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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Como é que Charlie Kirk se tornou amigo da família Trump? O activista de direita e influencer Charlie Kirk foi morto esta quarta-feira num encontro com estudantes universitários no Utah, nos Estados Unidos. Kirk tinha 31 anos, era casado, tinha dois filhos, o mais novo nascido em 2023. Nos últimos anos, tinha ganhado destaque no Partido Republicano, em especial entre a família trumpista MAGA, Make America Great Again. Era visto como alguém que conseguia chegar aos jovens e trazê-los para o movimento. O seu canal no YouTube tinha mais de quatro milhões de seguidores. Era autor de um podcast diário com mais de três horas. A morte de Charlie Kirk foi anunciada na rede social X pelo presidente dos Estados Unidos. “O grande, até lendário, Charlie Kirk está morto”, escreveu Donald Trump. Quem era este jovem influencer? Qual o seu percurso no Partido Republicano e como é que se tornou próximo da família Trump? Vou falar com José Carlos Duarte, jornalista do Internacional do Observador. Eu sou a Teresa Abecasis e esta é a história do dia de sexta-feira, 12 de setembro. Bem-vindo, José Carlos Duarte.

Olá, Teresa.

Antes de começarmos a falar sobre Charlie Kirk, podes já começar por resumir o que sabemos sobre o ataque. Estamos a gravar esta conversa na quinta-feira, ao final do dia, e ainda há muitas incógnitas.

Sim, do que se sabe, Charlie Kirk estava na quarta-feira na Utah Valley University, num evento que a sua organização, USA Turning Point, organizou. Esta organização faz eventos com universitários, com os mais jovens, e são basicamente debates em que Charlie Kirk debate com qualquer pessoa que apareça lá. Neste caso, Charlie Kirk estava a divulgar as suas mensagens políticas e estava numa espécie de digressão por várias universidades. A primeira era exatamente esta, Utah Valley, mas havia mais, havia bastantes. Nos próximos dias, ele tinha vários compromissos já noutras faculdades. Enquanto ele estava a discursar, ouviu-se um tiro e também há vídeos sobre o assunto e ele acabou por ser abatido. Na altura, não foi claro qual era a sua situação, se teria ficado gravemente ferido ou se teria logo morrido. Umas horas mais tarde, o presidente norte-americano veio a público nas redes sociais anunciar que ele tinha morrido. Seguiu-se uma onda de reações, vários membros da administração Trump, os membros do seu movimento, organização, a lamentar o sucedido. Mas em termos oficiais, também acho que esta quinta-feira está a ser marcada por uma grande incógnita, que é encontrar o assassino.

Que digressão era essa que ele estava a protagonizar, o The American Comeback? Conta-se que no momento em que foi baleado, ele estava a falar precisamente sobre o uso de armas nos Estados Unidos.

Sim, este American Comeback, toda a sua organização, tem um pendor conservador, um pendor muito à direita. Mesmo no espaço político americano, ele bebe muita influência das ideias políticas de Donald Trump. E basicamente aqueles debates são para ele argumentar com pessoas mais à esquerda, ou até pessoas parecidas, que têm ideias parecidas, mas que discordam um pouquinho em certos assuntos, e servem para ele também convencer e persuadir que as suas ideias, que são muitas das ideias da administração Trump, são boas e que devem ser aplicadas. Segundo avança a imprensa norte-americana, no momento em que Charlie Kirk é alvejado, estava a falar sobre um tópico que ganhou grande relevância nos Estados Unidos, principalmente na bolha onde ele circula, que tem a ver com os tiroteios de pessoas transgénero. Ele estava a falar sobre isso e foi alvejado.

Já vamos falar um pouco sobre o percurso de Kirk na política norte-americana, mas podes já dar uma ideia geral sobre quem era ele neste momento. Por exemplo, o canal dele no YouTube tem mais de quatro milhões de seguidores. Era uma das vozes mais influentes dentro do movimento populista do Partido Republicano, como disseste.

Sim, ele era uma pessoa gigante, ele era mesmo influente dentro do MAGA. A sua influência era mais sentida pelos mais jovens. A sua mensagem também era destinada a pessoas entre os 18, que é a idade que se pode começar a votar nos Estados Unidos, até mais ou menos os 35, principalmente rapazes. Ele participava em muitos podcasts, ele tinha o seu próprio podcast também e era ouvido sobretudo por pessoas do sexo masculino.

Um podcast diário de três horas.

Três horas, bastante longo, em que ele falava sobre tudo, sobre vários assuntos. Isso fez com que ganhasse grande influência no Make America Great Again. Ele também é, eu diria, uma correia de transmissão. Ou seja, ele transmite as ideias da presidência de Donald Trump para a base Mas também diria que ele é capaz de transmitir o que a base está a achar para a presidência. Ou seja, ele é uma espécie de intermediário entre os eleitores de Donald Trump e o próprio presidente. E este papel realmente dá-lhe um grande protagonismo dentro do trumpismo. Tinha uma grande influência dentro da Casa Branca, ele já fez consultoria, já ajudou a escolher certos nomes desta nova administração. Portanto, era alguém efetivamente com grande poder e grande capital político, e que espalhava as ideias de Donald Trump. Havia umas nuances diferentes, mas basicamente eram as ideias do presidente.

Já vamos falar melhor sobre o percurso de Kirk dentro do Partido Republicano. Já regressamos à conversa com o Zé Carlos Duarte, jornalista da seção de internacional d'O Observador. Na segunda parte contamos como Kirk se tornou num dos rostos do Partido Republicano e até amigo da família Trump. Estamos de regresso à conversa com o José Carlos Duarte. O filho de Donald Trump, Donald Trump Jr., escreveu no X que tinha perdido um irmão mais novo. Como é que Kirk se tornou tão próximo da família Trump? Como é que tudo começou para ele?

Tudo começou de uma forma um pouco invulgar, porque Charlie Kirk nasceu no Illinois, um estado de Chicago, nem sequer de Nova York como a família Trump, nem da Flórida, onde grande parte mora neste momento. Portanto, ele não tinha nada a ver com este meio político. O pai é um arquiteto que vendia casas, a mãe era uma terapeuta. Ele não tinha nada a ver com o mundo político, o ambiente onde ele cresceu não era nada politizado. Mas acho que a escola e tudo o que aconteceu quando entrou, principalmente no terceiro ciclo, o alterou profundamente. Quando ele entrou no terceiro ciclo, estávamos em 2010, 2009, e era a altura em que Barack Obama estava no auge da sua popularidade. E Illinois é a terra natal de Barack Obama. Portanto, havia muitos fãs do antigo presidente na escola, era normal. E depois as escolas e as universidades nos Estados Unidos, sempre houve aquela impressão de que tendiam um pouco mais para o Partido Democrata, tendiam para a esquerda, e Charlie Kirk revoltava-se, era bastante duro com aquilo que ele dizia ser esse viés, e confrontava os colegas, confrontava até professores, dizia que alguns eram neomarxistas. Era um jovem bastante aguerrido, combatido e que gostava de debater e que não tinha qualquer problema em fazê-lo, mesmo que a sua família não tivesse essa tendência, mas ele efetivamente tinha. Ele em 2012 faz um artigo para um jornal online bastante conhecido entre os setores mais conservadores e ganha grande preponderância. O artigo era sobre os livros escolares, os manuais, e era uma crítica aos mesmos, porque ele dizia que tinham um viés de esquerda e que citavam mais autores de esquerda do que autores de direita. E esse artigo causou uma grande controvérsia e fez com que ele fosse chamado a debater nos canais de televisão, como a Fox News, e ele ganhou aí um grande protagonismo. Também na altura convém realçar o Charlie Kirk jovem do dia das ruas.

O influencer em que entretanto se tornou.

Exato, porque ele no início não tinha propriamente ideias nacionais conservadoras, não tinha também como referência Donald Trump. Ele tinha outra referência, que era Ronald Reagan, o antigo presidente norte-americano, e podia ser até considerado um libertário, ou seja, o principal foco dele era a economia, a questão de menos Estado, a questão de baixar impostos e também a questão das armas. Ele sempre foi a favor da segunda emenda, de que todos os norte-americanos deviam possuir armas e que isso é um direito constitucional.

Depois acabou por conhecer Bill Montgomery, um empresário e ativista do Partido Republicano, que acabou também por ser fundamental no percurso dele.

Sim, sem dúvida. Eles conheceram-se durante um evento em que Bill Montgomery ficou muito impressionado pela forma como ele discursava, pela paixão, pelo carisma, pela entrega, porque ele era bastante intenso e há várias intervenções em que ele realmente demonstra que acredita mesmo naquilo que diz. E Bill Montgomery encontrou aqui alguém que poderia ser um rosto, um turning point, um ponto de inflexão, alguém que pudesse contrariar um pouco a tendência que muitos republicanos sentem, que é que as escolas e universidades são de esquerda. E Charlie Kirk podia ser aqui o veículo para que isso se alterasse, para ser este ponto de mudança. E Bill Montgomery era uma pessoa com conhecimentos dentro do Partido Republicano, com grande influência, com dinheiro também, porque ele tinha sido empresário e o dinheiro é fundamental na política norte-americana. E é a partir desta união entre Bill e Charlie que se cria a Turning Point USA. Convém dizer que Bill Montgomery também era uma pessoa que fazia parte da chamada Tea Party. O que é a Tea Party? Era uma facção do Partido Republicano que também defendia ideias libertárias, ou seja, as ideias de um e outro eram muito parecidas. E portanto, houve aqui uma confluência de fatores que os levaram a que se juntassem para criar esta organização destinada a jovens para espalhar e difundir ideias de direita.

No início do percurso de Kirk no Partido Republicano, ele até não apoiava Trump, mas depois acabou por chegar bem próximo dele e da família.

Sim, Charlie Kirk foi crescendo, foi ganhando influência junto aos republicanos e há umas eleições muito importantes, que são as de 2016. Os republicanos vinham de oito anos de Barack Obama e queriam, obviamente, novamente conquistar a presidência. Em vez de apoiar logo Trump, quando o magnata, empresário e apresentador de televisão anunciou a candidatura, Charlie Kirk decidiu apoiar Scott Walker, que era hoje governador de Wisconsin. E depois, quando este desistiu, apoiou Ted Cruz, que é um atual senador do Texas, que ainda é um político activo e que tem uma grande influência também entre os republicanos, e o grande concorrente nas primárias republicanas de 2016 era precisamente Ted Cruz. Portanto, há aqui uma espécie de antagonismo.

Era Donald Trump o concorrente de Ted Cruz, não é?

Exatamente. Mas lá está, eram todos republicanos, tinham uma base em comum. Charlie Kirk também nunca disse propriamente mal de Donald Trump, não há registos disso. Portanto, não havia aqui grande incompatibilidade. Quando Donald Trump é eleito candidato presidencial para as presidenciais de 2016, Donald Trump Jr., o filho mais velho, contacta-o e ele torna-se o seu assistente, uma espécie de consultor, e os dois acabam por construir uma sólida relação e Donald Trump Jr. acaba por mostrar o resto da família a Charlie Kirk e acaba aqui por ser esta porta de entrada ao mundo Trump do activista. E há aqui também uma mudança que muitos analistas notam, que é uma mudança de Charlie Kirk em termos ideológicos. Como eu já disse, ele era libertário, dava grande ênfase à questão económica, mas depois muda bastante e passa quase a copiar os assuntos que Donald Trump falava. Por exemplo, a questão do muro, que foi muito falada por Trump durante a campanha de 2016, ele passa a defendê-la.

Um estilo mais populista.

Um estilo bastante mais populista, diria, mais conservador do que propriamente aquilo que ele apoiava. Há aqui também uma grande diferença na vida de Charlie Kirk, é que ele antes de Trump, e ainda nos primeiros anos, ele não era propriamente uma pessoa religiosa, ele defendia um Estado laico, mas depois mudou radicalmente e é uma pessoa bastante devota. Ele era evangélico e defendia que o Estado norte-americano era um Estado cristão e que devia ser assim. E, portanto, há aqui uma mudança, ele acaba por defender e tornar-se um pouco um Donald Trump 2.0, ou seja, as ideias eram muito parecidas.

Só para termos uma ideia, como é que a morte de Charlie Kirk está a ser encarada nos Estados Unidos? Kirk já vivia numa bolha um pouco polarizada, também por tudo o que descreveste, mas isto aliás está a acontecer cada vez mais no país.

Sim, a morte está a ser encarada de formas diferentes e ângulos diferentes. Eu acho que dentro do movimento MAGA, existe aqui uma grande revolta e uma grande dor. E existem vozes mais radicais que até pedem uma vingança, ou seja, que as pessoas à direita se rebelem contra os democratas, contra o que dizem ser a esquerda radical. Algumas coisas que se leem de aliados e de membros do MAGA são bastante fortes. Até há pessoas que usam o termo guerra civil nos Estados Unidos. E também acho que há aqui a questão dele ser agora um mártir do movimento e de ser alguém que pode ser sempre lembrado como uma boa influência para o movimento. Dentro do Partido Democrata, as reações oficiais têm sido de consternação e de dor e que ninguém devia ser morto desta forma, não devia haver violência política, mas há sempre esta tentativa de alguns democratas, não diria que todos, acho que a grande maioria ainda não está nessa fase, mas discutir o porte de armas nos Estados Unidos, que é um tema que é muito polarizador no país, porque há opiniões muito diversas dos dois lados. E eu acho que são mais ou menos estas duas tendências. Obviamente que também há pessoas e pessoas um pouco mais da ala esquerda do Partido Democrata. Eu vi Elizabeth Warren, a antiga candidata presidencial, a dizer que Donald Trump é que também contribui para este clima polarizador e que o próprio presidente tem responsabilidades nisso. Ou seja, há também aqui uma responsabilização não só de um lobo solitário, mas também do outro campo político, porque incentiva este tipo de comportamentos, mas eu diria que a tendência geral no Partido Democrata é para tentar não obter ganhos políticos disto.

Obrigada, José Carlos Duarte.

Obrigado.

José Carlos Duarte é jornalista da secção de internacional d'O Observador. A terminar, três coisas a ter em conta este fim de semana. Esta sexta-feira jogam-se as meias-finais do Campeonato da Europa de Basquetebol, que decorre na Letónia. Na primeira, a Alemanha defronta a Finlândia. Na segunda, a Grécia e a Turquia disputam um lugar na final, que terá lugar no domingo. Este fim de semana começa também o Campeonato do Mundo de Atletismo, em Tóquio, no Japão, que conta com a maior participação de sempre de Portugal: 32 atletas. Em Minsk, na Bielorrússia, começa esta sexta-feira um novo exercício militar conjunto com as Forças Armadas da Rússia. Esta operação tem como objetivo preparar as tropas dos dois países em caso de possível agressão e costuma repetir-se de quatro em quatro anos. A última vez foi em setembro de 2021, poucos meses antes da invasão da Ucrânia. Por cá, terminam outros exercícios que envolvem forças militares. Nos Açores, chega ao fim o exercício avançado de busca e salvamento, que juntou elementos das Forças Aéreas de Portugal, Canadá, Estados Unidos e Espanha e ainda da Marinha Portuguesa. Este exercício tem o nome peculiar de AZAREX 2025. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Tição, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Abecasis. Bom fim de semana.