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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a viagem desconfortável de Donald Trump à China.
"President Xi is a good man, smart man, loves China."
Um homem esperto que adora a China. Em linguagem de Donald Trump, isto quer dizer um bom negociador que pensa, em primeiro lugar, nos interesses do seu país. O presidente dos Estados Unidos fala assim de Xi Jinping, com quem vai encontrar-se amanhã em Pequim, na tão aguardada reunião Estados Unidos-China. Dois arquiinimigos, dois competidores sem rival, duas potências que passaram anos a medir forças, mas nos últimos meses sobretudo por causa da guerra do Irão, um desses países perdeu força negocial. Meteu-se numa guerra da qual não consegue sair e precisa de ajuda. Mais uma vez, usando a linguagem de Trump, perdeu as cartas que tinha na mão. Hoje vamos falar sobre isto com o professor Jorge Tavares da Silva, especialista em diplomacia, negociação internacional e assuntos chineses. Vamos perceber o que quer cada país deste encontro, o que explica este desequilíbrio de forças e o que a China pode dar a Trump em troca de uma nova posição americana sobre Taiwan. Eu sou o Pedro Benovides e esta é a história do dia de quarta-feira, 13 de maio. Olá, professor, bem-vindo.
Muito obrigado pelo convite.
Vamos olhar aqui para esta visita, que é sempre histórica. Na verdade, é a segunda vez que Donald Trump vai à China, é a primeira vez neste mandato, mas eu diria que entre 2017, que foi a primeira vez que ele lá foi, e 2026, que é quando vai acontecer esta visita, digamos que o presidente dos Estados Unidos vai numa posição um bocadinho diferente da que estava na primeira vez que lá foi. Concorda?
Concordo. Não só o presidente americano está numa situação mais fragilizada, como a China, entretanto, também ganhou um maior poder negocial e, portanto, há aqui um desequilíbrio que me parece agora evidente. O Donald Trump com alguns indicadores menos positivos, um conflito que não lhe correu propriamente como pensaria.
Não está a correr, aliás, que ainda não terminou.
Não está a correr. Também indicadores de economia não muito favoráveis, nomeadamente a sua política de tarifas, que também teve um impacto muito mais negativo do que aquele que pensaria. E, portanto, fruto de todo este cenário, aparece aqui com uma posição bastante fragilizada que Xi Jinping e a China podem aproveitar para tirar alguns dividendos, o que não aconteceu na visita anterior, onde os Estados Unidos puderam aproveitar um bocadinho melhor o contexto à altura.
Sendo que nós falamos aqui da história das tarifas comerciais, as guerras comerciais, a China, e para quem está a olhar para esta visita lembrando-se disto tudo, pode parecer estranho, porque talvez a China tenha sido o país onde Donald Trump foi mais agressivo em termos de ameaças que fez, depois a coisa acabou por não ter a dimensão que se anunciava. Mas há, de facto, um ambiente de tensão, de competição muito grande entre estes dois países do ponto de vista econômico. Nesse sentido, para quem não está a acompanhar ou está a acompanhar apenas por estas notícias, como é que nós devemos olhar para esta visita, para este encontro entre estes dois homens que são representantes destas duas supereconomias?
Este encontro, acima de tudo, é de duas nações que estão em separação, em divisão do ponto de vista global. Isso é evidente, há uma fratura. Há dois mundos, até podemos dizer desta forma, dois mundos econômicos, dois mundos políticos que estão em perfeita colisão e dois poderes, acima de tudo, porque são aqui as dimensões de poder que estão em causa. Mas simultaneamente, há uma necessidade, apesar de tudo, dos dois dialogarem. É uma espécie de divórcio em que as duas pessoas divorciadas precisam, apesar de tudo, ter algum diálogo para resolver algumas questões e não escalar a situação. Entendem-no assim, mas apesar de tudo, há uma rota de colisão e cada um está a caminhar em sentidos opostos. A China apoiando-se muito em uma alternativa global, com instituições, com parceiros, muito numa esfera mais autoritária e oferecendo um mundo alternativo, de instituições e por aí fora, e os Estados Unidos a desafiar esse poder. Ou seja, foi desafiado no sentido de um domínio global e está a tentar reagir a essa supremacia alternativa que aparece agora. E é estes Estados Unidos e esta administração Trump que está muito neste sentido. Só que as coisas não correm como o pensado e, por exemplo, nesta política que estávamos a falar, esta política comercial, repare-se que houve uma aplicação de tarifas que puderam chegar aos 145%, mas logo imediatamente a China ripostou com as terras raras e Donald Trump teve que recuar. A China não é um parceiro fácil neste momento de poder superar, e é essa posição relativamente confortável que a China tem vindo a ganhar em termos globais, que está aqui em causa e os Estados Unidos, apesar de tudo, estão limitados muito na sua ação.
Há, aliás, quem diga que a China aprendeu a lidar com Donald Trump, porque, por exemplo, a questão das terras raras, que para quem não sabe, as terras raras são minerais que são usados em muitas coisas hoje em dia, dos carros elétricos aos telemóveis, em inteligência artificial, há uma série de aplicações, e a China domina completamente esse mercado. E usou, obviamente, isso como arma de arremesso quando Donald Trump ameaçou com as tarifas. Aprendeu ou usou do seu poder e da sua força também para mostrar a Trump que ele não pode fazer o que quer.
Sim, e a China era muito menos confrontacional do que é hoje. Há uns anos atrás, anos 90, desta diplomacia entre os Estados Unidos e a China, a China normalmente ficava numa situação mais vulnerável, era muitas vezes confrontada com as questões de direitos humanos e não reagia a uma parte desta diplomacia mais agressiva, nomeadamente por parte dos Estados Unidos. Hoje já não é assim. Já reage, já emite opinião muitas vezes até desafiadora, chamando que esta diplomacia atual e todo este contexto atual parece um pouco a lei da selva, confrontando muitas vezes, às vezes não diretamente, mas percebemos que o discurso é para os Estados Unidos e tem essa retórica nova de confrontar os próprios Estados Unidos. Percebemos isso e percebemos que vai jogando também com as suas peças, nomeadamente esta questão das terras raras. Mas atenção, que eu acho que aqui nesta visita, apesar de tudo, por parte dos Estados Unidos, também há uma tentativa de ganhar tempo, porque há uma consciência que as terras raras são fundamentais para setores muito importantes da indústria americana e vão precisar de revitalizar uma parte da sua capacidade de também ter terras raras e encontrar novos parceiros para encontrar esses tais minerais e vai precisar de tempo. Por quê? Porque a China, entretanto, durante muitos anos, efetivamente desenvolveu toda esta área e agora é difícil de competir. Há aqui uma necessidade de tentar encontrar uma via alternativa, agora os Estados Unidos numa posição inferior neste domínio.
Sendo que uma das razões para essa inferioridade dos Estados Unidos neste encontro tem a ver precisamente com a guerra do Irão. Vamos falar sobre isso na segunda parte e vamos falar também de um tema muito delicado nas relações entre os dois países, que é Taiwan. Até já. Estamos de regresso à conversa com o professor Jorge Tavares da Silva. Vou perguntar-lhe sobre esta questão do Irão. Donald Trump já deixou a entender muito claramente que vai, ele não diz pedir, porque obviamente isso não seria uma palavra do seu vocabulário, mas vai tentar que Pequim interceda junto de Teerão para pôr fim a uma guerra, que na verdade foram os próprios Estados Unidos a começar. Este é um dos temas sensíveis, é um dos temas que mostra de fato a fragilidade com que Donald Trump se vai apresentar perante Xi Jinping.
Em grande medida, sim. Repare que o cenário podia ser completamente distinto. Se Donald Trump tivesse saído do conflito com o Irão de forma muito triunfal, estaria nesta mesa, vamos chamar de negociações ou neste espaço de diálogo com Xi Jinping, numa situação muito confortável. Por quê? Porque o Irão é um parceiro importante da China no Médio Oriente, está integrado agora em algumas das organizações chinesas e é um ator importante para a China e de onde vem uma parte importante dos seus recursos naturais. Com Donald Trump numa posição vitoriosa, seria muito mais Xi Jinping a estar numa posição vulnerável. Ora, não é isso que aconteceu. Agora quase que vem pedir para Xi Jinping, a China, interceder para a resolução do conflito, porque percebeu que se meteu numa situação agora difícil de sair e esse será um dos pontos que Xi Jinping pode aproveitar. Naturalmente que o discurso chinês é sempre numa lógica de paz, de resolução, muitas vezes não interferindo nos conflitos, mas nós sabemos que há canais informais de ligação entre o Irão e a China. Aliás, os ministros dos Negócios Estrangeiros de um e de outro país reuniram-se muito recentemente e há diálogos. E a China tem alguma influência no Irão, mas também vamos ser claros, este conflito também é útil à China, porque ainda que tenha efeitos sobre a economia, e nós sabemos que também há um impacto de inflação na China, repare como os Estados Unidos se envolvendo em demasia neste conflito, deixa toda a parte asiática relativamente para um segundo plano, e isso é importante para uma China que se quer afirmar na sua área marítima mais próxima. Tem também aqui algumas vantagens que a China pode retirar.
Sendo que uma das questões que se tem falado muito é que esta política bélica agressiva de Donald Trump, que invade países e do ponto de vista retórico, vendia a imagem que podia fazer o que quisesse porque tinha superioridade militar, é também perigosa quando se olha para as ambições da China e sobretudo aquilo que a China pode fazer em Taiwan, onde os dois países também têm interesses completamente diferentes. A China pode sentir-se agora mais tentada a invadir Taiwan?
Essa é a questão que toda gente quererá saber, no sentido de tentarmos descrutinar se efetivamente, segundo algumas fontes de informação, os serviços de informações americanos, enfim, estaria projetado para o próximo ano uma intervenção militar chinesa no sentido de recuperar a soberania do território de Taiwan. Há sempre essa possibilidade. Repare que não fica para sempre. A questão Taiwan já tem sido dito por muitos líderes chineses que não pode ficar eternamente esta questão por resolver. E pensamos que numa lógica de poder muito forte como é o de Xi Jinping, também muito nacionalista, que poderá querer resolver no futuro próximo. Não podemos retirar isso na mesa. Eu diria que neste momento, apesar de tudo, há uma expectativa relativamente ao ciclo político dentro de Taiwan, que pode ser mais favorável à China, e esperar um momento mais oportuno. Lembremos que a líder do partido nacionalista visitou muito recentemente a China continental e há aqui alguns sinais de apaziguamento que poderão ser importantes, mas precisava de mudar o ciclo político em Taiwan. Eu diria que a China, com a sua paciência milenar, vai esperar esse cenário mais positivoAgora, não está fora de questão uma intervenção militar, não podemos dizer de tudo. De Donald Trump, neste contexto diplomático, o que poderá sair, que também se está a falar, é alguma cedência ou pelo menos alguma mudança na retórica americana, no sentido de dizer que não apoiam — e isto é importante para a China, naturalmente — a independência da ilha. Isso já seria importante para os objetivos de Xi Jinping e, de alguma forma, atenuar o apoio militar a Taiwan, o que também poderia ser importante para a China continental. Isto será feito, e podemos acreditar neste cenário, evidentemente, se Donald Trump tirar dividendos nos outros campos. Terras raras, comércio, eventualmente alguns produtos na soja e outros produtos americanos ou até algum investimento chinês na China. Há sempre uma contrapartida, há sempre um ganho e seria Taiwan a ser cedido aos interesses chineses, mas num tabuleiro de ganhos e perdas, porque é efetivamente assim o cenário sempre de negociação. Ganhos e perdas faz parte de um processo negocial entre duas partes.
Já agora uma última pergunta. Sendo especialista em negociações internacionais e em diplomacia, a figura de Donald Trump é completamente radicalmente diferente daquilo que é Xi Jinping, em termos de um é retórica acima de tudo, é autoproclamação, o outro é uma discrição absoluta, como é normal na diplomacia chinesa. Ainda assim, consegue ver Donald Trump como um interlocutor que, na verdade, vai ao encontro dos interesses da China?
Pode ir ao encontro dos interesses da China, ou seja, a China, apesar de tudo, há uma aprendizagem, no sentido de capitalizar algumas das características que Donald Trump tem. Mas são dois países, apesar de tudo, que são opostos e estas duas lideranças são completamente opostas. Se há alguma coisa que os une é a vontade de terem poder, isso sim, pode ser aquilo que mais une um e outro. São estilos completamente distintos, mas há uma vontade, no fundo, de serem homens importantes dentro das suas nações. Mas eu acho que é essencialmente um processo de aprendizagem que a China pode capitalizar. E eu vou lhe dizer talvez o aspecto que a China mais ganha com Donald Trump é o fato de ele ter fragilizado as suas alianças tradicionais. Há países que neste momento estão a virar uma parte da sua diplomacia precisamente para a China e são ganhos diplomáticos importantes, precisamente porque Donald Trump tem uma visão unipolar, tem uma visão única de si próprio, do seu país e dos seus interesses, prejudicando relações, nomeadamente com a Europa, por exemplo, e outros parceiros internacionais. E isso é muito capitalizado pela China, que vai procurar espaços vazios e naturalmente tira dividendos de todo este processo.
Professor, muito obrigado.
Obrigado, foi um gosto.
Igualmente. Eu conversei com o professor Jorge Tavares da Silva, da Universidade da Beira Interior, sobre esta visita de Trump à China. Na bagagem, o presidente dos Estados Unidos leva interesses geopolíticos e interesses comerciais. Aliás, com o presidente dos Estados Unidos viaja também o quem é quem do poder económico americano. Xi Jinping deve apreciar a diferença. E mesmo que no fim Donald Trump reclame uma vitória negocial sem precedentes, o presidente chinês continuará imperturbável, discreto, mas não vai esquecer que desta vez foi Donald Trump quem apareceu de mão estendida ainda antes do aperto de mão entre os dois líderes. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benovides. Até amanhã.