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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Chico Buarque esperou quatro anos para receber o Prêmio Camões.

É uma canção que fala do poder da palavra, inclusive do poder da palavra sobre o criador. A palavra às vezes é mais forte do que o criador. Ela às vezes nos conduz por caminhos que a gente não esperava. E é curioso que eu falei dessa música, falava da palavra que era-

Chico Buarque falava aqui sobre a canção "Palavra", num documentário de Roberto Oliveira sobre o cantor, um documentário de 2005. Chico, como é conhecido em todo o mundo, venceu o Prêmio Camões a 21 de maio de 2019, mas só agora é entregue. A pandemia, mas sobretudo um confronto com o ex-presidente Jair Bolsonaro, ditaram um atraso de quatro anos. Quem é este homem que os bolsonaristas odeiam e os lulistas amam? Quem é este homem que compõe, canta, escreve, joga futebol e passeia no calçadão do Rio de Janeiro? Vou conversar com o cantor e compositor brasileiro Pierre Adérn, o anfitrião do projeto musical A Rua das Pretas. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Pierre.

Obrigado, Ricardo. Um prazer.

O Pierre Adérn diria que o Chico Buarque é um menino do Rio ou um malandro do Rio?

Eu acho que ele é um senhor do Rio. Senhor da malandragem do morro, e conjuga toda essa característica desse ser fluminense.

Ele é nascido e criado no Rio, é isso?

Isso, o Chico nasceu no Rio de Janeiro, como todos sabem. Criado no Rio de Janeiro e nas suas músicas passa também essa crônica desse Rio de Janeiro amplo, relatado por ele, por seus personagens, nas suas músicas.

Essa moça tá diferente, já não me conhece mais. Está pra lá de pras frente, está me passando pra trás.

E é uma juventude muito, diria, influenciada pelo samba, pela bossa nova, todas essas correntes artísticas estão presentes?

O Chico nasceu já cercado de muita gente interessante da cultura. Nasceu em 1944 no Rio e cresceu já perto dessas matrizes da música brasileira que todos nós conhecemos. Tom Jobim ali, João Gilberto por perto e Vinícius de Moraes também. E o Chico sempre foi muito engajado com essas questões também do povo, da democracia, do samba indo pra dentro da comunidade, mergulhando ali nas questões desse Rio de Janeiro que é, como eu digo hoje, de certa forma também uma capital desse Brasil casa grande senzala, com várias questões que a gente vê dessa bolha que existe na zona sul do Rio de Janeiro, que o mundo conhece, que é Ipanema, Leblon, Arpoador.

Mas à qual ele pertence. Ele é Rio, zona sul.

À qual ele pertence, ou seja, existe um grande túnel, que liga a zona norte à zona sul, que é o Túnel Rebouças. Então eu tenho a sensação que o Chico não só mergulhou nesse Rio de Janeiro plural, ou seja, não ficando ali preso dentro dessa estrutura da zona sul burguesa do Rio de Janeiro, mas subindo o morro, entendendo o que é a cultura daquele Rio de Janeiro, aprendendo com esses personagens todos que ele tinha à volta dele. E fazendo essa leitura, sempre preocupado muito com esse Brasil plural. Porque o Rio de Janeiro também é uma cidade que abrigou muitos retirantes que vieram do Nordeste brasileiro. Então acho que na sua própria discografia, nas canções escritas, tem muitos personagens. Que ele vai pontuando ali ao longo da carreira dele, com as suas canções, com seus poemas e fazendo mesmo uma crônica desse Brasil plural.

E a "Ópera do Malandro" pode ser um bom exemplo dessas personagens que fala?

A "Ópera do Malandro" é incrível.

O malandro, na dureza, senta à mesa do café.

Que ele conseguiu concretizar ali, sintetizar essas questões todas desse grande Brasil. Enfim, e depois essa coisa dele também de compor pras mulheres. E de compor também na figura do gênero.

Há sempre pra mim um grande mistério na alma feminina. Sempre pra mim eu tenho uma grande curiosidade.

E depois, na vida de Chico Buarque, há dois períodos em Itália. Primeiro, viveu em Roma quando o pai foi dar aulas nos anos 50 e regressaria à Itália no final dos anos 60, agora exilado E aqui foi mais uma voz importante, a par de Caetano e Gilberto Gil, na denúncia da ditadura brasileira?

É, o Chico e o Vinícius de Moraes também esteve exilado na Itália. Chico, Gil e Caetano foram pra Londres. E suas canções nessa altura, relatando essas questões da ditadura brasileira e também muito tempo a ditadura portuguesa, o Estado Novo, Salazar, enfim, ligado também com essas questões portuguesas.

Ou seja, Pierre Adern, Chico Buarque para o Brasil e também para os portugueses, para a língua portuguesa, enfim, acha que é um homem que acredita numa arte mais interventiva, seja na forma como canta amores e desamores, seja na mensagem política e social que quer transmitir.

Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente. E ainda guardo renitente. Um velho cravo para mim.

O Chico tem uma característica muito interessante, porque se a gente for olhar para a obra dele, ela é extremamente erudita e extremamente popular ao mesmo tempo. Tanto do ponto de vista musical como literário, como literatura dentro da música. E eu acho que ele trouxe isso como ninguém. Se a gente fosse escolher um paralelo com Portugal. O que para Portugal foi o Zeca Afonso, talvez, pro Brasil era o Chico. Ele não foi convidado a sair, foi um exílio voluntário.

Foi um autoexílio.

Autoexílio. Talvez ele seja o grande protagonista da música dessas questões da ditadura militar.

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.

Já voltamos à conversa com Pierre Adern, músico e o grande mentor do projeto A Rua das Pretas. Ainda temos de perceber, nesta história do dia, as razões que levaram a uma entrega tão tardia do Prêmio Camões a Chico Buarque.

Isto vai ser uma espécie de feed semanal em doses homeopáticas de música clássica de que as pessoas não sabiam que precisavam.

Martim Sousa Tavares na Rádio Observador.

Uma viagem por baixo d'água num submarino super-rápido também funcionava.

Mas há ali um momento em que parece que o carro vai cair por uma ribanceira.

Sim, essa é a parte que o- Sim, mas depois é salvo por um zepelim.

As melhores notas da música clássica, explicadas pelo jovem maestro.

Pode chamar de canção.

E cantiga?

Cantiga, não. Cantiga, não. Se for de amigo, talvez. Se for de escárnio e mal dizer, diria que não.

Encontro com a beleza. Todas as segundas, na tarde em direto, depois das notícias das 17h30. Rádio Observador.

Basicamente, precisamos só de curiosidade e um par de ouvidos.

Aconteça o que acontecer. Estamos de regresso à conversa com o músico brasileiro Pierre Adern, que vive há mais de 10 anos em Portugal. Pierre, Chico venceu o Prêmio Camões em 2019. É um prêmio literário atribuído por um júri constituído por brasileiros e portugueses. O prêmio é de 2019, mas só agora é entregue. Já sabemos que tivemos aí a pandemia pelo meio, mas isto é, sobretudo, uma consequência de um conflito com o presidente Jair Bolsonaro, é isso?

Isso, o inominável, inqualificável. O Brasil viveu esse período de fascismo dentro desse último governo. E realmente, não só o Chico e não só o Prêmio Camões, mas todas as questões da cultura ficaram congeladas durante esse governo. E é uma maravilha que ele esteja recebendo o prêmio aqui em Portugal, que finalmente é um recomeço.

E ele teve, depois também, uma participação muito ativa na campanha de Lula da Silva. Portanto, claramente, Chico Buarque é um homem de esquerda. Não há como negar.

Não há como negar. E também ele foi bastante perseguido durante esse processo desse governo passado. Talvez ele não tenha sido tão perseguido na ditadura brasileira quanto foi nos últimos quatro anos.

Mas acha que é comparável?

Eu acho que do ponto de vista do povo, que foi abduzido por essa extrema direita, quer dizer, um povo que perdeu o ensino fundamental, de um Brasil que foi evangelizado pelas igrejas universais do Reino de Deus e por esses fanáticos, por esses fundamentalistas. O Chico teve uma perseguição dos militares, dos censores, da ditadura, do governo Geisel e Figueiredo. Ele não era bem visto, mas o povo sempre gostou de Chico Buarque.

Eu não quero conversa com admiradores de Lula. Prefiro falar com quem não gosta do Lula, mas há de entender que nesse momento, o importante é salvar a nossa democracia.

Ele começou a ser perseguido por parte desses eleitores que elegeram o antigo presidente do Brasil. E de forma como se ele fosse realmente um dos responsáveis por todo aquele Brasil que esses Fascistas perseguiam. E talvez tenha sido a grande figura da música perseguida nesse processo, inclusive com ataques nas ruas do Rio de Janeiro e abordado por esses indivíduos.

E a dimensão literária que há pouco o Pierre falava, também é muito importante na obra de Chico Buarque.

Eu acho que ele já misturava bastante, apesar de não escrever em prosa. Nas canções dele, nesses personagens que ele criava, ele já dava indícios que poderia partir pra esse lado da literatura. As próprias letras do Chico, por si só, já traziam, mesmo tendo aquela métrica musical, as rimas, os versos, já tinham conteúdo suficiente pra gente imaginar a história desses personagens, como em "Construção", por exemplo.

Pierre Adern, o homem canta, compõe, escreve, gosta de samba, gosta de futebol, mora na praia, tem os olhos que todos nós gostaríamos de ter. Pierre, o Chico não tem defeitos?

Tem, ele joga mal futebol.

E não tem mais defeitos?

Eu já fui jogar uma vez com o Politiana, com o time dele. Eu tinha era jovem, tinha 20 e poucos anos, levei minha turma inteira do Posto Nove pra jogar lá, e eram meninos que jogavam muito bom.

Ipanema e Posto Nove, é isso? Pra quem não conhece, é uma parte da Praia do Rio.

Posto Nove era muito próximo da minha casa, que eu morava no Nascimento Silva, pertinho da casa do Tom, e a gente tinha um futebol que era apelidado de "sangue e areia", porque era aquele futebol do Posto Nove. Um dia a gente foi jogar contra o Politiana e tal, do Chico, e eu falei pros meus amigos assim: "Por favor, vocês não ganhem essa partida". E aí o meu time ganhou de 6x0 do time dele, e aí eu nunca mais sou convidado pra jogar com o Politiana.

Então o Chico Buarque tem má perder, é isso?

Não, é brincadeira.

Meu paramigo me perdoe, por favor, se eu não lhe faço uma visita. Mas como agora apareceu um portador, mando notícias nessa fita. Aqui na Terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock'n'roll.

Enfim, ele adora futebol, sempre gostou de futebol, e esse futebol era um encontro, era uma tertúlia, era um sarau musical no campo de futebol. E era muito interessante.

Amou daquela vez como se fosse a última.

Estava falando de "Construção". Se a gente pegasse "Construção" e lançasse num livrinho de cordel nordestino, ela já seria um livrinho lá atrás. Ou seja, amou daquela vez como se fosse a última, beijou sua mulher como se fosse a última, a cada filho seu como se fosse o único, e atravessou a rua com seu passo tímido, subiu a construção como se fosse máquina. Ou seja, as imagens, as metáforas, os personagens já indicavam que ele ia caminhar pra aí.

Tijolo com tijolo num desenho mágico, seus olhos embotados de cimento e lágrima. Sentou pra descansar como se fosse sábado.

Essa é a sua canção favorita de Chico?

Talvez seja "Construção" e "Cálice", as músicas que eu gosto. Mas gosto muito também de "Apesar de Você", que fala também do governo da ditadura, do Geisel.

Hoje você é quem manda, falou, tá falado, não tem discussão, não.

E depois ele tinha uma coisa muito interessante que era essa ligação com os outros artistas. Ele não se fechava dentro do mundo dele e ainda hoje não se fecha. Ou seja, depois de um certo período, as parcerias dele com o Tom e até aquele programa mítico da TV Globo, Chico e Caetano, e os encontros, e essa coisa também da boemia, da alegria como projeto de vida, como projeto de sociedade. Você olha pro Chico e você vê que ele sempre esteve ali. Eu encontrei muitas vezes o Chico andando no calçadão do Leblon pra Ipanema. Ou seja, ele nunca foi, pra mim, um artista que estava, como era o João Gilberto-

Distante.

No apartamento. Distante, não, sempre esteve perto do povo e desses personagens que ele criou a partir das suas músicas. E a gente enxerga o Brasil a partir dos olhos dele, os olhos azuis ou verdes.

E Pierre, o que é Rua das Pretas?

A Rua das Pretas é um encontro de música lusófona, de músicos que fazem música cantada em português. Começou na minha casa ainda no Rio de Janeiro, mesmo sem saber que se chamaria Rua das Pretas. Depois veio pra Lisboa e antes da Rua das Pretas, o endereço era Poço dos Negros, depois eu mudei pra uma rua chamada Rua das Pretas, e eu recebia esses amigos da música, esses colegas da música Num determinado dia, teve um sarau desses na minha casa, lindo, que estava Caetano, Gil, Camané, Carminho, Valter Hugo Mãe, uma série de personagens dessa cultura lusófona, e a gente postou uma foto numa rede social minha, e o fotógrafo que fez, que é um português que acompanha a Rua das Pretas desde a gênese, perguntou pra mim que hashtag eu coloco. Eu falei: "Coloca Rua das Pretas". E eu tenho alguns álbuns lançados no Japão e uma pessoa que me seguia no Japão escreveu pra um outro: "If you ever go to Lisbon, don't miss this amazing acoustic jazz club, não perca esse clube de jazz incrível que é a Rua das Pretas", como se aquilo fosse realmente um clube. A minha produtora e companheira falou: "Olha, que ideia boa, vamos vender bilhetes aqui pra sala de casa". Aquilo foi tão prazeroso, eram noites tão aprazíveis, que a gente: "Olha, se calhar a gente continua com isso". A gente começou a receber convites pra fazer aquilo, inicialmente, no Teatro Tivoli, depois num palacete no Príncipe Real, que a gente ia ficar duas semanas, ficamos quatro anos, depois o convite dos coliseus, e hoje eu diria que a Rua das Pretas é um Buena Vista Social Club lusófono. E que vira também uma ferramenta de encontro de artistas que querem se conhecer e fazer essa troca de segredos em geral.

Muito obrigado, Pierre.

Obrigado, foi um prazer.

Pierre Aderne é o anfitrião da Rua das Pretas e é cantor e compositor. Esta foi a história do dia. Ouvimos trechos de entrevistas de Chico Buarque, retirados do documentário feito por Roberto Oliveira e publicado em 2005. Escutamos ainda trechos de canções de Chico, como: "Essa Moça Está Diferente", "A Opera do Malandro", "Tanto Mar", "Fado Tropical", "Meu Caro Amigo", "Apesar de Você" e "Construção". Este episódio contou com a colaboração do jornalista Vasco Maldonado Correia, sonoplastia de Diogo Casinha e a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até quarta.