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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a era dos dois papas terminou ou começou? Esta é a voz do Papa Bento XVI, que a 11 de fevereiro de 2013 surpreendia o mundo ao declarar, em latim, que não sentia capacidade para continuar a liderar a Igreja Católica. Perante a renúncia, foi eleito um novo Papa, Jorge Bergoglio, que assumiu o nome de Francisco. Em dezembro do ano passado, o Papa Francisco assumia numa entrevista ao jornal espanhol ABC, que tinha assinado uma carta de resignação em 2013, uma precaução para se algum problema de saúde o impedisse de cumprir os deveres. Não foi a primeira vez que aludiu à hipótese de resignação. Em julho de 2022, quando regressava a Roma de uma visita ao Canadá, dizia aos jornalistas no avião que não há qualquer problema em mudar de Papa. Bento XVI foi o primeiro Papa a renunciar em cerca de 600 anos. O funeral é esta quinta-feira. A morte de Joseph Ratzinger põe fim a um período de 10 anos em que foram dois os papas no Vaticano. Este funeral é o fim de uma era ou o início de outra? O enviado especial do Observador a Roma tem procurado respostas para esta pergunta. Eu sou o Ricardo Conceição e este é um episódio especial da História do Dia, gravado em Roma pelo jornalista João Francisco Gomes.
Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista do Observador e estou na Praça de São Pedro, no Vaticano, onde esta quinta-feira é celebrado o funeral do Papa emérito Bento XVI. Estou a gravar esta introdução na véspera do funeral. Nesta altura, a Praça de São Pedro está a esvaziar-se. Já fecharam as portas da Basílica de São Pedro, onde o corpo do Papa emérito esteve exposto durante os últimos três dias e por onde passaram quase 200 mil pessoas. Entrar na Basílica de São Pedro é uma experiência de silêncio e reflexão. Uma fila enorme de pessoas, que quase dava a volta à Praça de São Pedro, entra pelo lado direito, percorre o corredor central da Basílica de São Pedro até ao lugar onde está exposto o corpo de Bento XVI, fica lá por breves segundos, mas poucos, porque a polícia do Vaticano faz questão de manter a fila em permanente andamento, e sai pelo lado oposto, sempre em silêncio. O corpo de Bento XVI está exposto desde segunda-feira, como manda a tradição, com as vestes vermelhas, mas desta vez sem o pálio, o típico símbolo da jurisdição do Papa, o que nos lembra que Bento XVI morreu não como papa em funções, mas como papa emérito. Neste momento, como se pode ouvir pelo barulho em fundo, já se montam as baias de segurança para aquilo que será uma operação especial esta quinta-feira na Praça de São Pedro. São esperadas perto de 100 mil pessoas no funeral de Bento XVI, que será um funeral inédito. Vai ser a primeira vez, mas talvez não venha a ser a última que um papa em funções enterra o seu antecessor. Foi justamente sobre isso que falei esta semana com o diácono português Jorge Oliveira, de 39 anos, aqui em Roma, quando me sentei com ele numa esplanada a poucos metros da Praça de São Pedro. O Jorge Oliveira foi um dos poucos que tiveram o privilégio de estar presentes no Mosteiro Mater Ecclesiae no domingo, um dia depois de Bento XVI morrer, e de participar naquele que foi o primeiro e mais íntimo velório do Papa emérito, antes do corpo de Bento XVI ter sido transportado para a Basílica de São Pedro. Nesse dia, no domingo, eu tinha um encontro com uma família amiga aqui perto do Vaticano e depois pensei: "Olha, vou me aproximar de São Pedro", mas foi de facto um ato meio irrefletido, porque tinha muito trânsito. Aliás, eu tive mesmo que deixar de vir cá porque estava muito trânsito. Um percurso que habitualmente dura 15 minutos, eu demorei 45 minutos a fazer porque havia muita gente. Mas quando cheguei, estive na praça, estive a rezar e recebi um WhatsApp de um colega de doutoramento americano que me disse: "Olha, o mosteiro onde vive o Papa Bento XVI, dentro do Vaticano, a Mater Ecclesiae, está aberto para que as pessoas possam ir lá rezar". E eu pensei que aquilo era tudo demasiado mágico, demasiado fácil, mas de facto foi isso que aconteceu. Tive que fazer os controles de segurança, passei os guardas suíços
Uma percepção que uma pessoa tem é que é um sítio tão bonito e onde eu não vou habitualmente, porque aquilo é um sítio vaticano. Só de estar ali, para mim foi uma coisa espetacular.
Só para enquadrar, o mosteiro onde vivia Bento XVI. O velório tinha começado ali numa pequena capela antes do corpo ser transferido para a basílica.
No dia anterior, nesse domingo, estava em câmara ardente na sua capela privada, ou seja, onde Bento XVI morreu. Ou seja, na casa onde ele morreu e onde ele celebrava missa e onde fazia a sua oração. O seu secretário pessoal dizia que aquele era o seu laboratório, ou seja, onde ele trabalhava de alguma maneira nos últimos 10 anos. E é um sítio muito elevado, muito recolhido, tão elevado que fica mesmo ao lado da antena emissora da Rádio Vaticana. Para nós termos um pouquinho uma ideia. Desde que nós entramos na zona do Vaticano até chegarmos lá, são 15, 20 minutos a pé. Depois nós percebemos também que ele, de facto, estava recolhido dentro do Vaticano.
Mas era um velório destinado a toda a gente ou essencialmente a pessoas da esfera do Vaticano?
Eu diria que foi um velório um bocadinho especial, porque estava destinado a algumas pessoas que trabalhavam no Vaticano, alguns intelectuais. Havia um representante da comunidade judaica que também estava lá a prestar a sua homenagem. Duas ou três famílias, mas descrevo o ambiente muito sereno, muita paz e muita oração. Impressionaram-me muito também não só o seu secretário, Dom Georg Gänswein, que estava muito tocado com tudo aquilo que estava a acontecer, com as pessoas que estava a receber e, por outro lado, também as religiosas que atendem o Bento XVI, que estavam muito desconsoladas.
Estavam poucas pessoas nessa capela.
Cerca de 30 pessoas, embora depois foram chegando outras, mas quando eu cheguei, diria entre 20 e 30 pessoas. Honestamente, pensei: "Eu se calhar sou dos poucos portugueses que está aqui, ou o único português que veio cá". Portanto, também me senti nesse momento imbuído de prestar uma homenagem em nome de Portugal àquele papa que nos visitou com tanto carinho em 2010. E de facto, o secretário dele, que era o Dom Georg Gänswein, era uma pessoa que eu conhecia, porque ele é professor na minha universidade. Não é uma pessoa com quem eu intimava, mas era uma pessoa que eu conhecia e tive um diálogo com ele. Eu estive cerca de uma hora dentro da capela e ia tendo uns diálogos, quer com o seu secretário dentro da capela, quer depois no final, quando me fui despedir. Eu reconheço que quando eu entrei na capela, o Papa Bento XVI estava vestido de vermelho, mas com uns paramentos muito simples, e chamou-me muita a atenção um presépio do lado direito e uma árvore de Natal do lado esquerdo.
E nada de flor.
E não havia flores também. E pensei: "Mas é estranho, porque isto não parece um velório, parece uma sala de estar", honestamente. Mas pensei que aquela era a sala de estar do Bento XVI, onde ele estava habitualmente. Rezei também em nome dos portugueses, como digo, porque acho que se aprendemos alguma coisa de Bento XVI, foi o poder da oração e de Deus. Ele também tinha pedido isso no seu testamento espiritual, que nós rezássemos por ele e de alguma maneira eu senti-me feliz por estar aí a cumprir alguma coisa que ele nos tinha pedido. Uma pessoa nota, de facto, que está vestido com paramentos vermelhos, depois tem na mão um terço. A mim veio-me logo à cabeça Fátima e a sua visita que ele fez em 2010. Um terço que tem medalhas. Quem sabe se uma dessas medalhas não será de Fátima, pensei eu na altura, não sei. E depois também me impressionou, porque tem nas mãos um crucifixo do João Paulo II, que é um crucifixo típico com Cristo encurvado. Mas com o secretário pude trocar algumas palavras. Eu já digo que o secretário estava muito desconsolado, mas ao mesmo tempo uma pessoa muito serena, entregue.
O que é que falaram?
A primeira coisa foi uma coisa que eu não estava à espera, porque ele perguntou-me: "Como é que vai a tua tese?" E olhou para o Bento XVI nesse momento e eu pensei: "O Bento XVI está a me pedir que a minha tese de doutoramento seja também um esforço para me juntar àquilo, uma gota no oceano intelectual de Bento XVI". No fundo, é perceber de que maneira é que o tema da minha tese, que é um tema sobre ética econômica e doutrina social da Igreja, de que maneira é que aquilo que eu estou a escrever, aquilo que eu me estou a dedicar há tanto tempo, pode ser também um esforço por levar Deus ao meio do mundo, à economia, que é o tema que me trata. Porque eu não estava à espera que ele me falasse da tese e do meu trabalho. Mas coisas pequeninas, como houve um casal, ele alemão, ela italiana, que estavam até com dois filhos de 14, 15 anos, que lá estavam, que lhe perguntaram: "E agora o que é que nós fazemos com os gatos?" Ou seja, era um casal que tinham oferecido os gatos a Bento XVI, porque Bento XVI era uma pessoa que gostava muito de gatos e agora também não sabiam o que iam fazer com os gatos.
E a resposta?
O Georg Gänswein disse: "Cá ficaremos para cuidar deles e cuidar bem deles". Foi o que ele disse. Eu acho que isto tem várias leituras, mas no fundo acho que vão tratar bem dos gatos.
Já voltamos.
Eu sou a Sónia Simões, sou jornalista do Observador e durante grande parte deste ano de 2022, com o jornalista João Francisco Gomes, dediquei meses a investigar casos de alegados abusos de menores por elementos da Igreja Este trabalho de investigação implica semanas de entrevistas, consulta de documentos e muitas viagens por todo o país. Isto só é possível graças aos assinantes do Observador. Assinar o Observador é fundamental para um jornalismo de qualidade.
Gostava de lhe perguntar, Jorge, também para terminar, se sente que, não só pelo que se sente aqui em Roma, mas também por todo este acontecimento, se sente que isto é o fim de uma era, a era dos dois papas. Tivemos aqui quase 10 anos com dois papas vivos, dois homens vestidos de branco no Vaticano. É o fim de uma era ou, pelo contrário, é o início de uma era em que vamos passar a ter um papa emérito como norma?
Tenho um bocado de dificuldade de responder, mas eu penso que a entrevista do Papa Francisco a um jornal espanhol, a "ABC", recentemente, pode dar algumas luzes. Isto é, o papa atual, Papa Francisco, admite resignar. Aliás, ele tem uma carta preparada para o fazer se o tal justificar do ponto de vista médico e, portanto, não me estranharia que isso pudesse acontecer. Eu acho que Roma conviveu muito bem com estes dois papas. Acho que elas eram pessoas muito próximas. Como digo, impressionou-me outro dia ter que passar pela casa de Francisco para chegar à casa de Bento XVI. Isso era uma coisa que de facto marca. E eu acho que há uma perfeita continuidade entre os dois. Aliás, eu estava a fazer outro dia um esforço para me recordar também desta transição, porque eu estive cá precisamente quando Bento XVI renuncia em 2013, eu estava em Roma e lembro-me na altura que o princípio do pontificado do Papa Francisco foi um documento que se chama "Lumen Fidei", um documento que eu já agora sugiro que leiam, porque é um documento muitíssimo bom. E a primeira coisa que faz o Papa Francisco é dizer que este documento foi escrito a quatro mãos. No fundo, é com material que Bento XVI já tinha refletido e com a minha visão também. Eu acho que isso é uma continuidade perfeita. Eu às vezes penso que do ponto de vista humano, se a Igreja fosse uma empresa, fosse uma instituição de outro caráter, quem chega de novo quer limpar um bocadinho o passado ou quer impor o seu estilo. O Papa Francisco não o fez e acho que sempre teve um bom convívio também com Bento XVI e esse convívio abre-nos a porta para que no futuro isto também possa voltar a acontecer. Agora, se vai acontecer ou não, eu acho que só Deus sabe.
Mas volto àquela minha pergunta: sente aquela ideia de encerramento de uma era com a morte de Bento XVI, que agora é a primeira vez que vamos ter o Papa Francisco sem o papa emérito na sombra?
Há uma coisa que é inédita: é que um papa celebre o funeral de outro papa. Isso nunca tinha acontecido na história. Honestamente, não sinto que seja uma rutura, até porque Bento XVI, penso que sabiamente, é lógico que ele era papa emérito, mas ele queria estar recolhido. Ou seja, o seu laboratório era uma capela onde ele passava, onde rezava. Ele escreveu muito pouco, manifestou-se muito pouco, ou seja, ele era uma presença espiritual, era como se fosse um farol para a cidade. Ele vivia junto de uma emissora de rádio, da Rádio Vaticana, e para mim é também uma ideia muito interessante, que ele emitia umas ondas que se calhar eram invisíveis, mas de adoração, de carinho pelos cristãos, mas era uma pessoa que era invisível deste ponto de vista. Portanto, apontava-nos muito para uma ideia de um Deus também que está próximo de nós, mas que é invisível.
Fala-se da possibilidade de o Papa Francisco vir a regulamentar, por exemplo, o lugar de papa emérito. Isso pode significar preparar uma institucionalização desse processo.
Nesse sentido, se calhar a rutura deu-se antes, deu-se em 2013, e percebo isso. Agora, se calhar é um acompanhar de rutura, portanto, é uma rutura um bocadinho mais pensada ou um bocadinho mais delineada, mais delimitada por aquilo que o Papa Francisco também quer fazer. Mas eu acho que o Papa Bento XVI foi uma pessoa tão discreta, que eu acho que pelo menos não corremos esse risco com o Papa Bento XVI. Nós pensamos que temos dois papas a mandar, como infelizmente na história da Igreja já aconteceu. Dois papas ao mesmo tempo, em simultâneo. Mas graças a Deus, acho que temos pessoas com caráter muito sobrenatural, pessoas que rezam muito, pessoas que acreditam que Deus tem mesmo força e que eu acho que, aconteça o que acontecer e o que o Espírito Santo queira, acho que isso vai ser sempre o melhor para a Igreja.
O Jorge Oliveira tem 39 anos e deverá ser ordenado padre no próximo mês de maio. Até lá, fica aqui em Roma a concluir o seu doutoramento em Teologia Moral na Universidade de Santa Cruz, do Opus Dei, de que ele faz parte. E da conversa com ele, resta uma pergunta: haverá de facto alguém para cuidar da herança teológica de Bento XVI e, já agora, também dos seus gatos?
Esta foi uma história do dia gravada em Roma pelo enviado especial do Observador ao funeral de Bento XVI, o jornalista João Francisco Gomes. Os sons que ouvimos no arranque do episódio são da Catholic News Service e da Associated Press. Este episódio contou ainda com a colaboração da jornalista Inês Batista. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.