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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o esquadrão que ataca a EML, a empresa que gere o estacionamento em Lisboa.
Por todo lado só se encontram parquímetros vandalizados. O que é um facto é que nesta zona da freguesia onde começaram a pôr os parquímetros, a grande maioria dos moradores e comerciantes está contra o estacionamento pago.
Cento e cinquenta parquímetros vandalizados, 15 radares inutilizados e três carrinhas da EML destruídas pelo fogo. Nos últimos anos, um esquadrão formado por elementos desconhecidos declarou guerra à EML, a empresa de mobilidade e estacionamento de Lisboa. As operações são pensadas ao pormenor e, em muitos casos, demoram semanas a preparar. O caso é revelado num trabalho publicado agora pelo Observador. Que grupo é este, que métodos usa e por que os elementos nunca foram apanhados? Vou falar com Pedro Rainho, editor de sociedade do Observador. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 08 de outubro. Olá, Pedro, bem-vindo.
Olá, João.
Vamos começar por contextualizar este tema, até para quem não é de Lisboa e desconhece a realidade diária da capital. O que é a EML e por que causa um sentimento muitas vezes tão negativo entre os lisboetas?
Vou dividir a resposta em duas partes. Primeiro, a EML é a empresa que gere o estacionamento e a paragem na via pública em Lisboa e desde o início de abril passaram a ter também outras competências de fiscalização do respeito do código da estrada e até por onde circulam os tuk-tuk na cidade. Qual é o problema e por que gera tanta animosidade? Porque, na verdade, a EML com estas competências, é a empresa responsável por bloquear carros, por passar coimas, por rebocar carros, por fazer este tipo de fiscalização, que depois tem este tipo de consequências. E às vezes, a gestão do estacionamento e da circulação na cidade gera situações de bastante tensão.
Agora, o Observador conta a história deste grupo ou esquadrão que decidiu eleger a EML como alvo. Antes de avançarmos para os pormenores, como é que chegamos até esta história?
Na verdade, para te ser totalmente sincero, foi a história que chegou até nós. Era mais bonito dizer ao contrário, mas fomos um sujeito passivo, porque a história chegou-nos num envelope branco, que foi enviado por correio normal e com uma indicação de remetente que só dizia 3VE e por baixo a morada do Observador, que obviamente não era a morada do remetente.
Sim.
Lá dentro desse envelope vinham 16 páginas, A4, com um relatório, eu diria, bastante completo sobre as ações de um grupo que diz ser composto por uns amigos de longa data e este toque é semelhante entre eles.
Sim.
Um ódio claro à EML e aos radares. O que eles consideram? Consideram que a atuação tanto da EML como da Câmara Municipal de Lisboa é de alguma forma de perseguição contra quem usa a cidade e se desloca na cidade, seja de carro, seja de moto. A ideia é esta: se a EML ou se a Câmara de Lisboa, através dos radares, têm como missão maximizar o lucro, palavras deste grupo, se essa é a missão, então a missão do grupo é provocar o máximo de dano possível.
E estas ações, quando é que começaram e quais começaram por ser os primeiros alvos deste grupo?
Isso é que me pareceu particularmente surpreendente. Por quê? Porque o grupo diz que os primeiros ataques ou ações que desencadearam aconteceram em 2018. Há bastantes anos, há sete anos. E é surpreendente por quê? Porque até hoje, só uma ou outra vez, só muito pontualmente, é que se falou de ataques a parquímetros em Lisboa e até o momento nunca, tanto quanto nos foi possível perceber, se falou de uma ação verdadeiramente concertada e organizada. Esse ponto pareceu-nos importante. E essa fase de ataque a parquímetros é o que eles chamam de fase número um, de um total de três. Estavam muito concentrados nesses equipamentos da cidade e dizem que atuavam ao ritmo de um por semana, ou seja, a cada semana um parquímetro era atacado. E ao todo, entre 2018 e 2022, primeira fase também de atuação, eles dizem que destruíram por completo ou que pelo menos danificaram cerca de 150 parquímetros. E a verdade é que eles levavam essa regularidade muito a sério, eram persistentes na sua atuação, porque quando chegamos às últimas eleições autárquicas, em setembro de 2021, eles estavam com uma semana de atraso, ou seja, três anos de intervenção, uma semana de atraso, o que significa que, na verdade, ao longo de três anos, destruíram ou pelo menos danificaram dezenas e dezenas de equipamentos.
E quais são os métodos que este grupo utiliza nestas ações? Percebemos também através da leitura do artigo, houve uma evolução na forma de atuar.
Sim, é verdade. Da mesma forma que eles passam dos parquímetros, como falávamos, para outros equipamentos, também foram adaptando os seus métodos. Em alguns casos, usaram fogo. Por exemplo, foi o método que utilizaram quando atacaram as carrinhas da EML, que acabaram por destruir, usaram uns bidons, um rastilho e acabaram por destruir por completo as carrinhas. Foi uma em 2022, outra no ano seguinte e ainda uma terceira em 2024. Além do fogo, também tem sido recorrente usarem ácido Que lançam para cima dos parquímetros, às vezes funciona, outros não. E depois há ainda o caso dos radares, em que eles usam muitas vezes esta técnica, não quero ser muito descritivo, mas retiram a tampa do poste que sustém o radar, cortam os cabos e infiltram espuma expansiva ou expansível dentro desses postes e torna-se muito mais difícil reabilitar aqueles equipamentos. E pelo que percebemos, não tem sido propriamente um processo linear, ou seja, não há fase um, equipamentos X, fase dois. O que tem acontecido é, muitas vezes testam o modelo, veem se funciona, veem se não funciona, se é mais seguro outro modelo e avançam para o ataque seguinte.
Como referiste, os parquímetros não são os únicos alvos, também radares, carrinhas da EML. O primeiro ataque a uma carrinha data de setembro de 2022. Aí, de facto, ficou patente o grau de preparação destes ataques. É algo até um pouco à filme, não é?
Tem muito de filme e muita preparação. Na verdade, o grupo vai alterando, como eu dizia, entre os parquímetros, que é claramente a maior parte dos equipamentos afetados, depois também atacam radares e as próprias carrinhas da EML. Ou seja, ataca tanto patrimônio da EML como equipamentos da Câmara Municipal de Lisboa como alvos. Mas há, como tu dizias, um elevado grau de preparação. Um dos exemplos que nós referimos no nosso texto é precisamente um dos ataques a uma carrinha da EML. A carrinha era estacionada com muita frequência num parque da empresa junto à Avenida das Forças Armadas. E o que é que eles fizeram? A ação demorou pelo menos um mês e meio a ser preparada, mas foi certamente mais. Nós sabemos isto por quê? Porque o grupo gravou um vídeo num determinado momento da preparação, em 17 de dezembro de 2022, se não estou em erro, e depois grava outro vídeo um mês e meio depois. Portanto, nesse caso, houve pelo menos um mês e meio de preparação. Ora, nesse processo, eles vão uma vez, voltam e voltam e voltam àquele local, cortam redes de um terreno que até era da Santa Casa da Misericórdia e vão tendo acesso mais fácil ao alvo. Portanto, eles estudam os locais de entrada, os locais de saída, veem por onde é que é mais seguro entrar e sair, veem quais são as zonas do terreno mais protegidas de olhares que os possam detectar e chegam ao ponto de fazer croquis para determinados ataques. E só quando o plano está pronto, só quando eles consideram que é seguro entrar, atacar e sair em segurança, é que avançam.
Já regressamos à conversa com Pedro Rainho, editor de sociedade do Observador. Na segunda parte vamos tentar perceber melhor quem é este grupo e como reage a EML, a empresa de mobilidade e estacionamento de Lisboa, a estes ataques. Estamos de regresso à conversa com Pedro Rainho. Eu acho que uma das grandes questões que as pessoas estarão a fazer neste momento é: quem é este grupo? Quem são estas pessoas? Com base nas pistas que dão no relatório que chegou aqui ao Observador, é possível perceber isso? Como é que eles se descrevem?
Vou ter algum cuidado no que vou dizer, mas é um misto de pessoas como nós e também pessoas absolutamente diferentes de nós.
Ok.
É muito difícil dizer exatamente quem eles são. Há traços de perfil que é possível identificar. Eles são claramente obstinados ou persistentes, são cuidadosos, são organizados, mas também, como eu dizia, revelam aqui algum traço de antissistema. Eu acho que é curioso porque eles dizem a determinada altura, cerca de três anos depois de começarem estes ataques, que tiveram de abrandar. Eu acho que até usam esta expressão, ou uma expressão parecida. E por quê? Porque para realizar estes ataques, isto estava a consumir-lhes imenso tempo. E, dizem eles, afinal são pais de família, têm profissão, têm vida social, têm uma ocupação que ia muito além da preparação destes ataques. E passar noitadas consecutivas a estudar o alvo, a preparar, a comprar todo o material que era necessário usar e depois avançar, estava a ser bastante penoso do ponto de vista pessoal e profissional.
Sim.
Depois, outros traços que podemos identificar. Eles definem-se como um grupo restrito de amigos de longa data, não dizem muito mais a propósito disso. O que é que nós podemos extrapolar, tendo em conta o extensíssimo relatório que nos fizeram chegar e que claramente não é um trabalho que qualquer pessoa se dedicasse a fazer. Isso denota também um pendor de autodidata, de forma aprendendo à medida que foram testando, porque usavam os métodos, abdicavam e seguiam para outros e depois também construíam de alguma forma uns instrumentos com bidões, com gasolina, com rastilho, que denota algum tipo de dedicação e talvez de capacidade de aprender à medida que iam avançando.
O Observador confrontou, obviamente, a EML com todas estas informações e mesmo estas provas documentais que o grupo fez chegar. Como é que a empresa respondeu?
Deixa-me dizer que confrontamos a EML, confrontamos a PSP, confrontamos a Câmara de Lisboa, e a verdade é que só a EML é que nos respondeu, e já o fizemos há bastantes dias. E só a EML é que nos respondeu. Ora, a empresa conhece claramente este problema, mas isto não quer dizer que a EML reconheça que há um grupo organizado e a atuar sistematicamente para destruir o patrimônio da empresa ou patrimônio municipal. O que é que eles disseram? Nas respostas que nos enviaram, dão alguns números. Entre 2021 e 2024, já houve 281 ataques a parquímetros. Também nos dizem que cada um destes equipamentos custa €5.000. Poderíamos extrapolar diretamente, não é possível fazê-lo, por quê? Porque eles dizem que estes ataques vão de ações de baixo impacto até ações de destruição total. Neste caso Será mesmo necessário substituir, só que não sabemos exatamente quantas vezes é que chegamos a este ponto. Também assumem que houve três carrinhas destruídas, as tais que o grupo também refere, e ainda acrescentam alguns dados referentes às bicicletas Gira, mas de que o grupo nem sequer fala. E depois também acrescentam um outro dado que tem a ver com agressões a funcionários da empresa. Eu creio que há uma questão que o tal grupo Esquadrão, nós chamamos-lhe Esquadrão, faz questão de sublinhar, que é nunca usaram da violência contra funcionários da EMEL, também fizeram sempre por não destruir patrimônio privado. A EMEL diz que neste período que falávamos, desde 2021 a 2024, já teve 142 funcionários agredidos e em 53 casos chegaram a tribunal. Se há uma ligação entre os dois, tomando por boa a palavra do grupo, não, mas não podemos garantir com todo o rigor.
Há aqui uma questão também importante quando falamos deste tipo de atos ou ações, que é o lado da eventual responsabilidade criminal. De que crimes é que este grupo poderia ser acusado?
O que nós temos, só pra recapitular muito rapidamente, é um grupo que sistematicamente se dedica a organizar e a concretizar ataques a patrimônio da EMEL e a radares geridos pela Câmara de Lisboa. Nós temos aqui dois cenários. O primeiro cenário é o de um crime de dano, mas não é um crime de dano, é um crime de dano que tem que ser multiplicado por dezenas e dezenas de crimes, porque houve uma repetição destes atos. Ora, a condenação por cada um dos crimes de dano pode ir até três anos de prisão ou então pena de multa. Mas há um extra nesta questão, que é que está aqui em causa patrimônio que pode ser considerado de destino ao uso e utilidade públicas ou pertencente a organismos públicos. E o que isso significa? Que, neste caso, a condenação já é por dano agravado e a condenação pode ir de uma pena até cinco anos ou uma multa de até 600 dias. Portanto, em vez de três, são cinco anos. Depois, ouvimos algumas informações que poderiam considerar aqui um crime de associação criminosa, mas acho que isto é outro tipo de crime que não se enquadra aqui. O ponto central aqui é que passados sete anos, a tomar por boas as palavras do grupo mais uma vez, passados sete anos não há qualquer evidência de que o grupo organizado, que se dedica a destruir e a vandalizar patrimônio de interesse público, esteja sequer na mira das autoridades.
É muito relevante.
É impressionante.
Obrigado, Pedro.
Obrigado.
Pedro Rainho é editor de sociedade do Observador. A terminar, três coisas a ter em conta esta quarta-feira. Termina hoje o prazo dado pelo presidente francês ao primeiro-ministro demissionário, Sébastien Lecornu, para tentar ainda encontrar uma plataforma de entendimento que permita sair do impasse político e evitar eleições antecipadas. Lecornu demitiu-se na segunda-feira, apenas 14 horas depois de apresentar o novo executivo. Ministros europeus dos Negócios Estrangeiros reúnem-se hoje numa cimeira em Belfast, na Irlanda do Norte. O encontro é promovido por Reino Unido e tem como objetivo promover a cooperação e estabilidade com o foco na região dos Balcãs. E em semana de anúncio dos Prêmios Nobel, esta quarta-feira sabe-se mais um vencedor. É o anúncio do Prêmio Nobel da Química. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é de João Tição. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.