Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: até onde vão os protestos em Moçambique?

Ou o nosso Moçambique avança, ou o nosso Moçambique estoura. Ou o nosso Moçambique se salva, ou o nosso Moçambique se perde. É hoje que vamos ter que escolher isso. Portanto, partilha a live rapidamente, partilha esta live para 30 pessoas. Você que está a conectar-se agora, neste momento, partilha esta live, por favor.

A violência escalou em Moçambique. Pelo menos 252 pessoas morreram nas manifestações pós-eleitorais desde 21 de outubro, metade das quais desde a passada segunda-feira, quando foram anunciados os resultados finais. O líder da oposição, Venâncio Mondlane, está fora do país para não ser morto. Nas ruas, as pessoas já não exigem apenas um novo presidente. Há saques, vandalizações, barricadas. Onde é que isto vai parar? Quem é que pode acabar com a violência? Vou falar com Dulce Neto, editora-executiva do Observador, que tem acompanhado a evolução dos acontecimentos em Moçambique. Eu sou a Teresa Bacaxix e esta é a história do dia de sexta-feira, 27 de dezembro. Bem-vinda, Dulce.

Olá.

Os últimos meses têm sido turbulentos em Moçambique e nos últimos dias a violência escalou. Podes começar por contextualizar o que se está a passar no país?

Aconteceu o que já se esperava. Deixa-me começar por dizer um pouco isso, porque desde dia 21 de outubro que os protestos têm vindo num crescendo, com algumas pausas pelo meio, inicialmente aos fins de semana, mas depois já nem isso. Mas recordando muito rapidamente, 9 de outubro houve eleições gerais em Moçambique, onde se incluem as presidenciais, e pouco depois, um candidato presidencial independente, apoiado por um partido pequeno chamado Podemos.

Venâncio Mondlane, não é?

Sim, Venâncio Mondlane. Disse logo que tinha havido fraude eleitoral. Havia muitos registos, muitas dúvidas, aliás, da comunidade internacional, incluindo a União Europeia, relatos de enchimento de urnas, várias situações que apontavam para um processo não transparente a nível eleitoral. E ele começou logo a dizer que ele tinha montado um processo paralelo de contagem, um pouco à semelhança do que tinha acontecido com o UNITA em Angola. Tinha havido fraude e, por isso, recusavam os resultados que viriam a ser apresentados depois, mais tarde, pela Comissão Nacional de Eleições, que davam a vitória à FRELIMO, que é um partido que está no poder há 49 anos, com 70,67% dos votos e 20%, e ao candidato da FRELIMO, que é o Daniel Chapo. Depois, já havia algumas manifestações, mas havia, sobretudo, um processo jurídico que estava a decorrer e havia uma figura muito importante que era o advogado de Venâncio Mondlane, Elvin Dias. E Elvin Dias e o porta-voz do Podemos são assassinados com 25 tiros.

No final de outubro, não é?

19 de outubro, se não estou em erro. E foi um crime, até agora, ainda não explicado, porque são usadas armas automáticas que apenas as forças de segurança têm, pelo que foi um entendimento geral da oposição e dos ativistas, de que não tinha sido um crime passional, como o governo chegou a dizer, mas que era, de facto, mandatado pela FRELIMO. Nós dizemos Mondlane, mas, na verdade, os moçambicanos dizem isto de uma outra maneira, dizem Mondlane. Que convocou então uma homenagem, com muita serenidade, para o local onde os dois tinham sido assassinados, que as pessoas vieram, por isso fez uma assembleia naquele local, Calunga, creio. E quando ele está a dizer às pessoas para dispersarem, para irem pra casa calmamente, é atacado e está a dar uma conferência de imprensa aos jornalistas nacionais e internacionais. Eles são todos atacados com gás lacrimogêneo e veem-se vídeos do Venâncio a correr, a ser protegido por alguns jovens. Ele já tinha a casa cercada na altura, pra ele ir a este encontro, ele já teve que saltar muros e fugir e driblar os que estavam a vigiá-lo. E a partir daí, tudo se precipita um pouco mais, por isso, a revolta desta massa popular não abrandou de forma alguma.

Mondlane, entretanto, saiu do país, não sabemos exatamente onde é que ele está.

Venâncio Mondlane foge do país. Ele, aliás, falou conosco pouco depois e descreveu-nos a fuga, as várias tentativas de assassinato. Não sabemos onde é que ele está, está em parte incerta. Ele depois de fugir, convoca então uma manifestação, uma semana de protestos, que culminaria a 7 de novembro com a grande marcha sobre Maputo. Ele chama-lhe até a grande manifestação contra o colono preto. E a ideia era que pessoas vinham de todo o país e iriam tomar o poder, o povo iria tomar o poder, mas eles são barrados antes de chegar ao centro do poder. Eles não conseguem. E a partir daí é que Venâncio muda a estratégia. Ele não consegue atingir aquele clímax ali e ele dá então esta mudança, porque percebe que é impossível concentrar a população num só ponto. E percebe que a única estratégia vai ser descentralizar o protesto e cada bairro tem que se organizar e fazer a contestação por si. Isto é muito inteligente, porque ele sabe que é impossível a polícia estar em todos os locais ao mesmo tempo. E a partir daí, isto tem vindo em crescendo. Há um momento que se torna muito simbólico, sobretudo porque chama a atenção da comunidade internacional, que é quando um carro blindado atropela à grande velocidade uma manifestante.

E esta segunda-feira, o Conselho Constitucional de Moçambique veio confirmar os resultados das eleições, veio confirmar a vitória do candidato da FRELIMO.

Daniel Chapo. Exatamente. Era o que já se previa até pelas declarações que já tinham sido feitas. O que eles fizeram foi: baixaram ligeiramente a vitória da FRELIMO, de 70.67, baixaram pra 65, creio eu, por aí, e subiram um bocadinho a do Venâncio, que tinha 20%, subiram pra 24%, mais ou menos. Venâncio avisou que as coisas iriam agravar-se depois deste anúncio. Não foi só o Venâncio, foram muitos analistas, avisaram do que é que poderia acontecer, porque o descontentamento popular é de tal ordem e já havia muitos sinais de estar a sair de controle, porque uma coisa que é importante referir também é que a violência não é só da parte da polícia. Os investigadores, os ativistas, têm dito que a violência começa muitas vezes com a polícia e depois a população que se estava a manifestar de forma pacífica, fica revoltada e vinga-se, porque sabe onde é que os polícias moram, etc. E atacam sedes da FRELIMO, esquadras, lincharam polícias e forças de segurança. Há uma fase em que o próprio Venâncio diz que o alvo deles, aliás, ele hoje voltou a dizer, é FRELIMO, atacam lugares públicos de poder, como o tribunal na Zambézia. Por isso, isto extremou muito. Perante tudo isto, tornou-se muito difícil à população aceitar. Ao mesmo tempo, protesta também contra toda uma situação de fome, de miséria, de falta de investimento na justiça.

Já não é só uma questão política.

Não é só uma questão eleitoral, tem uma dimensão social muito forte. E o investigador João Feijó, que é uma pessoa muito interessante e que vive em Moçambique, é um investigador moçambicano, ele dizia que isto era perigosíssimo e pra se ter muito cuidado com esta população enfurecida, porque é uma população que não tem nada a perder.

E esta quarta-feira aconteceu algo que poderá fazer subir a violência nas ruas. Mais de 1500 reclusos fugiram de uma cadeia de máxima segurança próxima de Maputo. De acordo com o Ministério da Justiça moçambicano, nesta prisão estavam os suspeitos e condenados pelos crimes mais graves, principalmente homicídios. E há aqui acusações entre governo e oposição sobre o que realmente terá passado na prisão.

Não foi só uma prisão, foram quatro prisões e esta circunstância está a levantar muitas dúvidas Porque muitos se interrogam como é que de uma prisão de alta segurança podem sair, podem fugir no espaço de uma hora 1530 e poucos reclusos, e como é que numa hora se conseguem contar, como é que fugiram os que estavam no que eles chamam de jaulas, que é completo isolamento. São celas, são solitárias, em que eles não têm qualquer contacto com ninguém, absolutamente com ninguém, nem com os da cela vizinha, como é que eles poderiam sair? Por isso, o Venâncio Mondlane diz que isto foi uma estratégia, uma tática dos tempos soviéticos usados, que é criar o medo.

Para depois justificar, se calhar, uma repressão.

Sim. E ele diz duas coisas interessantes. É a perspectiva dele, atenção. Uma é que foram libertados muitos detidos, há milhares de detidos das manifestações sem culpa formada, a aguardar julgamento, etc., que depois foram cercados pela polícia e foram mortos. Por isso, isto era uma maneira de matar manifestantes. Por outro lado, que também foram libertados os tais jihadistas, os tais terroristas que lançam o terror e matam no norte de Moçambique, em Cabo Delgado, e que eles vão executar, diz o Mondlane, aquilo que os esquadrões da morte estavam a fazer, e outros, que é matar, assaltar, sequestrar, violar. Aterrorizar a população, criando o medo para que depois a ação repressiva seja grande e que, em última instância, a população deseje a ação da própria polícia e dos próprios militares. Uma investigadora especialista em assuntos africanos, com quem eu falei há pouco, Paula Cristina Roque, falava mesmo num caos intencional, ou seja, ela dizia um caos organizado. Há relatos também de muitos mortos nas morgues, para além daqueles que estão a ser contabilizados e que eles estarão a esconder. Por isso, temos neste momento uma situação explosiva.

Já voltamos à conversa com Dulce Neto, editora-executiva do Observador. Na segunda parte, olhamos para a principal figura da oposição, Venâncio Mondlane, o homem que tem estado a convocar eleições a partir do estrangeiro.

Deixem-me só aproveitar o intervalo da História do Dia para deixar aqui uma sugestão: ouvir o Contracorrente, um podcast da Rádio Observador. De segunda a sexta, o José Manuel Fernandes e a Helena Matos convidam especialistas, comentadores para discutir um tema, em regra, da atualidade. É uma conversa sempre profunda, esclarecedora, sempre surpreendente também, sobre temas que às vezes julgamos conhecer ou outros que não conhecemos mesmo. O Contracorrente é um podcast da Rádio Observador e está disponível nas principais aplicações de podcast de segunda a sexta. Basta clicar em "seguir" e assim não perde um episódio. Agora vamos à segunda parte da História do Dia.

Estamos de volta à conversa com Dulce Neto, editora-executiva do Observador, e que tem acompanhado a situação em Moçambique. A principal figura da contestação é Venâncio Mondlane, que concorreu com o apoio do partido Podemos, um partido pequeno, que não tinha representação parlamentar. Venâncio tem conseguido galvanizar a população durante dois meses e meio, mas não há sinais de cansaço? Continua com o mesmo apoio que teve no início?

Diria que dos jovens, que não têm nada a perder, que sim. Aliás, João Feijó dizia-me uma coisa muito interessante num texto que publiquei aqui há duas semanas, em que já se previa que o Natal ia ser violento. Porque o Venâncio Mondlane cancelou, ele que é um pastor evangélico, um cristão, em que a celebração do Natal é uma das principais cerimónias, além da Páscoa, para os cristãos, e ele cancelou o Natal. Reparem que não é por acaso que o Conselho Constitucional anuncia a sua decisão às 23h.

A dois dias do Natal.

Na véspera da véspera do Natal. A 24 já estamos todos centrados no Natal e os moçambicanos não são diferentes. E toda a gente pensava que isto ia acalmar. Toda a gente não. A estratégia poderia ser pensar que isto iria acalmar, mas João Feijó dizia logo: "Não acredito". Ninguém acreditava que isto iria acalmar. E não foi. Por isso, 23 houve protestos, 24 houve protestos, 25 houve protestos. Houve uma coisa terrível, que são as pilhagens, mas já podemos falar disso, que se agravaram de uma forma exponencial e que também tira credibilidade e legitimidade a Venâncio Mondlane. Há quem diga que as pilhagens são feitas pela polícia. Há vídeos em que se vê um carro blindado a deitar abaixo um grande portão de um armazém e a dizer às pessoas: "Entrem, entrem". Pessoas famintas, oportunistas também, mas que vão buscar os bens. Podem ver a confusão que isto está a lançar na classe empresarial. E esta classe dos empresários, a classe média, a classe com mais a perder, digamos assim, está muito cansada e está muito irritada com esta pilhagem, porque não entende porque é que se o inimigo é Frelimo, por que estão a atacar o próprio irmão. E aliás, Mondlane veio dizer já: "Não pilhem. Eu quero tomar posse a 15 de janeiro, mas não quero tomar posse no meio de destroços, nem no meio de pilhagem. Nós não somos vândalos". Eu diria que a rua não está a fraquejar. A classe média, que não vem pra rua, mas que apoiava de outra forma, começa a ter muitas dúvidas e a ficar cansada e irritada. Mas o João Feijó dizia-me também uma coisa nessa altura, nesse texto, que era Ele tem um carisma de tal ordem que estes jovens estão dispostos a morrer por ele. E é isso que tem estado a haver. Eles têm estado a dar o corpo às balas, porque em três dias morreram 126 pessoas. Ele é um engenheiro, é um pastor evangélico e sabe falar para as massas. Depois, há ali um lado messiânico dele. Ele crê, de facto, que tem uma missão e que não pode defraudar o povo. Aliás, há um relato muito interessante que surgiu nestes últimos dois dias, de um economista acadêmico muito reputado em Moçambique, Roberto Tibana, que explica como ele tentou mediar, como ele mediou, ainda antes de 21 de outubro, Venâncio e a FRELIMO, e como ele conta que o Venâncio lhe tinha contado que tinha sido contactado por várias pessoas da FRELIMO numa tentativa de o, entre aspas, comprar, e que ele ficou muito chocado, porque ele nunca poderia defraudar o povo que tinha acreditado nele. Por isso ele tem esta ideia de que tem uma missão e que vai libertar o seu povo.

Esta quinta-feira acaba a fase Turbo V8, como lhe chamou o Mondlane. O que é que é isto? O que é que se pode passar a seguir?

É uma incógnita. Moçambique está suspenso. Ninguém sabe exatamente o que é que vai acontecer. A esperança tem sido sempre de os militares passarem para o lado do povo. Aqui há uns tempos esperava-se, o próprio Mondlane e o João Feijó também falava nisso, de um 25 de abril em dezembro ou em janeiro em Maputo. A verdade é que isso não está a acontecer. Há muitos apelos para o diálogo. Mondlane já se disse disponível para um diálogo, mas um diálogo sério, porque a FRELIMO é conhecida por não cumprir os acordos. Por isso, é uma incógnita o que é que pode acontecer, mas as próximas duas semanas, mais do que duas semanas, vão continuar a ser de grande tensão em Moçambique, a menos que algo aconteça de diferente, porque corremos o risco de a 15 de janeiro Moçambique ter dois presidentes da República.

Obrigada, Dulce.

Obrigada eu.

Dulce Neto é editora executiva d'"O Observador". O som que ouvimos foi retirado do Facebook de Venâncio Mondlane. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Bacacis. Bom fim de semana.