dias para chegar a Portugal, ao exemplo de vários astrônomos conhecidos, como é o caso do Thomas William Backhouse, que foi o fundador do Observatório Astronômico de Sunderland, no Reino Unido, que viajou durante dias num barco para chegar a Lisboa com mais de uma semana de antecedência do eclipse e depois, à saída do porto onde atracou, no Diário de Notícias da época, perguntaram-lhe: "E o que é que espera do eclipse?" E ele: " Espero que seja um segundo, dois segundos, no máximo, de totalidade, seria já bom pra mim". Para termos uma ideia, não havia o grau de informação que nós temos hoje, o grau de detalhe. Se hoje sabemos que em Rio do Onor vão ser 26 segundos de totalidade, na altura era só imaginar que pudesse ser, se calhar, um, dois segundos. De precisão, de totalidade.
Martim, em 1912 não existiam os óculos certificados que tanto se anda à procura hoje ou mesmo os filtros que também temos hoje em dia. Como é que os portugueses, em particular, e daquilo que consigo também perceber através da imprensa e das fotografias que viste, como é que os portugueses acompanharam este fenômeno na altura?
É engraçado, porque mesmo na altura não era só dedicado aos astrónomos, apesar da cobertura mediática ser mais focada nos astrónomos profissionais, que viajaram de todo o mundo para Ovar para observar o fenômeno. Havia também, claro, o português curioso que ia à varanda, que ia pra rua para ver. E aí os jornais até, apesar de se calhar erradamente, com os olhos de hoje, recomendavam a utilização de vidro fumado, para as pessoas levarem aos olhos e verem o eclipse, o sol com o vidro mais escurecido.
E já vamos perceber que isso não deve ser assim. Mais à frente vamos falar disso.
Sim, e usavam o vidro fumado. Depois também recomendavam, caso tivessem em alguma proximidade um telescópio profissional, daqueles que os astrónomos traziam. Mas também há fotografias que são muito curiosas de pessoas, por exemplo, no Rossio, em Lisboa, a olhar pro reflexo de uma fonte para ver o eclipse, ou seja, usar o reflexo causado pela água para olhar para o sol de uma forma mais ou menos segura, pelo menos não entrava em contacto direto com o sol.
Estavas a falar de Lisboa, Martim, além de Ovar. Naturalmente que o fenômeno foi acompanhado noutras cidades do país. Que outras coisas curiosas é que a imprensa da época descreve a esse propósito?
Sim, porque como referi, o eclipse só foi total em Ovar. E, portanto, só mesmo naquela zona durante dois segundos é que foi total. Todo o resto do país também teve um eclipse, um eclipse parcial, não tão impressionante, mas que continua a ser impressionante. Mas continua a haver relatos de pessoas que foram, por exemplo, para Penafiel, mais especificamente para uma aldeia, que é a aldeia de Rande, que por ser num monte elevadíssimo, era como descreviam na imprensa nacional, que houve um grande entusiasmo a ir pra lá também, porque era um bom ponto de observação. Para além dos portugueses daquela zona, também houve astrónomos que decidiram ir pra lá também para fazer outro tipo de observações, não só do eclipse total. Houve pessoas, por exemplo, no Castelo de Palmela, a ir pra lá para fazer outros estudos também. Por exemplo, este caso foram quintanistas de medicina, ou seja, alunos de medicina em Lisboa, que se dirigiram até ao Castelo de Palmela com telescópios de alcance para ver o eclipse. Em Sintra, foi no Palácio da Pena, com vidros fumados ou vasilhas com água, onde se refletisse o sol, é o que dizem também os jornais, mas também em Lisboa, no Porto. Todos esses sítios foram palcos de observação do eclipse. Notam a imprensa nacional outras observações, como por exemplo, em Rio Maior terem visto Vênus, em Santarém dizem ter visto nitidamente Júpiter, no Porto dizem ter visto Mercúrio durante vários minutos e, portanto, o detalhe da observação varia muito consoante o ponto onde está no país.
E certamente vai acontecer também mais logo no eclipse de hoje. Mas centrando-nos precisamente em 2026, Martim, o que é que podemos esperar do fenômeno de mais logo à tarde? Já disseste que aí onde estás vai ser durante 20 e tal segundos, mas vai ser um bocadinho diferente ao longo de todo o país, não é?
Sim, aqui em Rio do Norte, aliás, agora estou em Bragança, mas vou estar a ver o eclipse em Rio do Norte, onde vão estar 26 segundos de totalidade. Vai ser o único ponto do país onde isto vai acontecer. Mas de resto, por exemplo, aqui em Bragança há todo um cartaz de festas e eventos que começam à tarde de hoje no Aeródromo de Bragança. Esperam-se milhares e milhares de pessoas para assistir ao fenômeno em conjunto. Mas em todo o território nacional existem focos de observação, seja no Porto, seja em Lisboa, seja em Faro. Todos os pontos do país vão poder ver o eclipse de uma forma ou de outra, seja no Algarve com 93% de ocultação, seja no Porto com 99%. Portanto, de qualquer forma, mesmo que não seja na totalidade, eu acho que toda a gente vai arranjar os seus óculos, vão sair à rua, olhar pro sol de forma segura e com cuidado e de certeza que vai ser interessante.
Ora, e precisamente pegando nesse ponto, Martim, já que falaste de como é que era em 1912 e naturalmente que hoje há cuidados que temos que ter para observar este fenômeno sem ficar com qualquer tipo de mazela por causa da luz solar, não é?
Sim, o mais importante é mesmo termos os óculos certificados com o ISO 12312-2, que é aquele número que toda a gente tem ouvido nesses últimos dias. Mas é de facto importante que os óculos que utilizam ou o equipamento de proteção que utilizem tenha este filtro específico para bloquear a maior parte da radiação solar, mesmo para garantir que não provocamos qualquer tipo de lesão ocular, que pode ser muito grave e permanente nos olhos. É importante também termos atenção a não estar a olhar permanentemente para o sol, mesmo que tenhamos os óculos. O fenômeno vai acontecer de forma gradual, ou seja, aquilo vai acontecer durante duas horas e, portanto, o que os especialistas recomendam é: colocamos os óculos durante 10, 15 segundos, olhamos para o sol, tiramos, esperamos 10, 15 minutinhos e depois voltamos a pôr, porque naquele espaço de tempo não vai acontecer nada de diferente e, portanto, até nem precisamos de ter um par de óculos por pessoa, basta ir rodando num grupinho, se estiver a ver em grupo, senão, ter esse cuidado de qualquer forma. De resto, se não tiver óculos, pode arranjar outras formas de ver, não através de radiografias, como se tem falado muito também de experiências passadas, mas nós no Observador publicámos um vídeo, um tutorial de como fazer uma caixa, um projetor a partir de casa, de métodos caseiros, que também dá, apesar de não estar de frente pro sol.
Isso é de forma indireta.
Exatamente. Também é uma forma de acompanhar o fenômeno e garantir que mantém a sua saúde.
Martim, obrigado e bom eclipse.
Obrigado, Luís.
Martim Andrade é jornalista da Editoria de Sociedade do Observador. Esta foi a história do dia. O som que escutámos no início do programa foi retirado do filme Titanic. A sonoplastia é do Rafael Pego. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Até amanhã.