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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como o caso Epstein está a queimar Donald Trump.
It's all been a big hoax, it's perpetrated by the Democrats and some stupid Republicans and foolish Republicans fall into the net.
Donald Trump diz que tudo é um embuste e que alguns dos seus apoiantes são, e citamos: "estúpidos" por cair no que considera ser uma tramoia. Em causa está uma amizade de há décadas entre Trump e Jeffrey Epstein, um empresário condenado por abuso sexual e tráfico de mulheres. Nas últimas semanas, o caso voltou à ribalta e a resistência de Trump contra a eventual divulgação dos documentos relativos a este caso está a minar a confiança dos apoiantes do presidente, mesmo daqueles indefectíveis. Que caso é este e em que medida pode abalar a presidência de Trump? São perguntas para a conversa com Bruno Cardoso Reis, historiador e habitual comentador internacional da Rádio Observador. É também o autor do podcast "Cinco Continentes". Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de terça-feira, 22 de julho. Bem-vindo, Bruno.
Obrigado.
Bruno, só para nos situarmos, que caso é este de Jeffrey Epstein?
É uma teoria da conspiração e é também um caso real, ou seja, há aqui dois lados da moeda. Há realmente um caso real que culminou até no suicídio do próprio Jeffrey Epstein, que era um investidor nestes negócios financeiros do Wall Street, mas que era muito conhecido por este estilo de vida mais de playboy. Tinha uma namorada há muito tempo, a Ghislaine Maxwell, que era filha de um milionário britânico muito controverso. Mas conseguiu-se provar e a senhora Maxwell foi condenada e está presa por uma série de crimes sexuais ligados a tráfico de pessoas, tráfico inclusive de jovens menores para todo o tipo de práticas sexuais com Jeffrey Epstein e a suspeita é também com uma série de outros famosos que se davam com Jeffrey Epstein. Depois é aqui que entram as teorias da conspiração.
Exatamente, essa proximidade com os ricos, com os poderosos, com os famosos, a morte na prisão por suicídio, é a versão oficial, tudo isso tem alimentado teorias da conspiração.
Exatamente. Há quem desconfie da própria morte, ou seja, que não foi um suicídio, que ele foi suicidado. Foi calado para evitar outros problemas. Há fotos, há vídeos abundantes com todo tipo de gente famosa deste jet set norte-americano e até internacional. Há o caso do príncipe André, por exemplo, de Inglaterra, que foi muito afetado por este escândalo, e também com Donald Trump, que era alguém que se movia também nestes meios de Nova York dos ricos. Mas depois há uma série de teorias sobre haver, de facto, uma lista de clientes, ele ser alguém que se dedicava a uma espécie de um negócio de prostituição milionária, de que haverá filmagens também desses ditos clientes, da própria morte dele também, que provaria que não seria um suicídio. Há todas essas teorias da conspiração que realmente têm estado em expansão nos Estados Unidos nas últimas décadas, muito por força também das redes sociais, do QAnon, aquela macro rede de teoria da conspiração, que acha que o mundo é governado por uma cabala de pedófilos, vamos dizer assim, para simplificar as coisas. O caso Epstein veio alimentar ou pareceu ser um pouco uma prova também dessas teorias da conspiração, que são muito populares entre muitos americanos. Estima-se que há volta de 15% de americanos, de acordo com algumas sondagens, acreditarão nalguma variante destas teorias da conspiração.
E o que aconteceu nas últimas semanas que trouxe de novo este caso para a ribalta?
O que aconteceu nas últimas semanas é que estas teorias da conspiração têm um peso muito grande no universo MAGA, no núcleo duro de apoiantes do Donald Trump, dos trumpistas. E o próprio Donald Trump e vários elementos importantes da sua administração, os casos mais evidentes é a ministra da Justiça/procuradora-geral da República, nos Estados Unidos, os cargos são acumulados, a Pam Bondi, ou o chefe do FBI, que é uma espécie de polícia judiciária, o Kash Patel, o seu número dois, etc. Todos eles se caracterizaram por há anos insistirem nestas teses. A própria família de Donald Trump, os filhos ainda mais do que o próprio pai, de que esta era uma prova de que os democratas eram cúmplices destas conspirações, de que não se divulgavam estas listas ou estes vídeos porque havia aqui cumplicidade da parte das elites globalistas, que são o inimigo de estimação do MAGA, e obviamente quando eles chegassem ao poder, quando eles estivessem em posições de poder, isso deixaria de acontecer, ou seja, tudo isto seria divulgado. Já depois de tomarem posse, nalguns casos temos declarações desse tipo: "Está em cima da minha mesa, é uma das minhas prioridades", diz a ministra da Justiça. E depois, nas últimas semanas, o que aconteceu é que de repente, vários destes responsáveis e o próprio Donald Trump vieram dizer: "Não existe nada, isto é uma distração". O próprio Donald Trump começou a usar aquele tipo de argumentos que ele usa quando quer pôr de lado um assunto: "Isto é uma conspiração democrata, é uma invenção democrata, vamos virar a página, isto não interessa nada". Aquilo que realmente é novo é que isso não parece estar realmente a resultar. Parece haver aqui pelo menos uma parte destes trumpistas que entre o seu populismo, a sua droga de estimação, que são as teorias da conspiração contra as elites globalistas e a fidelidade a Donald Trump, parecem estar a hesitar e alguns deles parecem estar mesmo a resistir a esta ideia de que se Donald Trump diz que não existe, é porque não existe.
Já regressamos à conversa com Bruno Cardoso Reis, historiador e autor do podcast Cinco Continentes da Rádio Observador. Como é que este caso poderá, afinal, afetar a presidência de Trump? Estamos de regresso à conversa com Bruno Cardoso Reis, historiador e autor do podcast Cinco Continentes, que regressou recentemente dos Estados Unidos, onde esteve a residir durante um período. Bruno, depois dessa promessa de que falavas há instantes, quais são as razões para não revelarem, para não abrirem os chamados ficheiros, se pudermos fazer uma tradução mais literal, ficheiros Epstein, por que eles não são revelados? São dados argumentos jurídicos para isso?
É uma combinação de argumentos jurídicos, de não voltar, no fundo, a vitimizar as vítimas, de que não existem. Enfim, tudo isso à partida até poderiam ser argumentos válidos ou parcialmente válidos. Qual é que é aqui o grande problema? É que estas mesmas pessoas não achavam que esses fossem argumentos válidos até há pouco tempo. E, portanto, há aqui também uma nova suspeita, que é muito alimentada também pelos críticos de Donald Trump, que é a explicação para esta contradição é que de repente deram-se conta que Donald Trump estaria ou seria de alguma forma afetado por essas revelações. Enfim, acho que as possibilidades estão todas em cima da mesa. Acho que é perfeitamente possível que de fato não existam estes ficheiros. Agora, realmente não é muito crível aquilo que Donald Trump anda a dizer, nomeadamente que é: "Bem, isto foi uma invenção dos democratas." Bem, se fosse uma invenção dos democratas para o prejudicar, por que não divulgaram antes? Por que não divulgaram, nomeadamente antes da eleição? Por que deixaram isso agora? Acho que era o próprio Donald Trump que pegasse no tema.
Ele próprio em campanha chegou a admitir essa hipótese de divulgação ou não?
Exatamente. Portanto, lá está essa contradição. De base a ideia de que existiam, de que eram pra divulgar, de que o movimento MAGA não tinha nada pra esconder e, portanto, realmente há aqui uma contradição evidente. Agora, o que é interessante é que, no fundo, muitas contradições já existiram no passado. Donald Trump já fez promessas que depois não cumpriu e até aqui conseguia, aparentemente, convencer os seus seguidores a virar a página e dar prioridade à lealdade a ele e não aos factos ou a promessas passadas. Isso não parece estar a funcionar.
Exatamente. É que neste caso, esse chamado MAGA, que é o acrônimo de Make America Great Again, esses apoiantes, que são apoiantes ferrenhos, que resistem a tudo e mais alguma coisa, nesta situação está a mudar um pouco de figura, porque os eventuais crimes, as suspeitas são de tal forma graves e põem em causa não só uma questão criminal, mas também uma questão moral, que estão a falar, muitos deles são influencers, os chamados influencers, têm programas, têm sites, têm YouTube, enfim, têm uma série de canais por onde se expressar e estão a levantar dúvidas sérias sobre o presidente.
Sim, Marjorie Taylor Greene é um exemplo, ou até o próprio responsável máximo dos republicanos na Câmara Baixa. Mike Johnson veio apelar a que o que houver seja publicado. De facto, os republicanos, se nós olharmos pras sondagens mais recentes, parecem estar divididos. Já não vou falar no conjunto dos americanos, que realmente rejeitam a forma como Trump tem lidado com isto, à volta de 54%, só 17 é que apoiam. Mas depois se formos aos republicanos, 35% apoiam o presidente, apesar de tudo, 35% não sabem muito bem, portanto, parecem estar aqui a hesitar e 30%, de facto, rejeitam a forma como Donald Trump tem estado a lidar com a questão. E portanto, isso para os republicanos, que muitas vezes apoiam Donald Trump em taxas acima dos 80%, realmente é algo, à partida, preocupante, diferente. Vamos ver. Apesar de tudo, não é dos temas que mais importa aos americanos. Também uma sondagem recente também mostrava isso. Está longe de ser a primeira prioridade. Agora, aqui o que é interessante é perceber se neste núcleo duro de à volta de 20, 25% de pessoas que realmente se identificam como MAGA, como dedicados a Donald Trump, se nesse setor uma parte importante, e podem ser apenas alguns pontos percentuais, no fundo deixam de ter essa fidelidade quase cega em relação a Donald Trump. Porém, isso num contexto muito polarizado, em que as eleições são decididas muitas vezes por muito poucos votos, pode ter um impacto muito grande em termos eleitorais, logo a começar nas eleições no final do ano na Virgínia, em Nova York, Nova Jersey, e depois no próximo ano, em novembro do próximo ano, nas eleições intercalares que vão determinar novamente o controle do Congresso.
Mas vamos imaginar aqui o pior cenário para Donald Trump. Já sabes que muitas vezes gostamos de evoluir pra esses cenários até pra tentar perceber o que o futuro nos pode trazer. E descobrem que há realmente algum problema no envolvimento entre Trump e Epstein. Isto poderia abrir o caminho a um processo de impeachment, por exemplo?
Bem, esse é, no fundo, um tema recorrente na política americana mas não tem corrido muito bem. Basicamente, nunca foi possível fazer um impeachment de um presidente. Enfim, o caso do Nixon pode-se dizer que era quase certo que ele seria afastado e, portanto, por isso optou por se demitir antes disso Mas não temos nenhum precedente, porque realmente é muito difícil. É preciso haver uma maioria na Câmara dos Representantes que vote a favor, mas depois é preciso que haja uma outra maioria, uma maioria reforçada no Senado que vote a favor da condenação. E como sabemos, é muito difícil ter maiorias, sobretudo maiorias alargadas nas duas câmaras para o mesmo partido, isso é realmente bastante difícil. A mim parece-me evidente que, para já, a questão mais imediata é esta: é perceber se isto vai agravar os problemas do Donald Trump nas sondagens. Ele continua a cair nas sondagens, está com uma taxa de desaprovação de 52%, está a cair em todos os principais temas, até na imigração, 7% negativos, no comércio 16% negativos, na economia mais ou menos a mesma coisa, na inflação 26% negativos. Na diferença entre avaliação positiva e negativa, está muito no negativo e se isto tender a agravar mais essa questão, isso pode realmente começar a afetar a sua capacidade de controlar, nomeadamente o Partido Republicano, o Congresso, e a sua capacidade de ter um controle grande sobre a agenda política. Acho que essa é a ameaça mais imediata. Acho que para isso acontecer, teríamos de pensar, provavelmente, no impacto nas eleições intercalares, em maiorias significativas do Partido Democrático nessas intercalares. Para já, também não são nada de seguro, porque o Partido Democrático, também é preciso dizer isso, não está propriamente muito popular. Há uma grande insatisfação com os dois principais partidos. Acho que essa questão certamente vai se manter em cima da mesa, mas para já não creio que seja uma questão que se coloque no imediato, mas nunca pode ser afastada. Realmente, essa disposição existe na Constituição americana.
Obrigado, Bruno.
Obrigado.
Bruno Cardoso Reis é historiador e habitual comentador de internacional da Rádio Observador. É também o autor do podcast "Cinco Continentes". Ficam ainda três destaques para esta terça-feira: o Presidente da República recebe em audiência o Chega e também Mariana Leitão, que no sábado foi eleita líder da Iniciativa Liberal. No Parlamento, está prevista a audição do Conselho de Administração da RTP sobre a demissão da direção de informação. Isto na Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto. E às 20h, no futebol feminino, há um Inglaterra-Itália que jogam a primeira meia-final do Europeu na Suíça. Na quarta, será a vez de Alemanha e Espanha se defrontarem para saber quem vai à final no domingo. E neste dia 22 de julho, assinala-se o Dia Mundial do Cérebro. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.