O número de hemorragias potencialmente fatais em bebés nos Estados Unidos da América (EUA) aumentou significativamente desde 2017, numa altura em que cada vez mais pais recusam a administração de vitamina K aos recém-nascidos. Dois estudos publicados esta quinta-feira, citados pela agência Reuters, identificam uma relação entre o aumento das recusas e o crescimento dos casos de hemorragia, num contexto de crescente desconfiança dos norte-americanos em relação às vacinas e a outros cuidados de saúde prestados à nascença.

A vitamina K é essencial para a coagulação do sangue, mas os bebés nascem com quantidades insuficientes desta substância. Por esse motivo, a administração de uma injeção de vitamina K nas primeiras horas de vida é uma prática médica recomendada há mais de 60 anos, prevenindo hemorragias graves.

Um dos estudos, publicado na revista científica JAMA Pediatrics, analisou os registos médicos de 11 milhões de bebés com seis meses ou menos, nascidos entre 2017 e 2025. Durante este período, a percentagem de recém-nascidos que receberam a injeção de vitamina K diminuiu de 97,7% para 95%. Em sentido contrário, os casos de hemorragia associada à deficiência desta vitamina quase quadruplicaram.

No total, foram identificados 5.217 episódios de hemorragia entre mais de 11 milhões de nascimentos. Em 2025, a taxa de hemorragias foi aproximadamente o dobro da registada no ano anterior, segundo Steven Woolf, epidemiologista da Universidade da Virgínia Commonwealth e um dos autores do estudo.

“A administração de vitamina K à nascença é o padrão de cuidados desde 1961. Agora estamos a afastar-nos dessa prática e estamos a ver as consequências”, afirmou o investigador.

O segundo estudo, publicado também na revista JAMA, analisou os registos médicos de mais de 5,2 milhões de bebés nascidos entre 2017 e 2025. Os resultados mostram que a percentagem de recém-nascidos que não receberam a injeção de vitamina K mais do que duplicou, passando de 3,1% em 2017 para 6,8% em 2025. No final de 2024, a taxa de recusa era de 5,1%.

A investigação concluiu também que os bebés que não receberam a injeção tiveram um risco 47% superior de sofrer uma hemorragia durante os primeiros seis meses de vida, em comparação com aqueles que receberam a vitamina. O risco de hemorragia cerebral foi mais do dobro, assim como o risco de morte associado a um diagnóstico de hemorragia durante o internamento após o nascimento.

Os investigadores calcularam que, por cada 114 recém-nascidos que não recebem a injeção de vitamina K à nascença, ocorre mais um episódio de hemorragia.

A negação dos pais face à administração de vacinas tem aumentado desde a pandemia de Covid-19, mas a tendência terá acelerado durante o mandato de Robert F. Kennedy Jr. como secretário da Saúde dos Estados Unidos. O responsável passou décadas a questionar a segurança das vacinas e, desde que assumiu o cargo, eliminou recomendações de vacinação infantil para seis doenças.

“Tal como aconteceu com os recentes surtos de sarampo, estamos a assistir às consequências reais da crescente desconfiança em relação aos médicos e aos profissionais de saúde pública”, afirmou a pediatra Elizabeth Wolf, que também é investigadora na Universidade da Virgínia Commonwealth.