Era segunda-feira. Leão XIV tinha sido eleito há 4 dias. Um jornal português noticia: “Papa Leão XIV acusado de encobrir abusos sexuais de crianças no Peru”. Devia ser um furo. Algo que acenderia todas as sirenes de alarme. Só que não. A notícia era falsa, acima de tudo descontextualizada, recheada de má-fé. Ninguém pediu desculpa. Explico-me.

Em janeiro de 2025, o Papa Francisco dissolveu uma organização católica peruana, conhecida como Sodalício de Vida Cristiana, que esteve envolvida em décadas de abusos físicos, psicológicos e sexuais. Como vingança, membros desta organização começaram a lançar acusações de encobrimento a responsáveis da Igreja peruana de então, onde se incluía o na ocasião Bispo de Chiclayo Robert Prevost, atual Leão XIV. Acontece que as acusações não passavam disso mesmo: vingança. Entre muitos, Pedro Salinas, reputado jornalista peruano, e um dos líderes do grupo que denunciou as práticas abusivas, tinha já, na ocasião, esclarecido que essas afirmações eram “absolutamente falsas” e que Prevost não só tinha sempre estado ao lado das vítimas, como tinha apoiado a investigação e promovido a renúncia de clérigos implicados no caso.

Como sei disto? Porque fiz um breve cruzamento de fontes. Sei que a necessidade de informar, com rapidez, sobre o perfil do homem que acabava de ser eleito Papa cria uma maior janela de negligência informativa, mas passados 4 dias continuar a lançar uma notícia desta natureza é inenarrável. O título intelectualmente honesto seria “Papa Leão XIV foi falsamente acusado de encobrir abusos sexuais”, mas os clamores de imparcialidade jornalística funcionam só para uns e não para outros. E, citando uma célebre personagem de Herman José, “há que dizê-lo com frontalidade”. São sazonalidades.

A temática dos abusos sexuais é extremamente séria. Exige uma cultura de transparência, de verdade e de conversão, mas notícias como estas só contribuem para o inverso: a banalização e o desprezo pelas vítimas, ainda que travestidas de boas e piedosas intenções. Mas essa não é a verdade inconveniente sobre o Papa.

Estou longe de acreditar que as denúncias realizadas neste âmbito são simplesmente voyeurismo e teorias da cabala, mas o caso do Papa mostra bem como nem tudo é honestidade. Além disso, uma acusação dentro deste contexto, como a situação acima descrita demonstra, passou a ser uma possível carpete estendida para a descredibilização e destruição programada de um alvo a abater. Portugal teve, aliás, dois casos recentes que se podem encaixar neste perfil, sendo que um chegou mesmo a ter direito a um fuzilamento mediático sem qualquer escrutínio, em direto e exclusivo, à hora do jantar. Situações que não chegaram ao limite de outras registadas na Alemanha e na França, onde acusações levaram ao suicídio dos acusados que, só após este dramático desfecho, foram declarados inocentes. Incidentes que aumentam quando se tratam de pessoas que, tal como aconteceu com o Papa, tiveram que lidar de perto, regular ou intervir em assuntos ligados com abusos de menores. Não raro, a vingança mais fácil é devolver a acusação, para descredibilizar a origem. Este é, de facto, um silêncio paralelo ao silêncio das vítimas que nunca chegaram a ser ouvidas ou que, sendo-o, foram descredibilizadas, e, como tal, não pode ser tratado de maneira diferente. Essa, sim, é a verdade que poucos querem ouvir. Porque, neste contexto, encobrir nem sempre foi uma forma de proteção da instituição, ou de ocultação sistemática da verdade, mas uma tentativa de não se tornar um perigo a ser neutralizado.

Desde que o justo processo de investigação sobre os abusos de menores começou, entre avanços e recuos, resistências, erros e dúvidas, é inegável que a Igreja está, hoje, não só melhor, como à frente nesta matéria. Em Portugal, por exemplo, enquanto as escolas católicas têm desenvolvido um programa de formação claro e regular para alunos e funcionários, ainda se aguarda um trabalho paralelo na escola pública. E isto deve levar-nos a concluir que o legítimo escrutínio da Igreja se esgotou em si mesmo. Ao que parece, o problema estava só circunscrito a um canto da sociedade. E diante desta realidade, é compreensível –não digo que seja verdade, mas é, pelo menos, compreensível – que algumas pessoas entendam que, o que se passou foi, também e em certo ponto, não uma busca do “superior interesse da vítima”, mas um ataque institucional.

A minha crítica não é às denúncias fundadas, mas ao uso oportunista e mal-intencionado de acusações falsas. Aquilo que aconteceu com o Papa, e com tantos outros, não pode ser visto como um simples dano colateral no meio de um combate justo, porque, infelizmente, estamos diante de uma circunstância onde se apagou, por completo, a presunção de inocência. E isso só mina o trabalho que tem sido feito a favor de uma cultura de cuidado e de proteção. A ideia peregrina de saltar e acabar com todos os limites, prazos e barreiras legais, nestes casos, desprotege, antes de mais, as vítimas. Mas, também, é necessário que a Igreja saia desta fátua que lhe tira a liberdade, porque ninguém será livre enquanto estes temas forem usados como vingança e retaliação. E isso é algo que não podemos aceitar.