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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a sondagem que irrita toda a gente. António José Seguro, nestes últimos dias de campanha, volta a subir, está nos 24,2%. Este era eu ontem à noite a apresentar os mais recentes resultados da sondagem diária da TVI e da CNN Portugal. E não, eu não perdi os filtros e resolvi agora ceder ao meu ego e fazer desta uma história sobre mim. Só que temos esta coincidência de todos os dias ser eu a apresentar os resultados da tracking poll, que se tornou no protagonista inesperado desta campanha. Não há volta a dar. Tem sido o barómetro que empurra a conversa política. Quem sobe, quem desce, quem entra na segunda volta, quem cai do pelotão.
Quem ganha eleições são os votos dos portugueses, não são as sondagens. E por isso apelo sistematicamente às pessoas para não entrarem em euforias.
E quase desde o primeiro dia tem sido também, provavelmente, a coisa mais consensualmente criticada desta campanha.
Há quatro anos também dizia que o PSD ganhava as eleições legislativas e depois o Partido Socialista ganhou com maioria absoluta. As sondagens também falham.
Uns dizem que é ciência, outros dizem que é entretenimento para dar audiências. Uns tratam cada décima como se fosse uma reviravolta histórica, outros olham para aquilo e veem ruído, queixam-se da amostra, lembram resultados do passado e acusam a sondagem de não ser bem uma sondagem e ser mais uma máquina de ansiedade nacional. O que é afinal uma tracking poll e em que é diferente de uma sondagem dita normal? O que se pode ler naqueles resultados e o que não se pode mesmo ler? E a crítica mais dura de todas: isto está a ajudar a informar o eleitorado ou está a ajudar a moldar o eleitorado? Para percebermos como funciona este modelo, e já agora para responder às críticas de frente, eu vou conversar com o Alexandre Picoto, administrador da Pitagórica, a empresa responsável pelo tracking poll. Eu sou o Pedro Gonçalves e esta é a história do dia, de sexta-feira, 16 de janeiro. Bem-vindo, Alexandre Picoto.
Obrigado.
Vamos começar aqui pelo que é mais básico, que é exatamente o que é uma tracking poll, como é que ela mede, como é que ela funciona, como é que ela é constituída.
Se me deres autorização, eu antes de falar da tracking poll, vou te falar do que é uma sondagem. Porque admito que muitas das pessoas que nos possam estar a ouvir, possam estar convencidas que sabem o que é uma sondagem, mas talvez não saibam exatamente o que é uma sondagem. E dela eu vou partir para a tracking poll.
Muito bem.
Uma sondagem tem uma característica essencial, que é: partes de uma amostra, ou seja, de uma parte de um universo, e quando fazes análises sobre essa amostra, vais inferir para um determinado universo com uma margem de erro associada. Isto parece algo muito complicado. Eu vou explicar isso de uma forma que eu acho que as pessoas entenderão. Se tivermos uma garrafa de vinho e quisermos saber se o vinho que está dentro dessa garrafa é bom, nós não temos que beber toda a garrafa, ainda que alguns insistam em o fazer. Basta pegar um copo, recolhes uma pequena amostra, desde que não haja restos de outras bebidas, etc. Ao experimentares o que está naquele copo, tu consegues saber o que está naquela garrafa. É por isso que há muitas críticas de: "Mas só ouviram não sei quantas pessoas e vivem milhões ou são há milhões de eleitores". Nós não precisamos de beber a garrafa inteira, nós não precisamos de falar com todos os portugueses. A estatística permite-nos inferir através de uma amostra esta profissão. Se eu provar só uma gota de vinho, eu consigo saber o que é que está na garrafa? Também não, nem consigo saborear. Portanto, há uma quantidade, há uma dose certa que se nós seguirmos um conjunto de preceitos estatísticos, nós podemos fazer uma extrapolação para o universo. Isto é uma forma muito simples, os acadêmicos irão com certeza criticar-me por este exemplo, mas é a forma mais simples que eu tenho de explicar a quem nos possa estar a ouvir o que é uma sondagem.
Dá para perceber. Então e o que uma tracking poll é diferente de uma sondagem?
Deixa-me acrescentar um detalhe sobre a sondagem. A sondagem não é um modelo de previsão, é uma fotografia de um momento. Ou seja, se eu provar o vinho quando ele acaba de sair do frigorífico, ou quando acaba de sair, ou quando acabas de o abrir, e se experimentares num outro momento, ele pode ser diferente de um momento para o outro, correto?
Certo.
Portanto, aqui é a mesma coisa. A sondagem é uma fotografia do momento. O que é que aqueles consumidores, aqueles eleitores, o que é que eles estão a pensar naquele momento face às perguntas que nós lhes fazemos?
Disse consumidor, já agora, porque as sondagens também são feitas para outro tipo de coisas, não é apenas na política.
A sondagem é um modelo de extrapolação de uma amostra para um universo.
E naquele momento era aquilo que as pessoas pensavam desta forma e distribuídas desta forma.
Correto e afirmativo. E ao fazeres isso, ao tirares essa fotografia, recordas-te daqueles Polaroids antigos que vias a fotografia?
Sim.
Essa é uma fotografia. Isso é o que a sondagem faz. Então qual é a diferença para a tracking poll? A tracking poll, a única coisa que faz é tirar muitas fotografias seguidas. As pessoas hoje em dia com os telemóveis, muitas vezes já conseguem se carregarem muitas vezes, muitas vezes a própria ferramenta, o próprio telemóvel lhes faz um pequeno filme com uma animação dessas fotografias todas seguidas.
Como antigamente os desenhos animados, que se fazia desenhos e depois todos seguidos aquilo dava movimento.
É exatamente a mesma situação. O que significa? Ajuda-nos a ter uma história em movimento, ou seja, ajuda-nos a ter uma tendência do que está a acontecer àquilo que o universo, neste caso o universo de eleitores em Portugal, está a pensar sobre um determinado tema.
E tem validade científica, porque essa é uma das críticas que às vezes também se começa a dizer que tecnicamente não tem validade, etc. Ou é um exercício que pode ser útil para os partidos, que os partidos são muito clientes deste tipo de estudos, mas ser perigoso, por exemplo, mostrá-lo diariamente todos os dias na televisão?
A questão do perigo é uma questão filosófica. Eu tenho dito, em vários momentos em que sou confrontado com este tema, que se eu estiver a pensar fazer um piquenique no fim de semana e souber que está a chover, eu provavelmente ou vou a um shopping, ou vou a um cinema, ou fico em casa. Eu prefiro que os consumidores, que os eleitores tenham o máximo de informação possível e que façam com ela aquilo que bem entendam. Há quem ache que dar informação aos eleitores que não estão preparados para a receber, não estão preparados para digerir estes dados e esta informação, e portanto isso é uma forma de condicionar a opinião. Por isso eu digo, é uma questão filosófica de vida e de pensamento sobre o que é a democracia.
Então filosofia à parte, é um método científico?
Se a sondagem é um método científico, um tracking poll não deixa de ser um conjunto de várias sondagens. Tecnicamente, tracking poll não existe. Do ponto de vista da sua base, se tu isolares cada uma das sondagens realizadas, ela não tem nada de diferente do que outra sondagem. Entendes? Ou seja, elas são muitas sondagens.
Todos os dias é feita uma.
Exatamente.
E com uma amostra que vai variando.
O que nós vamos fazendo é, se eu quiser isolar, eu vou crescendo. Repara, o Expresso, a SIC, a Católica, a RTP, quando fazem uma sondagem, não fazem todas as entrevistas no mesmo dia. A Católica publicou recentemente uma sondagem com 1700 entrevistas. As 1700 entrevistas não foram feitas todas no mesmo dia. E portanto, o que acontece? Aqui é a mesma questão. Nós fazemos todos os dias um conjunto de entrevistas, só com uma nota, que é: nós garantimos que em cada dia estamos a cumprir todas as quotas, por género, por idade, por região, de forma a garantir que todas as entrevistas que nós ouvimos por dia são representativas da população.
E o que respondes a quem diz que a amostra é pequena, a margem de erro é enorme e, portanto, muitas vezes quando estão a dividir por estratos, estão a falar com muito poucas pessoas e isso não pode ser representativo.
Vamos lá ver, vamos por partes. A amostra é pequena porque os meios não compram mais. Se quiserem comprar mais, a amostra pode ser superior. Em todo o caso, se reparares, todas as sondagens que são publicadas, mesmo as pré-eleitorais, tu verás, por exemplo, a Aximage que faz com o DN, chega a ser uma amostra inferior a 600 entrevistas. O que não é a diária. No entanto, ninguém se queixa da dimensão da amostra. A Intercampus, que faz com o grupo Cofina para a CMTV e para o Correio da Manhã, por norma são 600 entrevistas também. E também não ouves ninguém queixar-se. A Católica fez uma amostra maior neste período. A SIC, a última que fez realizada, eu creio que são 800 entrevistas, estou a falar de cor, mas serão mais 200. Repara, isso não é grave. Por quê? Porque a estatística o que te diz é assim: quanto maior for a amostra, menor será a margem de erro. E portanto, a margem de erro está diretamente associada. Tu tens poucas coisas no país, nas previsões que são realizadas, que sejam tão tangíveis e tão mensuráveis como estas são. E portanto, se as amostras forem mais pequenas, significa que tem uma margem de erro maior. O que é isso da margem de erro? Imagina que eu faça uma pergunta se as pessoas gostam da forma como tu apresentas as sondagens à noite. E vou perguntar aos portugueses se o Pedro Benevides faz esta apresentação como deve de ser. Imagina que as pessoas dizem, 30% dizem que não gostam disto, e a margem de erro é de cinco pontos. Na verdade, a variação disto seria entre 25% a 35% dos portugueses não gostam da forma como tu apresentas. Portanto, esta margem de erro será maior ou menor de acordo com o número de entrevistas que são realizadas. Depois, se nós quisermos ver segmentos amostrais, sabermos o que os homens pensam, as mulheres pensam, quando começamos, isto é como um outdoor. Um outdoor funciona bem na rua, tu vês ao longe. Se quiseres ver muitos detalhes, se te aproximares, vais começar a ver os pixeizinhos do outdoor. Aqui é igual. Mas para a fotografia que nós estamos a apresentar em termos da comunicação, nós estamos a apresentar os grandes números. E esta é uma amostra que eu diria, desejavelmente é maior, quanto maior melhor, menor é a margem de erro. Aliás, vamos ter hoje, sexta-feira, quando apresentarmos a última vaga do tracking, vamos ter uma amostra muito maior, porque nos últimos dias aumentamos esta amostra.
E a margem de erro vai descendo.
O que é mau para nós, porque para estarmos dentro dos números, dentro da margem de erro, é mais difícil, portanto, a previsão é mais difícil. Em todo o caso, a fotografia que nós vamos dar, quanto maior a amostra, mais fidedigna é e mais clara ela se torna. Se não for, a margem de erro justifica-te isso mesmo.
E como é que as pessoas devem ler isso da sondagem diária, do tracking poll que temos feito? É porque normalmente, e sim, é verdade, nós mostramos quem é que está em primeiro, quem é que está em segundo, quem é que subiu, quem é que desceu, e depois isso acaba por ter uma dimensão que, no caso desta sondagem diária, não é exatamente o foco dessa sondagem, não é aquilo que nós queremos verdadeiramente dar a conhecer aos espetadores, ou aos leitores, ou aos ouvintes.
Pedro, eu tenho duas respostas pra ti neste tema. A primeira é: vamos imaginar que não estamos num período eleitoral. E vamos imaginar que um colega nosso, quem eu estimo muito, que é o Antônio Salvador, da Intercampus, publica uma sondagem mensal todos os meses no Correio da Manhã. E todos os órgãos vão comentar a sondagem. Por norma, comentam a sondagem, põem a sondagem, uma nova sondagem que foi publicada. E comentam comparando com o mês anterior.
Certo.
E quando fazem a comparação com o mês anterior, vão dizer: o PS subiu um ponto, o PSD subiu meio ponto, o outro subiu. As variações vão ser as mesmas, os comentários vão ser os mesmos. Do ponto de vista estatístico Os comentadores e as pessoas da academia têm razão quando dizem que grande parte dessas diferenças não tem relevância estatística.
Subiu 1,5 ponto e desceu 0,7.
Mas esses comentários são apresentados desta forma durante todo o ano e ninguém faz nenhuma crítica nem nenhum comentário. Quando são diários, a mesma comparação, as mesmas variações, que são iguais a todas as outras que fazem ao longo do ano, ganham outra relevância. Portanto, temos dois temas. Estatisticamente-
Talvez isso tenha a ver com o facto, porque esse é um argumento que é usado muitas vezes, que em 2022 esta tracking poll, também da TVI, da CNN Portugal, falhou porque mostrou António Costa e Rui Rio praticamente empatados e depois António Costa veio a ganhar com maioria absoluta. O que se passou nesse ano?
Deixa-me tentar responder à questão. A Pitagórica já fez tracking poll convosco em 2019, em 2022, em 2024 fizemos para um candidato privado, para uma coligação de partidos, e em 2025 voltamos a fazer convosco. Como é que nós podemos saber se uma tracking poll ou se uma sondagem publicada foi boa ou foi má? Pegam-se nos últimos resultados publicados de cada uma destas sondagens e comparam-se com os resultados reais e veem-se os desvios médios que cada um dos institutos teve.
Certo, estamos a falar do último dia.
Sim, mas deixa-me ir por partes. A forma de avaliar é esta: calculam-se os desvios médios de cada um dos institutos. Em 2019, nós fomos o segundo, em termos de desvio médio mais baixo, ou seja, aquele que mais se aproximou, fomos o segundo instituto. Em 2022 fomos o primeiro e em 2025 fomos o primeiro. Isto quer dizer que os outros falharam? Não, não quer dizer nada disso. Quer dizer que a generalidade dos institutos tiveram resultados todos excecionais. E portanto, o que acontece então em 2022? Em 15 dias de observação, há um dia em que o PSD está à frente do PS, ou seja, há um dia que foi se aproximando, esteve à frente e a seguir há uma reação e volta outra vez a afastar-se. E quando chegamos à sexta-feira antes da eleição, a previsão que foi feita, por exemplo, na distribuição de mandatos para esse ato eleitoral na sexta-feira, o intervalo superior era de 115 para o território nacional, para os não residentes e emigração. Era o Partido Socialista. Ele teve 117. E em relação ao voto, ficou abaixo da margem de erro. Ou seja, o intervalo superior não bateu no resultado por um ponto qualquer. Mas mesmo assim, fomos o instituto com menor desvio médio. Ou seja, este tracking, o que acontece? As pessoas preferem escolher um dia onde esteve à frente, mas mal seria que nós não tivéssemos conseguido perceber os comportamentos que existiram ao longo da campanha. Há ainda muito boa gente que está convencida que os eleitores pertencem aos partidos e, portanto, 15 dias antes, têm exatamente o mesmo comportamento do que têm no dia antes da eleição. Não é assim que funciona. Tem vindo a mudar muito, vai mudar ainda mais, porque as novas gerações não têm fidelização partidária e, portanto, isso gera oscilações enormes na volatilidade do voto e naqueles partidos e nos candidatos em quem podem votar. E, ao mesmo tempo, isto permite que um resultado no início de um tracking não tenha a ver com o resultado no final. Aliás, pegue-se nestes resultados e vamos ver depois no domingo o que aconteceu.
O que acontece hoje quando dermos os últimos resultados e depois o que acontece no domingo. Alexandre, obrigado. Alexandre Picoto é administrador da Pitagórica, a empresa que faz a sondagem diária transmitida na TVI e na CNN Portugal. Logo à noite divulgamos o último resultado desta primeira volta das presidenciais e com uma amostra ainda maior para tentar captar o efeito que as acusações de assédio sexual podem ou não ter nas intenções de voto de Cotrim de Figueiredo, um dos favoritos para passar à segunda volta. A campanha termina hoje com os principais candidatos a darem o tudo por tudo no derradeiro apelo ao voto. Para alguns, é garantir que aquilo que dizem as sondagens se confirma mesmo nas urnas. Para outros, é um sprint final para tentar convencer os eleitores que até agora se mostraram mais inclinados em votar noutro candidato. Espere presenças de peso, multidões e discursos inflamados e respire fundo, porque à meia-noite entramos naquela estranha figura do dia de reflexão. E depois no domingo, independentemente do que pense de sondagens e de tracking polls, é dia de sair à rua e votar. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Tição, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.