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Esta é a história do dia da Rádio Observador: colaboracionismo e tortura, como Putin controla a Ucrânia ocupada. "Rússia, Rússia, minha Rússia, grande potência, terra natal." A canção de Sergey Voytenko em "A Minha Rússia" foi uma das muitas utilizadas pela propaganda russa nos territórios ocupados da Ucrânia durante o referendo sobre se a população queria pertencer à Federação Russa. Vinte por cento do território da Ucrânia está neste momento ocupado pela Rússia. É nestas zonas que Putin está a implementar um plano de russificação dos territórios. De acordo com Moscovo, este é um processo de transição para aquelas que serão as novas regiões da Federação Russa. A russificação inclui tornar num pesadelo a vida para os habitantes ucranianos destas localidades, com tortura e perseguições. Vou conversar sobre este processo com a Cátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Eu sou a Teresa de Cassis e esta é a história do dia de terça-feira, 24 de junho. Bem-vinda, Cátia.
Olá, Teresa.
A guerra na Ucrânia dura há mais de três anos. Neste momento, a Rússia ocupa cerca de 20% do território ucraniano. Que regiões são estas e como é que se vive nelas? Há alguma perspectiva de que a Ucrânia as possa vir a recuperar?
A Rússia oficialmente só ocupa territórios ucranianos desde 2022, mas desde 2014, quando houve os referendos separatistas nas regiões de Donetsk e Luhansk, na verdade, já tinha muita influência, porque eram autoridades próximas de Moscovo. Agora não são as únicas regiões que estão ocupadas. Para além de Donetsk e Luhansk, que até aqui eram sobretudo as cidades capitais dessas regiões, agora também controla muitas aldeias em toda a zona do Donbass, no leste da Ucrânia, e também partes do sul, nas regiões de Zaporíjia e de Kherson. A forma como se vive nelas é muito diferente do resto da Ucrânia. Formalmente estão subjugadas a regras da Federação Russa, mas na verdade, há ali coisas específicas, o chamado período de transição. Se há a perspectiva de a Ucrânia as recuperar ou não, é a grande incógnita de como é que irá continuar esta guerra. Sendo que as negociações que têm sido faladas, sabemos que há alguma abertura, por exemplo, dos Estados Unidos para que a Ucrânia abdique de parte desses territórios, mas Kiev continua a dizer que não o vai fazer.
Falaste no processo de transição que se vive nestas regiões, também chamado de processo de russificação. Este processo já foi aplicado em diferentes zonas e segue sempre os mesmos passos. Que passos são estes?
São uma série de passos que se têm repetido em todas estas regiões à medida que são ocupadas. E começa logo por aquilo que alguns estilistas chamam de um teatro legal. Esse teatro legal foi a realização de referendos nestas regiões em que as populações teriam votado a favor de serem integradas na Federação Russa, portanto, serem formalmente anexadas. Só que estes referendos ocorreram de forma que a comunidade internacional considera fraudulenta. Ocorreram em tempo de guerra, ocorreram com pessoas armadas a levar urnas, com clima de intimidação, sem observadores internacionais e, portanto, nenhum país do mundo reconheceu os resultados como legítimos, a não ser a Coreia do Norte. E é a partir desse passo, que depois se passa para os outros, como a obrigação das pessoas adquirirem passaportes russos, a forma como as escolas, por exemplo, também começam a integrar o currículo russo e a ter um discurso muito diferente da história do que aquilo que existia na Ucrânia. Há uma série de fenômenos comuns a todas estas regiões e que são direcionados pela própria Federação Russa.
Falando ainda dos referendos, por que a Rússia se dá o trabalho de fazê-los, se toda gente sabe que as pessoas não estão a votar livremente?
Há uma definição interessante de um jornalista ucraniano que disse que Putin é um legalista. Ao longo do tempo, sempre houve ações eleitorais na Rússia que nos parecem estranhas, no sentido em que parece evidente para todos que há fraude eleitoral. Isso acontece nas eleições presidenciais russas, por exemplo, há muito tempo, com muitas ONGs a denunciarem fraude eleitoral. Mas elas continuam a ser feitas porque há esta vontade do Kremlin de criar uma aparência de legalidade e porque também é uma forma de transmitir uma mensagem para as próprias populações dos territórios ocupados de que a Rússia está ali e este território agora é russo e vai permanecer russo durante muito tempo. Os referendos acabam por cumprir uma função legalista, mas também uma função de propaganda.
E a seguir aos referendos, segue-se uma nova etapa, como também falaste. A tal da identificação da população e substituição dos serviços básicos, que passam a fazer parte da Federação Russa.
Sim, aquilo que está a acontecer é que há um incentivo para que os ucranianos que vivem nesses territórios adquiram cidadania russa e passem a ter um passaporte russo. Eles têm um prazo para o fazer ainda este ano, em setembro, se não o fizerem até lá, são considerados cidadãos estrangeiros e, portanto, podem ser deportados. Mas esse passaporte é particularmente relevante para as pessoas poderem fazer a sua vida normal. Isto porque sem passaporte não é possível, por exemplo, pedir compensação pelas casas que as pessoas tiveram destruídas, não é possível aceder a hospitais, a centros de saúde, a ter receitas de medicamentos. A ajuda humanitária que foi distribuída nos primeiros tempos também era mais disponível para quem já tinha acedido a esse passaporte. E há relatos como, por exemplo, situações em hospitais onde as mães que acabam de dar à luz são ameaçadas de que os seus filhos lhes serão retirados se nenhum dos pais tiver o passaporte russo.
E aqui também cria-se uma situação um bocado perversa, que é: estes cidadãos passam a ser cidadãos russos e podem ser chamados a lutar contra a Ucrânia.
Sim, e isso está, de facto, a acontecer. Desde o início da invasão, logo nos primeiros territórios ocupados de Donetsk e Luhansk, começou a haver um processo de chamar para a recruta militar homens que tinham passaporte russo e que tinham entre os 15 e os 55 anos. Depois, estes homens são enviados para combater ao lado do exército russo. E os testemunhos que surgem na imprensa independente russa, por exemplo, que fala com alguns cidadãos ucranianos que têm familiares a combater, dizem-nos que muitos deles são enviados para a linha da frente, que estão a cavar trincheiras e, portanto, sujeitos a ataques ucranianos. Há até quem diga que têm funcionado como carne para canhão, que são soldados de segunda face aos soldados russos, e o número de homens enviados para combater está continuamente a aumentar e à medida que mais pessoas tiverem passaporte, mais pessoas serão enviadas para a linha da frente.
Já voltamos à conversa com Cátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Na segunda parte falamos sobre as táticas de tortura e perseguição levadas a cabo pelo regime de Putin na Ucrânia ocupada. Estamos de regresso à conversa com Cátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Cátia, como é que estes territórios ucranianos ocupados pela Rússia são vistos pelo resto da Ucrânia? Parte deles já estavam ocupados antes da invasão de larga escala em 2022 e a cultura russa já fazia parte destas localidades antes da guerra.
Sim, sobretudo a região do Donbass, no leste da Ucrânia, foi uma região que se tornou muito importante para a União Soviética, porque é uma zona de muitos recursos minerais, muitas minas foram estabelecidas ali e isso teve uma importância enorme para o desenvolvimento da economia soviética e a partir daí criou-se uma ligação quase umbilical, que assentava muito no facto de as pessoas falarem russo e, portanto, criou-se uma identidade ligada à língua, que de certa forma era mais próxima da Rússia do que da Ucrânia. Mas na verdade, há aqui uma situação ambígua, porque embora muitos destes ucranianos falem russo, alguns sentem-se mais próximos da Rússia, outros não. E vemos isso, por exemplo, nos resultados eleitorais, porque mais de 80% dos eleitores nesta zona, depois da União Soviética cair, votaram a favor da independência da Ucrânia como Estado independente, mas ao mesmo tempo, os partidos ucranianos pró-russos foram tendo votações mais altas nas eleições seguintes. Portanto, esta situação é ambígua. Há quem diga que a identidade do Donbass está mais ligada ao passado soviético do que à Rússia atual, que há uma ligação aos tempos do operariado e à ideia dos trabalhadores do que à Rússia em si neste momento. Mas a verdade é que, obviamente, também há habitantes do Donbass que se identificam mais com a Rússia e isso não é bem visto por muitos ucranianos no ocidente do país.
Já descreveste como a Rússia dificulta a vida a todos aqueles que se opõem à ocupação, mas mesmo assim ainda há quem resista. Como é que funciona a resistência nestes lugares?
Há alguns grupos que formam uma espécie de movimentos de guerrilha e que têm sobretudo expressão no Telegram, por exemplo, e noutras aplicações semelhantes, onde divulgam as ações que vão fazendo e que às vezes são gestos simbólicos, como espalhar panfletos para a Ucrânia pelas ruas ou desenhar laços amarelos que são associados à Ucrânia. Mas há grupos que também dizem que são responsáveis por ações de sabotagem, colocando bombas e tentando assassinar altos responsáveis russos. Não sabemos até que ponto é que há, de facto, estas estruturas montadas, mas sabemos, porque os serviços secretos ucranianos já o confirmaram, que mantêm relações com alguns destes ucranianos e, portanto, pelo menos partilha de informação para o Estado ucraniano está a acontecer.
Mas sabemos que existe também uma repressão quando estas pessoas são identificadas. Existe até uma rede de colaboradores informais que os denuncia
Sim, é óbvio que como em todas as guerras e quando se ocupam territórios, há sempre movimentos de resistência, mas também há sempre movimentos de colaboração, às vezes de pessoas que têm objetivos de aproveitar a nova situação para melhorar a sua vida, outros apenas porque é uma forma de sobreviver e de lidar com o que existe. Aquilo que temos a certeza, porque muitas ONGs já fizeram esse trabalho e as próprias Nações Unidas garantem que há centenas de casos de ucranianos nos territórios ocupados que foram detidos e sujeitos a tortura. E há vários tipos de tortura a serem aplicados naquilo que os ucranianos chamam as caves, que são uma espécie de prisões improvisadas, que os militares russos foram usando para fazer esta tortura. E são relatos muito duros e que são, sobretudo, estratégias aplicadas a ucranianos considerados subversivos. Ucranianos que colaborariam de alguma forma ou com o exército ucraniano ou que tenham algum tipo de ligação a um sentimento nacionalista ucraniano. Portanto, muitos dos detidos, por vezes, são ou antigos soldados que meteram pela Ucrânia ou professores, jornalistas. Mas há relatos também de crianças detidas, por exemplo, e de civis que não tinham nenhuma razão aparente para serem detidos, mas porque são denunciados, muitas vezes pelos tais colaboradores, acabam por ser também presos e sujeitos a tortura.
Faz lembrar a vida noutras guerras sobre as quais já ouvimos falar e até estudámos na escola. Cátia, há alguma perspectiva para o final deste conflito? E mesmo que ele acabe, a perspectiva de vida nestes territórios que estamos a falar poderá ser melhor?
É muito difícil perceber como é que o leste da Ucrânia, mesmo que a Ucrânia recupere estes territórios, conseguirá viver daí para frente com uma semelhança total ao que se passa no resto da Ucrânia. Porque para além das questões culturais que falámos e que já existiam antes da invasão, temos também uma zona que economicamente está completamente destruída. Há aldeias inteiras que foram arrasadas. Podemos pensar, por exemplo, Bakhmut tinha milhares de pessoas, neste momento terá cerca de 500 habitantes. Portanto, não há qualquer tipo de desenvolvimento económico naquelas regiões e, por isso, mesmo numa situação em que a Ucrânia recupere esses territórios, é muito claro que vai ser um processo longo de reintegração do leste na Ucrânia. E se estes territórios permanecerem sob o domínio russo, também parece muito claro que vão ter uma trajetória muito semelhante à de muitas regiões russas que não são Moscovo nem São Petersburgo e que, portanto, têm muito menos investimento do Estado e há uma sensação de muitos cidadãos de se sentirem esquecidos pelo Estado russo e portanto parece-me que isso também pode acontecer no Donbass.
Obrigada, Cátia.
Obrigada eu, Teresa.
Cátia Bruno é editora de internacional do Observador. Deixo ainda as notas de destaque para esta terça-feira. Começa a Cimeira da NATO em Haia. Em cima da mesa está o aumento das despesas militares, que podem passar dos 2% para os 3 ou 3,5%. Luís Montenegro e Paulo Rangel representam Portugal no encontro. Esta terça-feira começam as celebrações do casamento entre o milionário Jeff Bezos, dono da Amazon, e a apresentadora de televisão Lauren Sánchez. Vão ser três dias de festa em Veneza, onde vão estar celebridades como Ivanka Trump, Oprah Winfrey ou Bill Gates. A seleção feminina de sub-19 poderá fazer história e chegar à final do Campeonato Europeu de Futebol, que decorre na Polónia. Para isso, tem de vencer a França nas meias-finais, ainda hoje ao final da tarde. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar e do João Tição. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Bacasis. Até amanhã.