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Esta é a história do dia da Rádio Observador: as últimas horas de uma menina de oito anos. É manhã de quarta-feira. A criança de oito anos está a sair do autocarro. Não chega a entrar na escola porque a madrasta está lá à espera. Vai buscá-la, mete-a no carro. E essa é a última vez que a criança volta a ser vista com vida. O que acontece depois é um crime chocante, daqueles que desafiam a nossa capacidade de compreender o mundo. Uma menina de apenas oito anos, morta, ao que tudo indica, por asfixia e por uma pessoa que lhe era próxima, que partilhava com ela o núcleo familiar. Nesta quinta-feira, quando a notícia se espalhou por todo lado, pelos jornais, pelos canais de informação, pelos programas da manhã, o jornalista do Observador, Miguel Pinheiro Correia, foi enviado para Valpaços. E é com ele que eu vou conversar hoje para fazermos a fita do tempo deste crime, no seio de uma família desestruturada, para sabermos quais foram as linhas de investigação, o que falta ainda confirmar. No fundo, para tentar conhecer as personalidades envolvidas nesta história de violência e de vingança. Eu sou o Pedro Genovides e esta é a história do dia de sexta-feira, 19 de junho. Olá, Miguel.
Viva, Pedro.
Diz-me já agora, para começarmos, exatamente onde é que tu estás.
Neste momento estou em Carrazedo de Montenegro, uma localidade de Valpaços, perto da escola onde estudava esta rapariga que foi encontrada morta.
A escola é um elemento essencial da fita do tempo desta história. Nós sabemos que a criança saiu de casa precisamente para ir à escola. Quando é que se percebeu que alguma coisa tinha corrido mal?
Segundo os relatos de alguns pais aqui perto da escola, e também de alguns vizinhos, esta criança apanhava sempre o autocarro. E neste dia não foi diferente. Nesta quarta-feira não foi diferente. Apanhou o autocarro e foi deixada na escola. Aí é que o trajeto fugiu à norma. Ela, em vez de entrar na escola, surgiu a madrasta. Para contexto, ela vive com a madrasta e com o pai, e surgiu esta madrasta que a impediu de entrar na escola, por algum motivo, mas impediu-a de entrar na escola e levou-a com ela. Portanto, ela do caminho do autocarro para a escola, apareceu a madrasta, levou-a e depois, entretanto, foi dada como desaparecida. Foi nesse momento que foi vista pela última vez.
Portanto, eu imagino que o pai, que foi quem deu o alerta, pescou a hora em que a criança deveria chegar a casa, não chegou, e terá dado o alerta na sequência disso.
Sim, foi precisamente isso. A indicação que nós temos, até da própria CPCJ de Valpaços, indicou a hora em que receberam esse alerta para esse desaparecimento. Foi por volta das 18h, um bocadinho antes, por isso, lá está, a hora em que deveria sair da escola ou em que deveria estar a chegar a casa e em que o pai detetou essa anormalidade e fez os contactos normais numa situação destas, para a GNR primeiro, e depois aí entraram as diligências da GNR. O que me disseram aqui da GNR foi que, ao início, um desaparecimento é sempre uma coisa grave e ainda por cima de uma criança, mas estavam longe de imaginar que esta criança seria encontrada horas mais tarde, longe, ainda um bocadinho longe, uns 20 km daqui onde me encontro, da escola, por isso. E estavam longe de imaginar que ela seria encontrada morta na serra.
E foi exatamente isso que aconteceu. Vamos só tentar perceber um bocadinho este núcleo familiar. Portanto, nós estamos a falar do pai, estamos a falar da madrasta, estamos a falar da criança. Que família era esta?
O relato que me fizeram os vizinhos foi ao longo desta manhã e também nesta tarde. Falei com alguns vizinhos e entre os vizinhos que me sabiam dizer alguma coisa, porque cheguei a apanhar um senhor que era imigrante, porque era uma zona com muitos imigrantes, e que ele tinha acabado de chegar, não sabia nada, mas os outros vizinhos conheciam bem a família, ou conheciam mais ou menos bem a família, mas sobretudo o pai desta criança conheciam muito bem. Isto é em Celeirós, que é aqui perto da escola, há uns 10, 15 minutos, e o pai sempre viveu em Celeirós. Ele cresceu com os pais dele lá, ou seja, os avós da menina cresceram por ali e por isso ele, entretanto, casou com uma mulher, a mãe desta menina desaparecida. Divorciaram-se depois. A mãe teve problemas, teve uma depressão, eles separaram-se, divorciaram-se e, entretanto, ele começou a viver com esta madrasta, com esta senhora agora detida pela Polícia Judiciária.
Portanto, ele ficou com a criança a cargo dele.
Exatamente, sim. Ele vivia com a criança e os vizinhos o que me diziam é que o pai trabalha na construção civil. A madrasta trabalhava, fazia limpezas de casas, portanto, passavam muito tempo a trabalhar. Eles viam pouco os pais, mas viam muito a menina que ia apanhar o autocarro mesmo em frente a casa, como eu disse, apanhava lá o autocarro, ia para a escola e eles nesse pequeno percurso viam-na muitas vezes, viam-na na escola, claro.
Que era o percurso que ela fazia sempre, todos os dias. Apanhar o autocarro, ir até à escola, da escola depois apanhava novamente o autocarro para casa.
Sim, e no verão viam-na mais vezes porque ela ia à casa dos avós. Os avós, ou seja, pais do pai, vivem perto, também vivem na aldeia de Celeirós, e ela ia muitas vezes à casa dos avós e por isso viam-na também nesses trajetos. E falam de uma rapariga muito simpática. Claro, lá está Muito nova e por isso também comoveu. Comover até parece uma palavra que parece pouco para a dor que está presente nesta aldeia.
Parece uma palavra gratuita. Eu já vou à parte de como é que estão a reagir as pessoas perante um crime desta natureza num meio tão pequeno como esse. Na história há mais um elemento que acaba por ser decisivo, ou seja, a polícia, aquilo que nos diz, as autoridades que estão a investigar este crime, o que nos dizem é que se trata de um episódio de vingança. Vingança por quê, exatamente?
O que a polícia diz, neste caso a Polícia Judiciária, e também importa voltar aqui um bocadinho atrás, quando eu há pouco falava da questão da GNR começar as diligências ou a investigação. Entretanto, quando falam com o pai, percebem que há fortes suspeitas de envolvimento desta mulher, desta madrasta. E por isso, nesse momento, a PJ entra na investigação e assume esta investigação e depois acabam por encontrar a menina na serra, uma serra lá está que ainda é um bocadinho longe de aqui, mas encontraram-na lá.
O pai fala primeiro com a GNR na sequência da denúncia do desaparecimento, quando comunica o desaparecimento da filha. Na sequência dessa conversa, a GNR começa a ter suspeitas de que a madrasta pode estar envolvida. E é a partir daí que o caso passa para as mãos da Polícia Judiciária, que vai deter e ouvir essa madrasta, certo?
Exatamente. A GNR primeiro percebe o que está em causa, fala com a PJ e a PJ, observando estes indícios, começa a tentar perceber onde é que a madrasta teria deixado, isto segundo as informações que foram reveladas pela PJ, onde é que a madrasta teria deixado a menina. E ao longo desta quinta-feira, a PJ apontou nessa ideia de uma questão de vingança. Foram mesmo estas as palavras do diretor da Polícia Judiciária de Vila Real, que fala numa vingança, de haver algum atrito entre marido e mulher ou entre o casal.
Nós sabemos vingança por que exatamente? De que ela se queria vingar?
A PJ aponta para um momento, para uma situação que pode ter levado a este desfecho e que terá acontecido no último fim de semana, que foi quando o filho desta mulher, desta madrasta da menina que morreu, foi visitar a família. Ele visitava a mãe aos fins de semanas, ou seja, a mãe e por isso, o pai desta menina que morreu e a própria menina. Iria à casa da mãe e encontrou a família e terá havido algum desentendimento e por isso esse desentendimento terá provocado esta irritação na mãe, que depois levou a este acontecimento.
Terá havido um desentendimento entre o filho da mulher e o pai da criança e isso terá levado a mulher a querer, de alguma forma, vingar-se desta forma. É isso?
Sim, os contornos ainda estão por perceber melhor, mas para já, é o que a PJ indica, é que alguma coisa nessa interação não terá corrido tão bem ou, pelo menos, não terá corrido do agrado desta mulher, que para se vingar fez isto a esta criança.
Que estamos agora aqui a falar, que é o impensável. Há alguma indicação sobre o que serão os próximos passos? Ou seja, o que é preciso confirmar agora relativamente a esta história cujos pormenores já vão sendo tornados claros?
Sim, para já é preciso detalhar ainda mais o que terá levado a esta morte, ou seja, perceber efetivamente o que é que foi, se é que houve uma discussão entre o pai e o filho da mulher que matou a menina, perceber o que é que terá levado a essa discussão, que discussão foi essa, e perceber depois também os contornos, porque a CPCJ já informou que neste momento não havia nenhum processo de acompanhamento desta criança que morreu.
Porque isso é uma questão importante, que é: muitas vezes, neste tipo de episódios, já havia antecedentes, ou seja, já havia crianças que estavam a ser monitorizadas, digamos assim, pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens por estarem em risco, mas não havia um processo neste momento.
A CPCJ não foi muito clara. Nós tentamos pedir mais esclarecimentos, eles adiaram essas respostas, mas no fundo, o que eles garantem e que conseguem garantir ao dia de hoje, é que tiveram a sinalização do desaparecimento. Antes ou neste momento, não havia nenhum processo. Agora, isto não quer dizer, e é isso que também estamos a tentar perceber, é se antes houve, em determinado momento, algum processo de acompanhamento desta criança, que pode ter resultado num arquivamento ou pode ter sido remetido para o tribunal. Nós já contactámos o Ministério Público e para já, neste momento, ainda não temos resposta. Mas isso também será importante para perceber se falhou alguma coisa no acompanhamento desta criança.
E quem é que falhou, eventualmente, se houver lugar a essa responsabilização. Já agora, Miguel, só para terminarmos. Este crime é um crime chocante, choca-nos a todos, inclusivamente a nós que estamos a falar dele, mas aí, no local onde te encontras com as pessoas que conheciam esta criança, que a viam todos os dias a chegar no autocarro, a partir no autocarro ou a viam no verão a ir à casa dos avós, como é que esta notícia e este caso está a ser visto?
Eu fui tentando perceber qual seria a melhor forma para classificar o sentimento destas pessoas. Eu acho que para já, e estando tão a quente, a maioria das pessoas com quem eu falei estava mesmo em negação. Eles diziam que um homem matar outro por alguma desavença, às vezes vai acontecendo aqui. Agora, uma madrasta, ou mesmo que não fosse madrasta, mas um adulto, uma adulta, matar uma criança choca muito mais. E os vizinhos diziam mesmo isso, que mesmo quando veem nas notícias outros casos, dói, mas é diferente. E agora, sendo uma pessoa que eles viam regularmente ali na rua, uma criança por quem eles tinham algum carinho, é complicado. Acho que a negação, para já, enquanto vão digerindo a notícia, tentando perceber, também eles tentando juntar as peças do puzzle, perceber se houve alguma coisa que eles viram num dia e que poderia indicar algum problema. Claro que é sempre um exercício inglório, porque não estaria talvez ao alcance destas pessoas.
Mas imagino que seja normal nestas circunstâncias em que o choque é coletivo. Miguel, obrigado e bom trabalho.
Obrigado eu, Pedro.
Eu conversei com o jornalista do Observador, Miguel Pinheiro Correia, horas depois do Miguel ter chegado a Vale de Passos, ter apurado mais pormenores, conversado com quem conhece ou conheceu as pessoas envolvidas neste crime chocante. Uma criança que sai de casa de mochila às costas e nunca mais chega a entrar, porque é levada e assassinada antes do seu corpo ser largado na serra da Pedrela. Os próximos dias vão ser decisivos para completar todos os pormenores que ainda estão soltos, determinar responsabilidades e perceber exatamente o que é que aconteceu. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Bom fim de semana.