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Esta é a história do dia da Rádio Observador, a frente de guerra pra qual ninguém está a olhar.
This is the strike that leveled the building behind me.
A bomba que ouvimos agora nesta reportagem da CNN não caiu no Irã nem em Israel, mas caiu num território onde o conflito também acontece.
We had a threat like today. He wanted to attack the ambulances.
Estes são bombeiros de Beirute a dizer que naquele bairro controlado pelo Hezbollah, até as ambulâncias foram alvo de ataques. No Líbano, a troca de fogo é quase diária. Bombardeamentos, populações deslocadas de casa numa frente que passa, apesar de tudo, muito despercebida.
So it must be absolutely terrifying.
Hoje vou falar sobre isso com o jornalista de internacional José Carlos Duarte, para perceber por que é que, seja na Faixa de Gaza, seja no Irão, o Líbano acaba sempre metido ao barulho. Eu sou o Pedro Benovides e esta é a história do dia de quarta-feira, 17 de março. Olá, Zé Carlos.
Olá.
Vamos começar por uma questão muito básica, que é: nós olhamos para esta guerra, basicamente para o que se passa no Irão, depois quando há as retaliações iranianas, vamos olhando dali para a região, mas não olhamos para o outro alvo dos ataques, sobretudo de Israel, que é o Líbano. O que está a acontecer neste momento ali?
Sim, neste momento, há uma guerra entre a milícia armada do Líbano, o Hezbollah, e Israel. Ou seja, é uma espécie de segunda frente que Israel está a enfrentar neste momento, e consiste em ataques aéreos de parte a parte. Israel ataca posições do Hezbollah dentro do Líbano e o Hezbollah também ataca posições israelitas. Na segunda-feira começou uma ofensiva terrestre. Israel anunciou que iniciaria uma ofensiva limitada no sul do Líbano, onde o Hezbollah tem várias bases militares, tem várias posições importantes que utiliza pra atacar Israel e, portanto, há aqui uma segunda arena em que Israel tem que mobilizar meios para também confrontar um grupo que é aliado do Irão, que é o Hezbollah, e que também é xiita. Israel agora tem aqui quase duas frentes, se bem que utilize apenas meios aéreos para atacar o Irão. O Hezbollah usa não só aéreos, como também meios terrestres. Portanto, são aqui duas frentes que Israel tem que conciliar.
Sendo que tu agora nessa resposta deste aqui algumas indicações que se calhar as pessoas que nos estão a ouvir, estão a pensar: "Mas eu já ouvi isto antes". Sul do Líbano, o Hezbollah, naturalmente. Ou seja, quando nós olhamos durante imenso tempo pra aquilo que se passava em Gaza, lá estava o Hezbollah outra vez e lá estava a ação militar no Líbano. Qual é que é a ligação do Hezbollah com estes grupos e com estas frentes com quem Israel tem sempre este tipo de conflitos?
Sim, pra entender isto, há que entender que o Irão, ao longo das últimas décadas, montou o chamado Eixo da Resistência. Ou seja, o Irão colocou milícias armadas aliadas em vários países que rodeiam Israel. Temos o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen, o Hamas na Palestina. Portanto, o Irão montou aqui uma espécie de eixo que, em caso de Israel atacar diretamente o Irão, estas milícias viriam em seu auxílio, ou seja, apoiariam o Irão contra Israel. E é isso que acontece sempre. O Hezbollah, ao longo dos anos, também se foi institucionalizando, foi ganhando alguma autonomia face ao Irão, mas o que é facto é que quando o Irão está numa posição vulnerável, quando o Irão está a ser atacado por Israel ou até o Hamas, como aconteceu na guerra de Gaza, o Hezbollah sai sempre em defesa destes aliados. Ou seja, é uma milícia que está ali pra criar problemas a Israel, para que a hegemonia regional de Israel também seja limitada. Sempre há uma ameaça que paira sobre Israel e o Hezbollah serve muito como essa ameaça. Entre todas as milícias armadas, talvez o Hezbollah seja o mais forte, seja aquele que tem mais poder no eixo de resistência. O Hezbollah também se aproveitou muito do vazio de poder do Líbano. O Líbano é um país muito complicado, a gestão política é muito complicada porque está dividido entre várias religiões, é um Estado sectário. Portanto, o Hezbollah aproveitou-se deste vazio no poder que havia no Líbano para criar uma resistência armada contra Israel, patrocinada pelo Irão. É sempre neste contexto que o Hezbollah entra em guerra contra Israel, porque o Irão tem ali um aliado que sabe que quando Israel faz qualquer tipo de operação militar, vai entrar na guerra.
Do ponto de vista militar de Israel, quando inicia uma operação, neste caso com o apoio dos Estados Unidos contra o Irão, faz sentido que também tenha um olho no que se passa no Líbano, em particular naquilo que são as ações do Hezbollah.
Exato. Faz todo sentido, porque aliás, o que aconteceu foi o líder supremo do Irão e os Estados Unidos e Israel começaram a ofensiva 28 de fevereiro, que foi a data que morreu Ali Khamenei, e 2 de março, o Hezbollah atacou Israel. Foi o Hezbollah que lançou vários ataques aéreos contra Israel e marcou o início da presença do Hezbollah neste conflito. Eles estiveram um bocadinho reticentes ao longo dos dois primeiros dias. Eles antes da ofensiva de Israel e dos Estados Unidos, diziam que apenas entrariam no conflito se Ali Khamenei fosse morto, o que acabou por acontecer. Portanto, o Hezbollah entra em defesa do Irão Como uma forma, acima de tudo, de complicar a vida a Israel, complicar como Israel se defende, como Israel ataca o Irão, porque o fato é que se Israel está apenas focado no Irão, tem apenas um alvo, tem apenas um objetivo. Agora, com o Líbano, tem outra frente ali no norte e o Líbano e o Hezbollah têm uma capacidade de fazer dano a Israel muito mais que o Irão, porque estão perto da fronteira do norte, ou seja, há uma fronteira, o Líbano e Israel partilham uma fronteira, e das posições perto da fronteira do Líbano é mais fácil atirar rockets, mísseis, que caem muito mais facilmente em Israel do que o Irão, que está a milhares de quilômetros. Portanto, o Hezbollah acaba sempre por entrar como um auxílio do Irão quando o Irão está numa situação apertada e, portanto, o Hezbollah tem capacidades militares para isso e a proximidade com a fronteira é uma grande vantagem.
Qual é o objetivo de Israel nestes ataques, particularmente naquilo que está a fazer no Líbano?
Neste momento, em primeiro lugar, foi uma retaliação contra aquilo que o Hezbollah fez. Israel sentia que, tendo em conta que o Hezbollah atacou primeiro, tinha que responder, porque há sempre aquela mentalidade israelita, quando é atacado, tem que atacar e tem que retaliar com força. Depois, Israel sente que tem que eliminar a ameaça do Hezbollah. Desde os anos 80, data que o Hezbollah foi fundado e que começou a receber apoio do Irão, o norte de Israel está sempre neste limbo quando acontece aqui um momento de tensão com o Irão. Ou seja, o norte de Israel é a parte do país que é mais atingida por mísseis e rockets do Hezbollah. E Israel, neste momento, com o poderio que está a demonstrar no Irão, sente que pode ser um bom timing para enfraquecer de vez o Hezbollah. E também há dois fatores muito importantes. O primeiro é o apoio norte-americano. Ou seja, os Estados Unidos não só apoiam Israel na operação furia épica contra o Irão, como também Donald Trump já veio dizer que apoia esta ofensiva militar no Líbano. Ou seja, o apoio dos Estados Unidos acaba por ser vital pra que Israel se sinta mais forte, mais afirmativo neste objetivo. E depois, outro grande fator tem a ver com o fato do Líbano, em concreto, o Hezbollah está mais fraco. E isto tem a ver com o que aconteceu em 2024, quando houve uma guerra entre Israel e o Líbano, outra ofensiva terrestre de Israel contra o Líbano. E na sequência dessa guerra que aconteceu em 2024, o Hezbollah perdeu muito a sua força. O secretário-geral do Hezbollah, o Nasrallah, morreu num bombardeamento israelita e desde aí que nunca se conseguiu afirmar plenamente, as suas capacidades militares degradaram-se também. Portanto, o Hezbollah está aqui no momento de alguma fraqueza.
Israel está a tentar aproveitar-se disso.
Israel também está a aproveitar-se desse momento.
Tu falaste ali de outra coisa que me parece relevante para este contexto, que é o que o governo do Líbano tem a ver com o Hezbollah e o que o governo do Líbano está a fazer e por que o Hezbollah continua sediado no Líbano, quando o Líbano acaba por ser alvo de ataques precisamente por causa disso.
Sim, é muito complicada esta relação entre o Hezbollah e o governo do Líbano. O governo do Líbano, neste momento, dissociou-se totalmente dos ataques do Hezbollah, disse que não queria ver o país novamente arrastado pra uma guerra, coisa que aliás aconteceu ao longo dos últimos anos, portanto, é mais um episódio, e a relação é muito complexa. Ou seja, o Líbano é um Estado sectário bastante dividido entre cristãos, sunitas e xiitas, e o Hezbollah é uma milícia xiita, apoiou sempre apoio nos xiitas. Mas mesmo assim, muitos xiitas sentem que a guerra é injustificada e que o país devia manter à margem do conflito. De qualquer forma, a relação do governo com o Hezbollah é muito tensa. O Hezbollah tem um partido político, o Hezbollah tem representação parlamentar no Líbano, mas o Hezbollah mantém-se sempre à margem do governo, mantém-se sempre à margem do poder, é uma força um bocado de bloqueio também. Ainda que haja alguns acordos pontuais, mas é sempre uma força de bloqueio, porque o Hezbollah está ali a representar não os interesses do Líbano, mas os interesses do Irão. E os interesses do Irão não são os interesses do Líbano. E portanto, há sempre esta espécie de tensão em que muitos governantes do Líbano querem assegurar os interesses do país, mas o Hezbollah quer assegurar os interesses do Irão. Portanto, esta tensão é permanente no Líbano e o país tem muitas dificuldades em preservar a sua estabilidade precisamente por causa disso, porque há sempre uma potência regional que acaba por minar a estabilidade do país. E eu acho que aconteceu novamente isso nestes dias.
E qual é o efeito que isto já teve na população e em quem vive no Líbano, que esta nova frente de guerra já provocou?
Sim, no sul do Líbano, onde começou a operação terrestre israelita, quase 1 milhão de pessoas já teve que abandonar as casas, há quase 1 milhão de deslocados internos que têm de ir pra outras partes do Líbano. Isso também é bastante complexo pro país, porque sobrecarrega outras regiões do Líbano. O Líbano tem cerca de 6 milhões de habitantes, quase 1 milhão, é um sexto da sua população a ir pra outras partes.
Isso é impressionante.
Acaba por sobrecarregar bastante o restante território libanês. Obviamente que muitas pessoas já estão Diria habituadas a este estado de conflito, porque isto já aconteceu em 2023, já aconteceu em 2024, então em 2025 houve ali uma trégua, mas o que é facto é que muita gente já está habituada e que já está acostumada a este estado quase permanente de conflito. Mas as consequências são bastante penosas para a população. Ainda por cima, o Líbano está a ser fustigado por várias tempestades, o estado do tempo não está particularmente bom, muitas pessoas estão a viver em tendas na chuva, as Nações Unidas já alertaram precisamente para isso, para o aumento de doenças, para a fome. Mas é realmente muito complicado para a população, porque estão novamente no meio destes dois poderes e têm que tentar fugir e tentar viver.
Sobreviver.
Exatamente, instalados entre Israel e o Irão.
José Carlos, obrigado por nos teres dado aqui também uma luz sobre um país que está no meio desta guerra e para o qual nem sempre olhamos com atenção.
Obrigado.
O José Carlos Duarte, jornalista internacional do Observador, explica bem esta frente do conflito num texto que publicou no jornal. Israel e Líbano vivem, na prática, em guerra desde 1948. Nunca houve paz, apenas pausas, cessar-fogo, armistícios, mas nunca um tratado de paz. Em 1982, nasceu o Hezbollah, depois da invasão do Líbano por parte de Israel, e desde então é uma peça central deste conflito e voltou agora a entrar na guerra. Os ataques sucedem-se. Fala-se de mediação. França já se ofereceu. Há até cenários de um inédito reconhecimento de Israel pelo Líbano, mas há uma condição dos dois lados. O Hezbollah admite negociar quando Israel parar. Israel diz que só para quando o Hezbollah for desarmado. E como ninguém parece querer ceder, a guerra continua. Esta foi a história do dia, a sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.